24 de Dezembro de 1882, por
C.H.SPURGEON
no Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres
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Depois de Jesus ter nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, vieram alguns magos do oriente a Jerusalém, perguntando: Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Vimos sua estrela no oriente e viemos adorá-lo. Depois de ouvirem o rei, partiram; e a estrela que tinham visto no oriente foi adiante deles, até que parou sobre o lugar onde o menino estava. Ao verem a estrela, os magos ficaram extremamente alegres. (Mt 2. 12; 9-10)
Vejam queridos amigos, a glória do nosso Senhor Jesus Cristo mesmo em estado de humilhação. Ele nasceu de pais humildes e foi colocado em uma manjedoura envolto em simples faixas, mas os principados e potestades celestiais estão em festa! Primeiro é um anjo que desce e proclama o advento do Rei recém-nascido e, de repente, uma hoste celestial surge cantando glória a Deus. E nem eram apenas os seres espirituais de cima que estavam felizes, pois abaixo desse céu estava uma terra em alvoroço. Uma estrela é escolhida representando todas as outras, como um ente enviado com plenos poderes para representar todos os astros diante de seu Rei. Essa estrela é designada e para acima do seu Senhor e é colocada como seu arauto para os homens, ela é como um porteiro a conduzilos ante a Sua presença, uma espécie de guarda-costas a proteger o Seu berço. Pastores vieram prestar-Lhe as homenagens de pessoas simples, com todo amor e alegria, curvaram-se diante daquela criança misteriosa. Depois disso, de longe, aparecem as mentes mais brilhantes daquela geração. Fazendo uma viagem longa e difícil, finalmente chegam os representantes dos gentios. Os reis Seba e Sabá oferecem presentes: ouro, incenso e mirra[1]. Homens sábios, líderes de seus povos, curvam-se diante dEle e reverenciam o Filho de Deus. Onde quer que estivesse, Cristo é honrado. “Para vós, os que credes, ela é preciosa” (1 Pd 2.7). No dia das pequenas coisas, quando a Causa de Deus é privada de atenção e escondida em meio a coisas desprezadas, ela ainda é gloriosa. Cristo, embora criança, ainda é Rei dos reis; embora entre os bois, ele ainda é destacado por uma estrela.
Amados amigos, se os sábios de antigamente vieram e adoraram a Jesus, não deveríamos nós fazer o mesmo? Meu forte desejo nesta manhã é esse: que todos nós tributemos louvor àquele sobre quem cantamos: “Um menino nos nasceu, um filho se nos deu”[2]. Que aqueles entre nós que estão habituados a adorar possam, hoje, ter uma adoração ainda mais reverente e humilde e com um amor ainda mais intenso. E Deus conceda – oh, que Ele conceda isso
– que aqueles que estão longe espiritualmente, assim como os magos o estavam localmente, possam vir hoje e perguntar: “Onde está aquele que nasceu Rei dos judeus? Pois nós viemos adorá-lO.” Que os pés acostumados às estradas largas, mas não às estreitas, trilhem hoje esse caminho até encontrarem Jesus e se prostrem diante dEle de todo o coração, encontrando nEle a salvação. Esses sábios homens vieram naturalmente, atravessando o deserto, então venhamos nós, espiritualmente, abandonando os nossos pecados. Eles foram guiados pela observação de uma estrela, então que sejamos guiados pelo Espírito divino, pelo ensino de Sua Palavra e todas aquelas luzes que o Senhor dispõe para conduzir os homens a Si mesmo. Apenas nos cheguemos a Ele. Foi bom para eles ver aquele menino Jesus, iluminado pelos fachos de luz de uma estrela, mas você O verá ainda mais glorioso, pois agora, Ele está exaltado acima dos céus, com Sua própria luz revelando a Sua perfeita glória. Não se atrase, pois é Ele mesmo quem diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” (Mt 11.28).
Nesta manhã, vamos tentar fazer três coisas: primeiro, vamos nos reunir em volta dessa estrela. Que o Espírito do Senhor nos capacite a fazê-lo. Em segundo lugar, vamos absorver a sabedoria desses sábios e, em terceiro lugar, vamos agir como pessoas sábias, ajudados por nossa própria estrela.
I. Primeiro, então, VAMOS NOS REUNIR EM VOLTA DESSA ESTRELA. Que o Espírito do Senhor nos capacite a fazê-lo.
Suponho que cada um tenha sua própria opinião sobre o que essa estrela era. Parece ter sido totalmente sobrenatural e uma estrela ou um cometa comuns. Não era uma constelação nem um alinhamento de planetas, pois não há nada nas Escrituras que suporte essa ideia. Certamente, não se tratou de uma estrela no sentido atual que falamos hoje em dia, pois sabemos que ela se moveu diante dos sábios, desapareceu de repente, e novamente brilhou se movendo diante deles. Não era uma estrela nas esferas superiores do céu, pois tais movimentos não seriam possíveis. Alguns supuseram que os sábios foram na direção em que a estrela brilhava nos céus e seguiram as mudanças de sua posição; mas, nesse caso, não se poderia dizer que ela estava sobre o lugar onde a criança estava. Se a estrela estivesse em seu zênite[3] sobre Belém, ela também estaria em seu zênite sobre Jerusalém; pois a distância é tão pequena que não teria sido possível observar qualquer diferença na posição da estrela entre esses dois lugares. Deve ter sido uma estrela que ocupava uma esfera completamente diferente daquela em que os planetas orbitam. Acreditamos que tenha sido uma aparição luminosa no ar, provavelmente semelhante àquela que guiou os filhos de Israel pelo deserto, que era uma nuvem durante o dia e uma coluna de fogo à noite. Não podemos dizer se foi vista durante o dia ou não. Crisóstomo[4] e os primeiros pais da Igreja são surpreendentemente positivos sobre muitas coisas que as Escrituras deixam em dúvida, mas como esses eminentes teólogos recorreram à imaginação para suas conclusões, não estamos obrigados a segui-los.
Eles afirmam que essa estrela era tão brilhante que podia ser vista o dia todo.5 Se fosse assim, podemos imaginar os sábios viajando dia e noite; mas se só pudesse ser vista à noite, a cena diante de nós se torna muito mais singular e estranha, à medida que vemos esses orientais tranquilamente seguindo seu caminho iluminado pelas estrelas, descansando forçosamente quando o Sol brilhava mais, mas apressando-se silenciosamente à noite por terras adormecidas. Essas questões não são de grande importância para nós, e, portanto, não vamos nos alongar sobre elas.
Aqui já temos nossa primeira lição: se algum dia os homens falharem em pregar o evangelho, Deus pode conduzir as almas ao Seu Filho por meio de uma estrela. Ah! Não diga apenas por uma estrela, mas por uma pedra, um pássaro, uma folha de grama, uma gota de orvalho.
“Lembre-se de que a Onipotência
Tem servos em toda parte.”6
Portanto, não se desanime quando ouvir que um ministro deixou de pregar o evangelho, ou que outro está lutando contra a verdade vital de Deus. A apostasia dele será para sua própria perda, e não para o mal de Jesus e Sua igreja; e, por mais triste que seja ver
as lâmpadas do santuário apagadas, ainda assim Deus não depende das luzes humanas, Ele é a luz Shekhiná[5] de Seu próprio lugar santo. As línguas mortais, se se recusarem a pregar Sua palavra, terão seus lugares substituídos por livros nos riachos correntes e sermões nas pedras. O facho de luz clamará da parede, e a madeira lhe responderá. Quando os principais sacerdotes e escribas tiverem saído de ação, o Senhor colocará as estrelas em ação, e mais uma vez, de fato, os céus estarão proclamando a glória de Deus, e o firmamento estará mostrando Suas obras8. Antes que os pregadores faltem para o Deus encarnado, montanhas e colinas aprenderão a eloquência e romperão em testemunho. A mensagem de Jeová será anunciada até os confins da terra. Deus salvará os Seus eleitos. Ele fará Cristo ver o trabalho da Sua alma e Se alegrará com isso. Seu conselho permanecerá, e Ele fará toda a Sua vontade[6]. Aleluia!
Ora, quando o Senhor usa uma estrela como Seu ministro, qual é a ordem do seu ministério? Podemos aprender com essa reflexão que tipo de ministério Deus quer que tenhamos, se somos estrelas em Sua destra. Nós também brilhamos como luzes no mundo. Vejamos como fazê-lo.
Notemos, em primeiro lugar, que a pregação da estrela é toda sobre Cristo. Não sabemos qual era a cor da estrela, nem sua forma, nem qual era a sua grandeza; esses detalhes não foram registrados, mas o que foi registrado é de muito mais importância: os magos disseram: “vimos sua estrela”. Portanto, a estrela que o Senhor usará para conduzir os homens a Jesus deve ser a própria estrela de Cristo. O ministro fiel, como essa estrela, pertence a Cristo; ele é um homem de Cristo no sentido mais enfático. Antes de podermos esperar ser uma bênção, queridos amigos, nós mesmos devemos ser abençoados pelo Senhor. Se quisermos que outros pertençam a Jesus, devemos pertencer inteiramente a Jesus primeiro. Cada raio daquela estrela brilhava na direção de Jesus. Era a estrela dEle, sempre dEle, e somente dEle, e por completo dEle. Ela não brilhava para si mesma, mas apenas como a estrela dEle: como tal, era conhecida e mencionada: “Vimos sua estrela”. Como já disse, não há registro de nenhuma peculiaridade que ela possuísse, exceto esta: era a estrela do Rei. Desejo que você e eu, quaisquer que sejam nossas excentricidades ou personalidades, jamais as enfatizemos a ponto de atrair a atenção das pessoas para nós. Que as pessoas nunca se detenham em nossas conquistas ou em nossas deficiências, mas que sempre observem isto: que somos homens de Deus, que somos embaixadores de Cristo, que somos servos de Cristo e que não buscamos brilhar por nós mesmos ou nos tornar notáveis, mas que trabalhamos para brilhar para Ele, para que Seu caminho seja conhecido na terra e Sua salvação entre todos os povos.
Irmãos, é bom nos esquecermos de nós mesmos em nossa mensagem e mergulharmos em nosso Mestre. Conhecemos os nomes de várias estrelas, mas todas elas podem invejar aquela estrela que permanece anônima, mas que jamais será esquecida porque os homens que buscavam o Rei de Israel a conheciam como “Sua estrela”. Embora você seja apenas uma pequena estrela, brilhando para Jesus, e por mais fraca que seja a sua luz, que fique claro que você é a estrela dEle, de modo que, se as pessoas se perguntarem quem você é, jamais se perguntarão a quem você pertence, pois bem à sua frente estará escrito: “De quem sou e a quem sirvo”. Deus não conduzirá os homens a Cristo por nosso intermédio a menos que sejamos de Cristo de todo o nosso coração, completamente e sem reservas. Em seu templo, nosso Senhor não usa vasos emprestados; cada taça diante do altar deve ser a Sua própria. Não é compatível com a glória de Deus que Ele use vasos emprestados. Ele não é tão pobre a ponto de Se tornar assim. Esta lição merece toda nossa aceitação. Você está com pressa para pregar, jovem? Tem certeza de que pertence a Cristo? Acha que deve ser maravilhoso ter uma plateia ouvindo suas palavras? Já considerou a questão sob outra perspectiva? Já ponderou a responsabilidade de ter que falar como Cristo quer que você fale e de se entregar completamente à vontade de Deus? Você precisa ser consagrado e concentrado se quiser ser usado pelo Senhor. Se você tem um ou dez mil raios de luz, todos devem brilhar com o único propósito de guiar os homens a Jesus. Você não tem agora nada a ver com qualquer objeto, assunto, desígnio ou empreendimento, senão somente com Jesus: nEle, para Ele e a Ele você deve viver daqui em diante, ou jamais será escolhido pelo Senhor para conduzir sábios ou crianças a Jesus. Cuide bem para que a perfeita consagração seja sua.
Note-se a seguir que a verdadeira pregação dessa estrela leva a Cristo. A estrela era a estrela de Cristo, mas também levou outros a Cristo. Fez isso principalmente porque se movia nessa direção. É algo triste quando um pregador é como uma placa de sinalização apontando o caminho, mas nunca o segue por conta própria. Assim eram os principais sacerdotes em Jerusalém: podiam dizer onde Cristo havia nascido, mas não foram adorá-lO; eram totalmente indiferentes a Ele e ao Seu nascimento. A estrela que leva a Cristo deve sempre estar indo para Cristo. Os homens são muito mais atraídos pelo exemplo do que pela exortação. A piedade pessoal, por si só, pode ser reconhecida por Deus na produção de piedade nos outros. “Vão”, dizem vocês, mas eles não vão. Diz “venham”, e mostre o caminho: então eles virão. Não é assim que as ovelhas seguem o pastor? Quem quer que conduza outros a Cristo deve ir à frente deles, com o rosto voltado para o Mestre, os olhos voltados para o Mestre, os passos voltados para o Mestre, o coração voltado para o Mestre. Devemos viver de tal forma que possamos, sem nos vangloriar, exortar os que estão ao nosso redor a nos terem como exemplo. Oh, que todos os que se consideram estrelas se movam diligentemente em direção ao Senhor Jesus!
A estrela no Oriente levou os sábios a Cristo porque ela mesma foi nessa direção. e há aqui uma sabedoria no exemplo que os verdadeiros sábios são rápidos em perceber. Essa estrela teve tal influência sobre aqueles homens escolhidos, que eles não puderam deixar de segui-la, e ela os encantou através do deserto. Tal encanto pode residir em você e em mim e podemos exercer um ministério poderoso sobre muitos corações, sendo para eles como imãs, atraindo-os para o Senhor Jesus. Que privilégio abençoado! Não queremos apenas mostrar o caminho, mas induzir nossos próximos a entrar nele. Lemos de um antigo, não que disseram a ele sobre Jesus, mas que “o trouxeram a Jesus”. Não devemos apenas contar a história da cruz, mas persuadir os homens a correrem para o Crucificado em busca de salvação. Não disse o rei na parábola a seus servos: “força-os a entrar?” (Lucas 14.23)? Certamente Ele reveste Seus próprios mensageiros com tal poder persuasivo que os homens não podem resistir mais, porém, devem seguir sua liderança e se prostrar aos pés do Rei. A estrela não atraía “como com uma corda de carroça”[7], nem por qualquer força material e física; ainda assim, ela atraiu esses sábios do distante Oriente diretamente para o estábulo onde o recém-nascido estava. E assim, embora não tenhamos o braço da lei para nos ajudar, nem patrocínio, nem a pompa da eloquência, nem o desfile do saber, ainda assim temos um poder espiritual pelo qual atraímos para Jesus milhares que são nossa alegria e coroa. O homem enviado por Deus sai da presença divina permeado por um poder que faz os homens se voltarem para o Salvador e viverem. Oh, que tal poder possa sair de todos os ministros de Deus, sim, de todos os servos de Deus envolvidos na pregação nas ruas, nas escolas dominicais, na distribuição de folhetos e em toda forma de serviço santo.
Deus usa aqueles cujo objetivo é atrair os homens para Cristo. Ele coloca Seu Espírito neles, Espírito esse, pelo qual são ajudados a apresentar o Senhor Jesus como tão belo e desejável que os homens correm até Ele e aceitam Sua gloriosa salvação. É uma coisa pequena brilhar, mas é uma grande coisa atrair. Qualquer rejeitado pode ser brilhante, mas somente o verdadeiro santo será atraente para Jesus. Eu não pediria para ser um orador, mas oro para ser um ganhador de almas. Não visem, amados irmãos, nada menos do que levar os homens a Jesus. Não se contentem em levá-los à doutrina ortodoxa, ou meramente trazê-los a uma crença nas visões que vocês consideram ser bíblicas, por mais valiosas que possam ser. É à pessoa do Deus encarnado que devemos trazê-los; a Seus pés devemos conduzi-los para que O adorem: nossa missão não estará cumprida e será um fracasso total, a menos que conduzamos nossos ouvintes à casa onde Jesus habita, e então fique ao lado deles, vigiando suas almas por amor a Jesus.
Uma vez mais, a estrela que Deus usou neste caso foi uma estrela que parou em Jesus; ela foi à frente dos magos até levá-los a Jesus, e então parou sobre o lugar onde estava a criança. Admiro a
maneira como essa estrela se comportou. Existem estrelas notáveis no céu teológico atualmente: elas conduziram homens a Jesus, dizem, e agora os conduzem a regiões além, de um pensamento ainda em desenvolvimento. O evangelho dos puritanos é “antiquado”; esses homens descobriram que ele é inadequado para os intelectos expandidos da época; e assim, essas estrelas nos guiariam ainda mais longe. A essa ordem de estrelas errantes eu não pertenço, e espero nunca pertencer. Não tenho desejo de progredir além do evangelho. “Mas longe de mim orgulhar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Galatás 6.14). Quando a estrela chegou ao lugar onde estava a criança, ela parou e assim a mente graciosa deve se firmar, se fixar e se tornar inabalável. Os sábios sabiam onde encontrar aquela estrela e onde encontrar a criança perto dela, assim seja conosco. Ah vocês que até agora foram diligentes em conduzir almas a Cristo, jamais se permitam, nem por um instante, a ideia de que necessitam de uma filosofia mais ampla ou de uma espiritualidade mais profunda do que as que se encontram em Jesus. Permanecei nele. Clame: “Ó Deus, meu coração está firme. Meu coração está firme.” Não há nada além de Cristo que mereça um momento de reflexão. Não perca seu paraíso em Cristo por mais uma prova daquela árvore do conhecimento do bem e do mal que arruinou nossos primeiros pais. Mantenham-se firmes nos princípios fundamentais, o único tema de vocês, Cristo; o seu único objetivo: levar os homens a Cristo; a única glória: a glória de Cristo. Permanecendo com seu Senhor, e somente nEle, deste dia até o último dia, tomem de uma vida feliz, honrada e santa.
Disseram da Grécia, após sua queda, que ela se tornara tão arruinada que se poderia procurar a Grécia na Grécia e não a encontrariam. Temo ter que dizer que alguns pregadores do evangelho que se afastaram tanto dele que não se encontra o evangelho em seu evangelho, nem o próprio Cristo no Cristo que pregam. Alguns divergiram tanto da grande e essencial verdade salvadora da alma, além da qual ninguém deveria ousar pensar em ir, que nada retêm do cristianismo além do nome. Tudo o que está além da verdade é mentira, e qualquer coisa além da revelação é, na melhor das hipóteses, um assunto menor, e muito provavelmente uma “lenda urbana”, mesmo que quem a inventou seja bem intencionado[8]. Mantenham-se fiéis às suas crenças, vocês que esperam ser usados pelo Senhor. Permaneçam assim para que, daqui a vinte anos, os homens os encontrem brilhando por Jesus e apontando para o lugar onde o Salvador pode ser encontrado, assim como vocês estão fazendo agora. Que Jesus Cristo seja o seu ultimato. Seu trabalho estará concluído quando vocês levarem almas a Jesus e ajudarem a mantê-las lá, sendo vocês mesmos “firmes e inabaláveis”12. Não se deixem levar da esperança da sua vocação; mas apeguem-se firmemente até mesmo à forma das palavras sãs, pois pode ser que, ao abandonar a forma, vocês percam também a essência.
II. Agora que nos alegramos um pouco com a luz da estrela, vejamos se conseguimos ABSORVER A SABEDORIA DOS SÁBIOS. Talvez você já tenha ouvido falar muito sobre quem eles eram, de onde vieram e como viajaram. Na Igreja Ortodoxa Grega, creio eu, sabe-se quantos eram, seus nomes, as características de sua comitiva e que tipo de ornamentos adornavam o pescoço de seus dromedários. Detalhes que não se encontram na Palavra de Deus, e você pode acreditar ou não, a seu bel-prazer, e será sábio se o seu prazer for não acreditar demais. Sabemos apenas que eram magos, sábios do Oriente, possivelmente da antiga religião parsi — observadores, senão adoradores, das estrelas[9]. Não vamos especular sobre eles, mas aprender com eles.
Eles não se contentaram em admirar a estrela e compará-la com outras, anotando a data exata de seu aparecimento, quantas vezes ela cintilou, quando se moveu e tudo mais; mas aplicaram na prática os ensinamentos da estrela. Muitos são ouvintes e admiradores dos servos de Deus, mas não são sábios o suficiente para fazer uso adequado e apropriado da pregação. Notam a peculiaridade da linguagem do pregador, o quanto ele se assemelha a um teólogo, o quanto se diferencia de outro; se tosse com muita frequência ou fala com a voz muito rouca; se fala muito alto ou muito baixo; se não tem um tom provinciano, se não há nele uma linguagem coloquial que beira a vulgaridade; ou, por outro lado, se não usa uma dicção rebuscada demais. Tais tolices são as observações constantes de homens por cujas almas trabalhamos. Estão perecendo e, ainda assim, se preocupam com coisas tão insignificantes. Para muitos, é só para isso que vão à casa de Deus: para tecer críticas de maneira mesquinha. Cheguei a vê-los alcançar a este lugar com binóculos, como se viessem aqui para observar um ator que vivia para entreter seus momentos de lazer. Tal é a diversão dos tolos, porém, estes que estamos observando eram homens sábios e, portanto, homens práticos. Eles não se tornaram contempladores das estrelas, parando apenas em admirar a estrela notável; mas disseram: “Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Pois vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. Partiram imediatamente em busca do Rei recém-nascido, cuja vinda era anunciada pela estrela. Oh, meus queridos ouvintes, como eu gostaria que todos vocês fossem sábios dessa mesma maneira! Eu preferiria pregar o sermão mais enfadonho já pregado do que o mais brilhante já proferido, se pudesse com esse humilde sermão levá-los a buscar o Senhor Jesus Cristo. Isso é a única coisa que me importa. Vocês nunca me darão a satisfação de perguntar sobre o meu Senhor e Mestre? Anseio por ouvir vocês dizerem: “Do que esse homem está falando? Ele fala de um Salvador, e nós teremos esse Salvador para nós mesmos. Ele fala sobre o perdão através do sangue de Cristo; ele fala sobre Deus vindo ao mundo para salvá-los; descobriremos se há alguma realidade nesse perdão, alguma verdade nessa salvação. Buscaremos a Jesus e encontraremos por nós mesmos as bênçãos que dizem estar reservadas nele.” Se eu ouvisse todos vocês dizendo isso, eu estaria pronto para morrer de alegria.
Não seria este um bom dia para partir em busca do seu Salvador? Alguns de vocês que têm adiado essa decisão por muito tempo, não seria bom partir imediatamente, antes que este ano que se encerra chegue ao fim? Parece que esses homens sábios partiram assim que descobriram a estrela, eles não estavam entre aqueles que perdem tempo com atrasos desnecessários. “Ali está a estrela”, disseram eles; “vamos, guiados por ela. Não nos contentamos com uma estrela, vamos encontrar o Rei a quem ela pertence!” E assim partiram para encontrar Cristo imediatamente e com determinação.
Sendo homens sábios, perseveraram em sua busca por Ele. Não sabemos até onde viajaram. Viajar era extremamente difícil naquela época. Havia tribos hostis a evitar, os caudalosos rios Tigre e Eufrates a atravessar e desertos inóspitos a percorrer; mas eles não se deixaram abalar pelas dificuldades ou perigos. Partiram para Jerusalém, e em Jerusalém chegaram buscando o Rei dos judeus. Se é verdade que Deus assumiu a nossa natureza, devemos resolver encontrá-lO, custe o que custar. Se tivermos que circundar o globo para encontrar um Salvador, a distância e o custo não deveriam importar, contanto que possamos alcançá-lO. Esteja Cristo nas entranhas da terra ou nas alturas do céu, não devemos descansar até chegarmos até Ele. Tudo o que era necessário para a sua expedição, os magos logo reuniram, sem se importarem com as despesas, e partiram seguindo a estrela para descobrir o Príncipe dos reis da Terra.
Finalmente, chegaram a Jerusalém, onde novos desafios os aguardavam. Deve ter sido um grande incômodo para eles quando perguntaram: “Onde está o rei dos judeus recém-nascido?” (Mt 2.2) e o povo balançou a cabeça como se considerasse a pergunta trivial. Nem ricos nem pobres na cidade metropolitana sabiam nada sobre o Rei de Israel. A multidão irreverente respondeu: “Herodes é o rei dos judeus. Cuidado com o que vocês falam de outro rei, ou suas cabeças poderão pagar por isso. O tirano não tolera rivais.” Os sábios devem ter ficado ainda mais surpresos ao verem Herodes perturbado. Estavam felizes por pensar que aquele que inauguraria a era de ouro havia nascido; mas o rosto de Herodes escureceu como nunca ao simples mencionar de um rei dos judeus. Seus olhos brilharam e uma nuvem de tempestade pairou sobre sua testa; um ato sombrio de assassinato resultaria disso, embora por ora ele ocultasse sua malícia. Há tumulto por todas as ruas de Jerusalém, pois ninguém sabe o que o severo Herodes fará agora que foi despertado pela pergunta: “Onde está aquele que nasceu Rei dos Judeus?” Assim, houve uma agitação em Jerusalém, começando no palácio; mas isso não impediu a busca dos sábios pelo príncipe prometido. Eles não recolheram seus pertences e voltaram dizendo: “É inútil tentar descobrir essa figura questionável, desconhecida até mesmo no país do qual é rei, e que parece ser terrivelmente indesejável para aqueles que serão seus súditos. Devemos deixar para outro dia a solução da pergunta: Onde está aquele que nasceu Rei dos Judeus?”.
Esses sinceros observadores do céu não se deixaram desanimar pelo clero e pelos homens sábios quando se reuniram. Aos principais sacerdotes e escribas foi feita a pergunta, e eles responderam sobre onde Cristo nasceria, mas não havia uma única pessoa entre eles que quisesse acompanhar os magos para encontrar o Rei recém-nascido. Que estranha apatia! Ai, como é comum! Aqueles que deveriam ser líderes não o eram; sequer queriam seguir o bem, pois não tinham coração para Cristo. Os magos, porém, superaram esse sério desânimo. Se o clero não os ajudasse, eles iriam até Jesus por conta própria. Ó, meu caro amigo, se você for sábio, dirá: “Encontrarei Cristo sozinho, mesmo que ninguém se junte a mim; se eu cavar até o centro da terra, eu O encontrarei; se eu voar em direção ao Sol, eu O encontrarei; se todos me rejeitarem, eu O encontrarei; se os ministros do evangelho me parecerem indiferentes, eu O encontrarei; o reino dos céus da antiguidade foi tomado à força, e os violentos o conquistaram, e assim também eu o farei”. Os primeiros cristãos tiveram que deixar para trás todos os mestres autorizados da época e seguir sozinhos: não será estranho se você tiver que fazer o mesmo. Feliz será se você estiver determinado a atravessar enchentes e chamas para encontrar Cristo, pois Ele será encontrado por você. Assim, esses homens foram sábios porque, tendo começado a busca, perseveraram até encontrarem o Senhor e o adorarem.
Note que eles foram sábios porque, quando viram a estrela novamente, “os magos ficaram extremamente alegres.” (Mt 2.10). Enquanto consultavam os sacerdotes em Jerusalém, estavam perplexos, mas quando a estrela brilhou novamente, ficaram tranquilos e cheios de alegria, essa alegria eles expressaram, de modo que o evangelista a registrou. Hoje em dia, pessoas muito sábias acham necessário reprimir toda emoção e parecer homens de pedra ou gelo. Não importa o que aconteça, são estoicas e se elevam muito acima de um simples entusiasmo. É maravilhoso como as modas mudam e a tolice passa por filosofia. Mas esses sábios eram como crianças, pois se alegraram quando sua perplexidade passou e a luz clara brilhou. É um bom sinal quando um homem não se envergonha de ser feliz porque ouve um testemunho claro e inequívoco do Senhor Jesus. É bom ver o grande homem descer de seu pedestal e, como uma criança pequena, se alegrar ao ouvir a simples história da cruz. Dê-me o ouvinte que não busca luxos, mas clama: “Guia-me a Jesus. Quero um guia para Jesus, e nada mais me satisfará”. Ora, se os homens conhecessem o valor das coisas, se alegrariam mais ao ver um pregador do evangelho do que um rei. Se os pés dos arautos da salvação são abençoados, quanto mais suas línguas quando proclamam as boas-vindas a um Salvador! Esses sábios, com todo o seu conhecimento místico, não se envergonharam de se alegrar porque uma pequena estrela lhes emprestou seus raios para guiá-los a Jesus. Unimo-nos a eles na alegria por um ministério evangélico claro. Para nós, todo o resto é escuridão, tristeza e aflição de espírito; mas aquilo que nos conduz ao nosso glorioso Senhor é espírito, luz e vida. Melhor que o Sol não brilhe do que um evangelho iluminado não seja pregado. Consideramos que um país floresce ou decai conforme a luz do evangelho é revelada ou retirada.
Agora sigamos um pouco mais esses homens sábios. Eles chegaram à casa onde estava o menino. O que farão? Ficarão olhando para a estrela? Não, eles entram. A estrela permanece parada, mas eles não têm medo de perder o seu brilho, e contemplam o Sol da Justiça. Eles não disseram: “Vimos a estrela, e isso nos basta; seguimos a estrela, e é tudo o que precisamos fazer.” De modo nenhum. Eles abrem a porta e entram na humilde residência do bebê. Já não veem mais a estrela e não precisam mais vê-la, pois ali está aquele que nasceu Rei dos Judeus. Agora a verdadeira luz brilhou sobre eles a partir do rosto da criança; eles contemplam o Deus encarnado. Oh, amigos, como vocês serão sábios se, quando forem conduzidos a Cristo por qualquer homem, não descansarem na liderança dele, mas procurarem ver Cristo por vocês mesmos. Como eu desejo que vocês entrem na comunhão do mistério, passem pela porta, venham e contemplem o menino, e se prostrem diante dEle. Nossa tristeza é que muitos são insensatos demais. Nós somos apenas seus guias, mas eles tendem a fazer de nós o seu fim. Apontamos o caminho, mas eles não seguem a estrada; ficam parados olhando para nós. A estrela se foi; cumpriu o seu trabalho e passou, Jesus permanece e os sábios vivem nEle. Será que algum de vocês é tolo o bastante para pensar apenas no pregador que morre e esquecer o Salvador que vive para sempre? Venham, sejam sábios e apressem-se imediatamente ao encontro de seu Senhor.
Esses homens foram sábios, por fim — e recomendo que vocês sigam o exemplo deles — porque, quando viram a criança, eles a adoraram. Não foi uma simples curiosidade satisfeita, mas devoção praticada. Nós também devemos adorar o Salvador, ou jamais seremos salvos por Ele. Ele não veio para remover nossos pecados e ainda assim nos deixar ímpios e obstinados em nossa própria vontade. Ó vocês que nunca adoraram o Cristo de Deus, que sejam conduzidos a fazê-lo imediatamente! Ele é Deus sobre todos, bendito eternamente: adorem-nO! Deus já tinha sido visto antes em forma tão digna de adoração? Eis que Ele inclina os céus; cavalga sobre as asas do vento; espalha chamas de fogo; fala, e sua elevada voz faz tremer os montes: vocês o adoram em terror. Quem não adoraria o grande e terrível Jeová? Mas não é muito melhor contemplá-lO aqui, aliado à sua natureza, envolto como outras crianças em faixas, tenro, frágil, tão próximo a vocês? Não adorarão a Deus quando Ele assim desce até vocês e Se torna seu irmão, nascido para sua salvação? Aqui, a própria natureza sugere adoração; oh, que a graça produza esse desejo! Apressemo-nos a adorar onde pastores, magos e anjos abriram caminho.
Aqui, deixe o meu sermão fazer uma pausa, assim como a estrela fez. Entrem na casa e adorem! Esqueçam o pregador. Deixem que a luz da estrela brilhe para outros olhos. Jesus nasceu para que vocês nascessem de novo. Ele viveu para que vocês vivessem. Ele morreu para que vocês morressem para o pecado. Ele ressuscitou, e hoje intercede pelos transgressores, para que sejam reconciliados com Deus por meio dEle. Venham, então; creiam, confiem, alegremse, adorem! Se vocês não têm ouro, incenso nem mirra, tragam sua fé, seu amor, seu arrependimento e, prostrando-se diante do Filho de Deus, ofereçam-lhe a reverência de seus corações.
III. E agora passo ao meu terceiro e último ponto, que é este: VAMOS AGIR COMO PESSOAS SÁBIAS, AJUDADOS POR NOSSA PRÓPRIA ESTRELA. Nós também recebemos luz para nos guiar ao Salvador. Eu diria que muitas estrelas brilharam para nós com esse propósito abençoado. Contudo, neste ponto, limitarei a fazer perguntas.
Você não acha que existe alguma luz para você em sua vocação específica, algum chamado de Deus em seu trabalho? Ouça-me, e então ouça a Deus. Esses homens eram observadores das estrelas; portanto, uma estrela foi usada para chamá-los. Alguns outros homens, pouco tempo depois, que eram pescadores, e por meio de uma pesca extraordinária o Senhor Jesus os fez perceber Seu poder superior, e então os chamou para se tornarem pescadores de homens. Para um observador de estrelas, uma estrela; para um pescador, um peixe. O Mestre Pescador tem uma isca para cada um dos Seus eleitos, e muitas vezes Ele escolhe algum ponto da própria vocação deles para ser o anzol que os fisga. Você estava ocupado ontem no seu balcão? Não ouviu nenhuma voz dizendo: “Compre a verdade e não a venda”[10]? Quando fechou a loja ontem à noite, não pensou que em breve terá de fechá-la pela última vez? Você faz pão?
E nunca se perguntou: “Será que minha alma tem comido o pão do céu?” Você é agricultor? Trabalha a terra? Deus nunca falou com você por meio desses campos arados e dessas estações que mudam, fazendo-o desejar que o seu coração também fosse arado e semeado? Escute! Deus está falando! Ouçam, surdos, pois há vozes por toda parte chamando vocês para o céu. Você não precisa ir longe para encontrar um elo entre você e a misericórdia eterna: os sinais estão por toda parte; Deus e as almas humanas estão próximos uns dos outros. Como eu desejo que sua vocação comum seja vista por você como escondendo em si mesma a porta para sua vocação mais elevada. Ah, que o Espírito Santo transforme seus interesses favoritos em oportunidades para a Sua obra graciosa em você. Se não entre as estrelas, então entre as flores do jardim, ou o gado dos montes, ou as ondas do mar, que Ele encontre uma rede na qual possa recolhê-lo para Cristo.
Eu gostaria que entre vocês, aqueles que pensam que suas atividades jamais poderiam atraí-los a Cristo, se esforçassem para ver se talvez não é isso que está acontecendo. Devemos aprender com as formigas, as andorinhas, as garças e os coelhos; certamente nunca nos faltarão mestres. Parecia que uma estrela era algo improvável para conduzir uma procissão de sábios orientais, e, no entanto, foi o melhor guia possível, e da mesma forma, pode parecer que seu ofício seja algo improvável para levá-lo a Jesus, e ainda assim o Senhor pode usá-lo. Pode haver uma mensagem do Senhor para você em muitas providências inesperadas; uma voz de sabedoria pode vir a você da boca de um jumento; um chamado à vida santa pode surpreendê-lo a partir de um arbusto; um aviso pode brilhar diante de você em uma parede; ou uma visão pode impressioná-lo no silêncio da noite, quando um sono profundo cai sobre os homens. Somente esteja pronto para ouvir e Deus encontrará uma maneira de falar com você. Responda à pergunta como os sábios responderiam, e diga: “Sim, em nossa vocação existe um chamado para Cristo.”
Então, afinal, o que você e eu deveríamos fazer de melhor nesta vida do que buscar a Cristo? Os sábios consideravam todas as outras atividades insignificantes em comparação a esta. “Quem vai cuidar daquele observatório e observar o resto das estrelas?” Eles balançam a cabeça e dizem que não sabem, essas coisas podem esperar; eles viram a estrela dEle e foram adorá-lO. Mas quem cuidará de suas esposas, famílias e de todos os outros enquanto fazem essa longa jornada? Eles respondem que tudo o que é menor deve ser subordinado ao mais importante. As coisas devem ser encaradas em proporção, e a busca pelo Rei dos Judeus, que é o desejo de todas as nações, é tão desproporcionalmente grande que todo o resto deve ser deixado de lado. Vocês também não são sábios o suficiente para julgar dessa maneira sensata? Não acham, queridos amigos, que seria bom usar todo o dia de amanhã para buscar a Jesus? Será um dia de lazer; poderiam aproveitá-lo melhor do que buscando o seu Redentor? Se você dedicasse uma semana inteiramente à sua alma e à busca por Cristo, não seria um tempo bem gasto? Como você pode viver com sua alma em perigo? Ah, se você pudesse dizer: “Preciso resolver isso, é algo de suma importância e preciso garantir que esteja seguro”. Isso seria puro bom senso. Se você estiver dirigindo e uma das rédeas se romper, você não para o cavalo e ajusta a arreios corretamente? Como, então, você pode continuar com a carruagem da vida quando todo o seu arreio está desalinhado e uma queda significa ruína eterna? Se você para de dirigir para ajustar uma fivela por medo de um acidente, eu lhe imploraria que parasse tudo para zelar pela segurança da sua alma. Veja como o engenheiro olha para a válvula de segurança: você se contentaria em correr riscos ainda maiores? Se sua casa não estivesse segurada e você exercesse uma profissão arriscada, provavelmente se sentiria extremamente ansioso até resolver essa questão. Mas sua alma não está segura e pode queimar para sempre, você não lhe dará atenção? Imploro que seja justo consigo mesmo, que seja bondoso consigo mesmo. Oh! Cuide do seu bem-estar eterno. Você não tem certeza se chegará em casa para o jantar hoje. A vida é frágil como uma teia de aranha. Você pode estar no inferno antes que o relógio bata uma hora! Lembre-se disso. Não há um passo sequer entre você e a destruição eterna da presença de Deus se você ainda não for regenerado; e sua única esperança é encontrar o Salvador, confiar no Salvador, obedecer ao Salvador. Portanto, como esses homens sábios, deixe tudo de lado e embarque agora em um esforço sincero, resoluto e perseverante para encontrar Jesus. Eu ia dizer: resolva encontrar Jesus ou morrer; mas mudarei as palavras e direi: resolva encontrá-lO e viver.
Quando nos aproximamos de Jesus, façamos a nós mesmos esta pergunta: “Vemos em Jesus mais do que as outras pessoas?” Pois, se vemos, somos os eleitos de Deus, ensinados por Deus, iluminados pelo Seu Espírito. Lemos nas Escrituras que, quando esses sábios viram o menino, prostraram-se e O adoraram. Outras pessoas poderiam ter entrado, visto a criança e dito: “Muitas crianças são tão interessantes quanto o bebê desta pobre mulher”. Sim, mas ao olharem, esses homens viram: nem todos os olhos são tão abençoados. Os olhos que veem são dádivas do Onisciente. Os olhos carnais são cegos; mas esses homens viram o Infinito no bebê; a Divindade resplandecendo na humanidade; a glória escondida sob as faixas. Sem dúvida, havia um esplendor espiritual nessa criança incomparável! Lemos que o pai e a mãe de Moisés viram “que (ele) era bonito” (Êx 2.2); viram que ele era “agradável a Deus”, diz o original. Mas quando esses homens eleitos viram o que é santo e chamado Filho do Altíssimo, descobriram nEle uma glória totalmente desconhecida. Então a sua estrela brilhou para eles; ele Se tornou o seu tudo em todos, e eles O adoraram de todo o coração. Você já descobriu tal glória em Cristo? “Ah!”, dirá alguém, “você está sempre falando de Cristo e da Sua glória. Você é um homem de uma só ideia!” Exatamente. Minha única ideia é que Ele é “totalmente desejável” e que não há nada fora do céu nem no céu que se compare a Ele, mesmo em Seu estado mais humilde e frágil. Você já viu algo assim em Jesus? Se sim, você pertence ao Senhor; vá e regozije-se nEle. Se não, ore a Deus para que abra seus olhos até que, como os magos, você veja e O adore.
Por fim, aprenda com esses sábios que, quando adoravam, não permitiam que fosse uma mera adoração de mãos vazias. Pergunte a si mesmo: “O que oferecerei ao Senhor?” Inclinando-se diante do menino, ofereceram “ouro, incenso e mirra” (Mt 2.11), os melhores metais e as melhores especiarias; uma oferta de ouro ao Rei; uma oferta de incenso ao sacerdote; uma oferta de mirra ao menino. Os sábios são homens generosos. A consagração é a melhor educação. Hoje, considera-se sábio receber sempre; mas o Salvador disse: “Dar é mais bem-aventurado que receber” (At 20.35). Deus julga nossos corações pelo que sai espontaneamente deles: por isso, o incenso comprado com dinheiro é aceitável a Ele quando oferecido livremente. Ele não sobrecarrega Seus santos nem os cansa com incenso; mas Se alegra em ver neles o verdadeiro amor que não pode se expressar apenas em palavras, mas precisa usar ouro e mirra, obras de amor e atos de abnegação, como emblemas de sua gratidão.
Irmãos, vocês jamais alcançarão a verdadeira felicidade enquanto não se tornarem altruístas e generosos; vocês apenas mastigaram as cascas da religião, que muitas vezes são amargas e nunca provaram do doce miolo até sentirem o amor de Deus constrangendo-os a fazer sacrifícios. Não há nada que o verdadeiro crente não esteja disposto a fazer por seu Senhor, nada em nossos bens que não lhe demos, nada em nós mesmos que não dediquemos ao seu serviço.
Que Deus lhes dê toda a graça de vir a Jesus, mesmo que seja à luz deste sermão, por amor a Ele! Amém.
ORE PARA QUE O ESPÍRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES.
FONTE
Traduzido de https://www.spurgeongems.org/sermon/chs1698.pdf
Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público.
Título original: The Star and the Wise Me
Sermão nº 1698—Volume 29 do The Metropolitan Tabernacle Pulpit
Tradução: Marcos David Muhlpointner
Revisão e diagramação: Armando Marcos
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NOTAS
[1] Citação do Salmo 72:10 “Os reis de Társis e de outras terras distantes lhe pagarão tributos.Os reis de
Sabá e de Sebá lhe darão presentes.” aplicada como um cumprimento messiânico na visita dos magos [N.do Revisor]
[2] Cf. Isaías 9:6
[3] O zênite é o ponto imaginário no céu diretamente acima da cabeça de um observador, representando a posição mais alta na esfera celeste. Esse termo é amplamente utilizado em astronomia e nas navegações. De maneira figurada, também pode significar o ápice ou o auge de algo, ou seja, o ponto mais elevado em determinado contexto. (nota do tradutor)
[4] João Crisóstomo (347 – 407) foi um arcebispo de Constantinopla e um dos mais importantes patronos do cristianismo primitivo. É conhecido por suas poderosas homilias, por sua habilidade em oratória, por sua denúncia dos abusos cometidos por líderes políticos e eclesiásticos de sua época, por sua “Divina Liturgia” e por suas práticas ascetas. [Wikipédia]
[5] A Shekhiná se refere à presença manifesta de Deus no mundo físico, particularmente à ideia de que Deus se faz presente entre os seres humanos de maneira tangível. Na tradição judaica, é frequentemente associada a momentos em que a divindade se revela de maneira direta ou se faz sentir de forma visível, como, por exemplo, na Arca da Aliança, ou na nuvem de glória que guiava os israelitas no deserto. (nota do tradutor) 8 Cf. Salmo 19:1
[6] Cf. Isaías 46.10
[7] Cf. Isaías 5:18 . O sentido da citação é que alguém carrega o pecado como puxando uma carroça com uma corda, de forma pesada e lenta, ficando evidente o contraste de Spurgeon de que a estrela não fazia um grande esforço para conduzir os magos, mas que os atraia efetivamente. [N. d. Revisor]
[8] Spurgeon usa aqui uma expressão muito típica na língua inglesa – most probably is an old wives’ fable, even though he may be of the masculine gender who invented it – que, se traduzida para o português, não faria sentido, então foi adaptada para língua portuguesa. (nota do tradutor) 12 Cf. 1 Coríntios 15:58
[9] Os parsis, também grafados como parsee, são membros de um grupo de seguidores do profeta persa Zoroastro na Índia . O nome significa “persas” e eles descendem de zoroastrianos persas que emigraram para a Índia para escapar da perseguição religiosa por parte dos muçulmanos. [FONTE: Enciclopédia Britânica]
[10] Cf. Provérbios 23:23
