As Missões Evangélicas

As Missões EvangélicasNº76.

Sermão pregado na manhã de Sábado, 27 de Abril de 1856.

Por Charles Haddon Spurgeon

na Capela de New Park Street, Southwark, Londres.

Em nome da Sociedade Batista Missionária

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(Uma tradução em parceira com a Fireland Missions http://www.firelandmissions.com/)

A palavra do Senhor se espalhava por toda a região” - Atos 13: 49.

Não vou me ater apenas ao texto. Este tem sido um velho costume ao escolher textos quando pregamos. Eu escolhi um texto, porém eu tratarei como um todo, de um assunto que eu tenho certeza que irá prender sua atenção – e este assunto tem feito isso a muito tempo – o assunto das missões evangelísticas. Nos sentimos convencidos de que todos vocês tem a mesma mente sobre este assunto; que proclamar o evangelho ao mundo é o absoluto dever como também o nobre privilégio da Igreja. Não entendemos que Deus irá fazer Seu próprio trabalho sem instrumentos, mas que assim como Ele sempre tem usado meios para o trabalho da regeneração deste mundo, Ele continuará a fazer o mesmo. E que convém à Igreja fazer todo o possível para espalhar a verdade, em todos os lugares onde ela alcance os ouvidos humanos. Nós não estamos divididos sobre este assunto. Algumas igrejas talvez estejam, mas nós não. Nossas doutrinas, embora supostamente levem a uma apatia e preguiça, tem comprovado serem sempre, acima de tudo, práticas. Todos os pais de missões foram homens que tinham zelo e amor pelas doutrinas da graça de Deus. E nós acreditamos que os grandes apoiadores do empreendimento missionário – se este deve ser bem sucedido – devem sempre vir daqueles que detêm a verdade de Deus com firmeza e ousadia, aqueles que possuem fogo e zelo por ela, como também o desejo de espalhá-la por toda a parte.

Mas existe um ponto em que nós temos uma grande divisão de opinião, e este é o motivo pelo qual temos tido tão pouco sucesso em nossos trabalhos missionários. Podem existir alguns que digam que o sucesso tem sido proporcional a atuação, e que nós não poderíamos ter sido mais bem sucedidos. Estou longe de ter esta opinião e eu não acho que eles por si mesmos a expressariam se estivessem ajoelhados diante do Deus Todo-Poderoso.  Nós não temos sido bem sucedidos na amplitude em que esperávamos, certamente não na amplitude apostólica e com certeza nada parecido com o sucesso de Paulo ou Pedro, ou até mesmo daqueles ilustres homens que nos precederam nos tempos modernos – os quais foram capazes de evangelizar países inteiros, trazendo milhares de pessoas para Deus.

Mas agora, qual é a razão para isto? Talvez possamos voltar nossos olhos ao alto e pensar que esta razão encontra-se na soberania de Deus, o qual tem retido Seu Espírito e não tem derramado Sua graça como antes. Estarei preparado para confirmar isto a todos os homens que talvez falem sobre este assunto, pois eu creio que o Deus Todo-Poderoso ordena todas as coisas. Eu creio em um Deus presente em nossas derrotas bem como em nossos sucessos. Um Deus tanto na brisa suave quanto na forte tempestade. Um Deus de maré baixa assim como um Deus de enchentes. Porém, nós devemos procurar a causa disto dentro de casa.  Quando Sião tem dores de parto, ela dá luz à filhos; quando Sião é diligente, Deus é testemunha sobre Seu trabalho; quando Sião é devota, Deus a abençoa. Portanto, não devemos arbitrariamente procurar o motivo de nossos fracassos na vontade de Deus, mas devemos ver também qual é a diferença entre nós e os homens dos tempos apostólicos, e o que torna o nosso sucesso tão insignificante em comparação aos extraordinários resultados da pregação apostólica.

Eu penso ser capaz de mostrar algumas razões pelas quais a nossa santa fé não é tão próspera quanto costumava ser. Em primeiro lugar, nós não temos mais homens apostólicos. Em segundo lugar, os missionários não iniciaram seu trabalho no estilo apostólico. Em terceiro lugar, nós não temos igrejas apostólicas para apoiá-los. E em quarto lugar, nós não temos a influência apostólica do Espírito Santo na mesma medida em que eles tiveram nos tempos passados.

I. Em primeiro lugar, NÓS TEMOS POUQUÍSSIMOS HOMENS APÓSTÓLICOS DESSES TEMPOS. Eu não vou dizer que não temos nenhum, aqui ou ali talvez tenhamos um ou dois, mas infelizmente seus nomes nunca são ouvidos. Eles não começaram diante das multidões e não são famosos como pregadores da verdade de Deus. Nós tivemos um Williams uma vez, um verdadeiro homem apostólico, que foi de ilha em ilha, sem ter sua vida por preciosa. Mas Williams foi chamado para sua recompensa[1]. Tivemos um Knibb[2], que trabalhou arduamente por seu Mestre com fervor seráfico e sem se envergonhar de chamar um escravo oprimido de seu irmão. Mas Knibb também entrou em seu descanso.

Temos um ou dois restantes, preciosos e estimados nomes. Nós os amamos com fervor e nossas orações sempre sobem aos céus em favor deles. Sempre pedimos em nossas orações: “Deus, abençoe aqueles homens como Moffat[3]! Deus, abençoe aqueles que estão labutando intensamente e com sucesso trabalham!” Mas olhe ao seu redor; onde podemos encontrar mais homens como estes? Todos eles são bons homens e não há o que dizer contra eles – eles são melhores do que nós. Nós mesmos somos reduzidos a nada se comparados a eles. Mas ainda precisamos admitir que eles são menores do que seus pais, eles diferem dos grandes apóstolos em muitos aspectos, e isso até mesmos eles reconheceriam prontamente. Não estou falando apenas de missionários, mas de ministérios também. Por isso, entendo que temos que lamentar muito, tanto em relação à propagação do evangelho na Inglaterra, quanto em terras estrangeiras. Devemos lamentar muito pela falta de homens cheios do Espírito Santo e de fogo.

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Segurança Garantida em Cristo

Segurança Garantida em CristoNO. 908

Sermão pregado na manhã de Domingo, 2 de Janeiro de 1870

Por Charles Haddon Spurgeon

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

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“Eu sei em quem tenho crido, e estou seguro que é poderoso para guardar meu depósito para aquele dia.”

2 Timóteo 1:12.

No estilo dessas palavras apostólicas há uma certeza sobremaneira revigorante nessa época entregue a dúvida. Em certos círculos da sociedade é raro encontrar-se hoje em dia com alguém que creia em algo.

O filosófico, o correto, o que está na moda em nossos dias é duvidar de tudo que geralmente é aceito; certamente quem sustém algum credo, do tipo que seja, são catalogados pela escola liberal como dogmáticos antiquados, como pessoas superficiais de um intelecto deficiente e mui defasados com respeito a sua época.

Os grandes homens, os homens de pensamento, os homens de cultura elevada e gosto refinado consideram que é sábio suspeitar da revelação; e escarnecem qualquer solidez de crença. Os condicionais “se” e “mas”, os “talvez” e os “porventura” são o deleite e o supremo dessa época. Havia de nos surpreender que os homens encontrem que tudo é incerto quando recusam submeter seus intelectos as declarações do Deus da verdade?

Note espantado, então, a edificante e até mesmo surpreendente segurança do apóstolo: “Eu sei,” afirma ele. E isso não basta: “Estou seguro”, acrescenta. Fala como alguém que não pode tolerar nenhuma dúvida. Não há nenhuma dúvida acerca de se têm crido ou não. “Eu sei em quem tenho crido.” Não há nenhuma vacilação acerca de se teria razão para crê-lo. “Estou seguro que é poderoso para guardar meu depósito”. Não há nenhum titubeio com respeito ao futuro; está tão seguro em relação aos anos por vir como o está quanto ao momento presente. “É poderoso para guardar meu depósito para aquele dia.” Bem, agora, a certeza que é somente um produto da ignorância e que não vem acompanhada de nada parecido a reflexão, resulta ser muito desagradável. Mas no caso do apóstolo, sua confiança não está fundamentada na ignorância, mas no conhecimento: “eu sei”, afirma ele. Há certas coisas que Paulo tem apurado, e ele sabe são um fato, e sua confiança está baseada nessas verdades que têm sido indagadas. Além disso, sua confiança não era fruto do descuido, pois acrescenta: “estou seguro”, como se houvesse fundamentado o assunto e foi persuadido a aceitá-lo; como se houvesse meditado largamente a respeito, e o teria pesado, e a força da verdade lhe tivesse convencido plenamente de maneira a ser persuadido.

Quando a certeza é o resultado do conhecimento e da meditação, se torna sublime, como sucedeu com o apóstolo, e sendo sublime, se torna influente. Neste caso, deve haver influído certamente no coração de Timóteo e na mente de dezenas de milhares de pessoas que examinaram esta epístola ao longo destes 19 séculos.  Incentiva os mais tímidos quando veem que outros são preservados e confirma os indecisos quando veem que outros permanecem firmes. As palavras do grande apóstolo, que ressoam com som de trombeta esta manhã: “eu sei… e estou seguro”, não podem senão nos ajudar a encorajar e dar ânimo a muitos de nós em nossas dificuldades e ansiedades. Que o Espírito Santo faça não apenas que admiremos a fé de Paulo, mas que a imitemos e que alcancemos o mesmo grau de confiança.

Alguns falam confiadamente porque não estão seguros. Quão frequentemente temos observado que o alarde e as bravatas são apenas manifestações externas de uma trepidação interior, são apenas dissimulações adotadas para esconder a covardia! Tal como assobiam os colegiais para renovar o ânimo quando atravessa o cemitério localizado junto a uma igreja, assim algumas pessoas falam com muita segurança porque não estão seguras, e fazem uma ostentação pomposa de fé porque desejam corroborar a presunção de que — como é seu único consolo — é sobremaneira apreciada por elas.
Bem, agora, no caso do apóstolo, cada sílaba que ele pronuncia tem como base um peso sumamente real de confiança que as mais categóricas expressões não poderiam exagerar. Sentado ali dentro do calabouço como prisioneiro por Cristo, aborrecido por seus compatriotas, desprezado pelos doutos e ridicularizados pelos rudes, Paulo confrontou o mundo inteiro com uma santa valentia que não conhecia nenhuma covardia, com um valor que era produto da profunda convicção de seu espírito. Vocês podem tomar estas palavras e dar a cada uma delas toda a ênfase possível, pois são as expressões verazes de um espírito inteiramente sincero e valente. Que desfrutássemos nós também de uma confiança assim e que a declarássemos com plena convicção, pois nosso testemunho daria glória a Deus e levaria consolo aos demais.

Esta manhã, para nossa instrução e conforme o Espírito Santo nos ajude, vamos considerar, primeiro, o encargo em questão: o que Paulo confiou a Cristo; em segundo lugar, o feito que está mais além de toda dúvida, quer dizer, que Cristo foi poderoso para guardá-lo; em terceiro lugar, a certeza desse fato; e como o apóstolo foi capaz de dizer: “eu sei… e estou persuadido”, e em quarto lugar, a influência dessa segurança quando governa no coração.

I. Primeiro então, queridos amigos, falemos uns poucos minutos sobre O ENCARGO EM QUESTÃO.

O encargo foi, em primeiro lugar, o depósito que o apóstolo fez de todos seus interesses e preocupações na mão de Deus em Cristo. Alguns têm dito que Paulo falava aqui de seu ministério, mas há muitas razões para concluir que isso é um erro. Uma grande gama de expositores, que por cabeça dos quais mencionaremos Calvino, pensam que o único tesouro que Paulo depositou na mão de Deus era sua salvação eterna. Nós não duvidamos de que isso constituiu a maior parte do valor inestimável do depósito, mas pensamos também que como o contexto não limita o sentido, não pode ficar restringido ou confiando a uma só coisa. Parece-nos que todos os interesses temporais e eternos do apóstolo foram depositados, mediante um ato fé, na mão de Deus em Cristo Jesus.

O apóstolo entregou seu corpo ao cuidado benevolente do Senhor. Paulo havia sofrido muito nesse frágil tabernáculo. Naufrágios, perigos, fome, frio, nudez, prisões, açoites com varas e apedrejamento haviam empregado sua fúria contra ele. Paulo esperava que não passaria muito tempo antes que seu corpo mortal se visse preso a crueldade de Nero. Ninguém poderia dizer o que lhe sucederia então, se seria queimado vivo para iluminar os jardins de Nero, ou se seria despedaçado pelas feras para fazer uma festa romana, ou se converteria em vítima da espada do carrasco, mas, independentemente da forma em que pudesse ser chamado a oferecer-se em sacrifício a Deus, Paulo entregou seu corpo a custódia Daquele que é a ressurreição e a vida, estando completamente persuadido de que ressuscitaria de novo no dia do advento do Senhor, sem que seu corpo sofresse nenhuma perda devido a tortura ou ao desmembramento. Paulo esperava uma feliz ressurreição, e não pedia nenhum embalsamento melhor para seu corpo que o que o poder de Cristo lhe garantia.

O apóstolo entregou a Cristo naquela hora seu caráter e reputação. Um ministro cristão deve esperar perder sua reputação entre os homens. Ele tem que estar disposto a sofrer todo tipo de vitupérios por causa de Cristo. Mas, por outra parte, pode estar seguro de que jamais perderá sua honra real se corre o risco pela causa da verdade e é colocado na mão do Redentor. O Dia declarará a excelência dos retos, pois revelará tudo o que estava oculto e sacará à luz o que estava encoberto. Haverá uma ressurreição de caracteres assim como de pessoas. Cada reputação que tenha sido ofuscada pelas nuvens do vitupério por causa de Cristo, se tornará gloriosa quando os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai. “Que os ímpios digam o que querem de mim” ”—disse o Apóstolo”— “eu confio meu caráter ao Juiz dos vivos e mortos”.

Da mesma maneira, colocou nas mãos de Deus a obra de toda sua vida. Os homens diziam, sem dúvida, que Paulo havia cometido um grave erro. Aos sábios segundo o mundo Paulo deve de haver-lhes parecido que estava completamente louco. De haver-se convertido em rabino, quanta eminência lhe esperava! Como fariseu, poderia ter levado uma vida respeitada e honrada entre seus compatriotas. E se tivesse preferido seguir as filosofias gregas, sendo um varão de tal vigor mental, poderia ter rivalizado com Sócrates ou com Platão. Mas ao invés disso, preferiu unir-se a um grupo de homens comumente considerados como fanáticos ignorantes que transtornavam o mundo. “Ah, bem!”— disse Paulo—  “deixo a recompensa e o fruto de minha vida inteiramente a meu Senhor, pois Ele justificará,  ao final, minha eleição de servir debaixo do estandarte de Seu Filho, e o universo inteiro saberá que não fui um fanático equivocado que trabalhou por uma causa sem sentido”.

De igual maneira o apóstolo consignou nas mãos de Deus em Cristo sua alma, sem importar qual fosse o perigo que corresse pelas tentações que lhe rodeavam. Paulo sentia-se seguro nas mãos da grandiosa Fiança, independente de quão grandes foram as corrupções que se alojavam em seu interior e os perigos que estavam a espreita. O apóstolo transferiu ao Depositário divino todos seus poderes mentais, suas faculdades, suas paixões, instintos, desejos e ambições. Ele entregou sua natureza inteira ao Cristo de Deus para que a preservasse em santidade ao longo de toda sua vida, e o transcurso de sua vida justificou amplamente sua fé.

Paulo entregou sua alma para ser guardada na hora da morte, para que então fosse fortalecida, sustentada, consolada, reforçada e guiada através das rotas desconhecidas, em sua ascensão através do misterioso e o inexplorado até o trono de Deus, o Pai.  Ele entregou seu espírito a Cristo para ser apresentado sem mancha nem ruga, nem nada parecido no último grande dia. Ele fez, de fato, um depósito integral de tudo o que ele era, de tudo o que tinha e de tudo o que lhe concernia, para a custódia de Deus em Cristo, para encontrar em seu Deus um fiel guardião, um defensor seguro e um depositário confiável.

Então este era o encargo ao que o apóstolo se referia.

Mas juntamente com isso, o encargo em questão incluía a habilidade do Senhor para cumprir com essa custódia. O apóstolo não duvidava de que Cristo houvesse aceitado o ofício de depositário daquilo que lhe havia entregado. A dúvida nunca foi com respeito à fidelidade de Cristo para o que lhe havia confiado. O apóstolo nem sequer disse que confiava que Jesus seria fiel; considerava que essa asseveração era supérflua. Não havia nenhuma dúvida com respeito à disposição de Cristo para guardar a alma confiada a Ele; considerava que não era necessário fazer uma declaração nesse sentido. Mas a pergunta que muitos faziam era em relação ao poder do Redentor que foi crucificado de guardar o que lhe havia sido confiado. Oh, disse o apóstolo: “eu sei e estou seguro que é poderoso para fazer isso”. Observem, meus queridos amigos, que a pergunta não é a respeito do poder do apóstolo para guardar-se a si mesmo; ele não faz essa pergunta. Muitos de vocês têm se preocupado por saber se são capazes de resistir à tentação; não necessitam debater o tema; é claro que à parte de Cristo vocês são sumamente incapazes de perseverar até o fim. Respondam a essa pergunta de imediato com uma negação categórica e não voltem a fazê-la nunca mais. A pergunta não era se o apóstolo seria encontrado com mérito em sua própria justiça no dia do juízo, pois ele havia descartado fazia tempo essa justiça própria. Paulo não toca nesse ponto. A pergunta é esta: “É Jesus capaz de guardar-me?”

Apeguem-se a isso, meus irmãos, e suas dúvidas e temores rapidamente desaparecerão. Em relação a seu próprio poder ou mérito, escrevam “desesperança” de imediato sobre sua fronte. Considerem a criatura como completamente morta e corrupta, e, portanto, apoiem-se sobre esse braço cujos músculos nunca cedem, e descansem todo seu peso sobre essa onipotência que sustém as colunas do universo. Ai está o ponto; apeguem-se a Ele e vocês não perderão sua alegria. Vocês se confiaram a Cristo. A grande pergunta agora não é sobre o que vocês podem fazer, mas acerca do que Jesus é capaz de fazer, e podem ter a segurança de que Ele é poderoso para guardar o que se lhe foi confiado.

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Deus Ama o Que Dá com Alegria

capa Deus Ama o que dá com alegriaNº 835

Sermão pregado na noite de quinta-feira, 27 de agosto de 1868

Por Charles Haddon Spurgeon

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

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“Porque Deus ama ao que dá com alegria.” 2ª Coríntios 9:7

 Eu desejo, ardentemente, cumprir meu ministério, especialmente, no tocante ao dever de pregar-lhes todas as partes da Palavra de Deus, e não ser encontrado culpado de limitar-me somente a um conjunto de tópicos, pois isto, certamente, poderia ser prazeroso, mas não seria de muito proveito para vocês. Se eu pudesse escolher, me encantaria pregar continuamente sobre a doutrina do amor eterno e imutável de Deus. Para mim, seria um deleite estender-me, cada domingo e certamente em cada sermão, na simples doutrina da justificação do pecador diante de Deus, por meio da fé em Jesus Cristo.

Mas na Escritura encontramos outras coisas além destas. Nem todos os temas registrados na Palavra de Deus estão ali para nosso consolo. Nem tudo são promessas; não encontramos somente palavras de alento para mentes fracas e espíritos desconsolados. Há outras palavras além daquelas que são úteis para consolar: palavras de direção e palavras de ensino. Se recusássemos estas palavras, se nunca tivessem uma participação no curso de nosso ministério, então alguma grave enfermidade brotaria na igreja, já que não se lhes teria fornecido uma relevante porção do “pão necessário“.

Portanto, pareceu-me apropriado falar-lhes esta noite sobre este tema, e com maior razão agora que não teremos uma coleta. Não estou pedindo nada a vocês e, por isso, me sinto em inteira liberdade de ressaltar a instrução deste texto. Vocês verão que meu claro objetivo é extrair o ensino da Palavra, sem nenhum propósito interno. Minha meta é promover esse resultado que Deus mesmo quer trabalhar em vocês, mediante as palavras sob nosso minucioso exame. Relembrem que são palavras de indubitável inspiração, e por isso são dignas de toda aceitação, como qualquer outra frase saída da boca divina o é.

Irmãos, na igreja de Deus há várias formas de serviço. Alguns receberam o dom de edificar a outros; esses estão obrigados a instruir com diligência seus ouvintes, e a explicar-lhes as Escrituras. A outros lhes é dado evangelizar, abrir um terreno fresco e ganhar o não convertido; esses estão obrigados a não deixar que sua mão descanse, mas devem plantar a semente pela manhã e pela tarde. Muitas pessoas na família de Deus não têm a capacidade de serem professores na igreja nem tampouco ganhadores de almas, mas são chamadas a adornar a doutrina de Deus, seu Salvador, em todas as coisas, por meio dos deveres de uma vida humilde e tranquila. Tais pessoas devem ter o cuidado de que suas conversas sejam sempre dignas do Evangelho de Cristo e apropriadas para a família da fé; e sua oração sincera deve ser que a pregação dos demais possa ser ilustrada por eles em seu andar diário e em seu falar.

Uma parte considerável da igreja de Deus é chamada para um serviço ainda mais difícil, ou seja, o serviço do sofrimento. Deus recebe glória inclusive do fogo da aflição, quando Seu povo entoa Seus merecidos louvores desde a cama da enfermidade. Ele recebe honra tanto do leito do enfermo como do púlpito, e aqueles servos que são chamados a estar confinados em um hospital são soldados tão aceitáveis quanto aqueles a quem Ele ordena que saiam à frente da batalha. Cada um de nós deve esperar seu turno na tribulação, em conformidade com o propósito de Deus. Quando nos ordena que o façamos, devemos tomar nossa cruz com alegria e seguir ao nosso Senhor.

Também a toda à igreja e a cada membro é dado, em sua medida, servir a Deus, ofertando. Alguns têm a capacidade de dar abundantemente de suas riquezas, pois são mordomos ricos. Estão obrigados a fazê-lo, todavia não devem ofertar simplesmente porque estão obrigados, mas devem sentir que é um privilégio dar tudo o que puderem, pois Ele lhes deu tudo e Ele é tudo para eles. O cristão mais pobre não está isento deste privilégio. Se possuir pouco, Deus aceita segundo o que tenha, e não segundo o que não tenha, e se é tão pobre que nem sequer pode ofertar cinco centavos, ainda pode dar a Deus parte de seu tempo, pode oferecer a Deus a capacidade recebida para ensinar as crianças, ou para distribuir literatura cristã, ou para qualquer outra forma de serviço que, convenientemente, se encontre dentro de seu alcance.

Mas ninguém deve deixar de dar a Deus de alguma maneira, pois todos recebemos bênçãos e todos devemos ofertar. Damos a Ele nossas orações, nossos louvores, todos nossos esforços possíveis, mas todos devemos ser doadores, e prestando atenção ao texto, também devemos ser doadores alegres.

Vocês devem ter notado que o apóstolo Paulo fala sobre dar ao longo de todo o capítulo nove, mas neste ponto se põe a falar de doar como esse ato é percebido aos olhos de Deus, e o grande argumento que utiliza, a arma principal é: “Deus ama ao que dá com alegria“, disto eu entendo que quando estamos falando do serviço cristão, sempre devemos vê-lo em seu aspecto para Deus. O apóstolo havia falado do que os homens de Acaia pensavam da benevolência, e do que os membros de outras igrejas valorizariam nos coríntios, pois Paulo havia se gloriado deles. Mas logo reconsidera e afirma que o verdadeiro juízo de uma boa obra não é o que a igreja ou o mundo possa pensar dela, mas sim a estima em que Deus a tem. “Deus”, diz o apóstolo, “ama ao que dá com alegria“. Esse é o ponto.

Amado leitor, você é um cristão que professa sua religião. Você serve em sua igreja conforme este modelo? Poderá perguntar-me: “Que quer dizer?” Quero dizer o seguinte: quando você vai à casa de Deus, vai ali para adorar a Deus? Quando você ensina na escola dominical, o faz simplesmente para ter uma participação com seus companheiros cristãos, ou ensina como se fosse para Deus? Você fala, meu irmão, em nome de Deus; acaso não se descobre pregando algumas vezes de alguma outra maneira que não é como para Deus? Meu querido amigo, você que se envolve orando ativamente na reunião de oração, acaso nunca se perguntou alguma vez: “Minha oração foi do agrado daqueles que a escutaram?”. Você esquece que a oração deve ser vista como para Deus, e que todo o serviço do cristão não é para o homem, não é para a igreja – ainda que tenha suas repercussões em ambas as direções – mas sim que sua principal orientação e relação é para Deus. Fazer tudo como para o Altíssimo é o mais importante dos deveres. Você não deve viver neste mundo: Continuar lendo

Um Apelo Urgente Por Uma Resposta Imediata

capa_model_spur (1)Nº. 2231

Sermão pregado na noite de Domingo, 10 de maio de 1891

Por Charles Haddon Spurgeon

No Tabernáculo Metropolitano, Newingon, Londres

E destinado para leitura no dia 22 de Novembro de 1891

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(COM CARTA DO SR. SPURGEON AOS LEITORES DESSE SERMÃO ANEXA)

“Agora, pois, se haveis de usar de benevolência e de verdade para com o meu senhor, fazei-mo saber; se não, declarai-mo, para que eu vá, ou para a direita ou para a esquerda”. (Gênesis 24.49)

O capítulo de onde o texto é extraído está repleto de particularidades. Há um extraordinário paralelismo entre Eliezer procurando uma esposa para Isaque e os ministros de Cristo procurando almas para Jesus. É mais que uma alegoria. É, de fato, uma parábola bastante instrutiva de como devemos lidar com as almas de homens e mulheres para o nosso Senhor. Assim como Abraão enviou seu servo para buscar uma noiva para seu filho, nós também somos comissionados a buscar aqueles que serão trazidos a Igreja para, finalmente tomarem assento na festa das bodas, como noiva de Cristo, no País de Glória celestial!

Podemos até pra perceber Eliezer orando por todo o caminho. Nem por um momento passou por sua mente qualquer dúvida sobre a interferencia de Deus nos assuntos humanos, mas com coragem e simplicidade procurou saber Sua vontade. Assim, depois de apresentar seu pedido, o encontramos confiando tranquilamente e aguardando em silêncio, “para saber se o Senhor havia feito próspera a sua jornada, ou não”. Embora seus esforços tenham sido coroados com sucesso, ele continuou reconhecendo que o cumprimento da sua missão de forma tão rápida foi resposta de oração. Foi a direção de Deus e não sua própria perspicácia ou sabedoria que lhe conferiu êxito. Também é assim com todo verdadeiro ministro do Novo Testamento. Ah, se não orarmos por vocês, meus caros ouvintes, nossa pregação será uma hipocrisia! Nunca devemos falar de Deus aos homens no poder da persuasão, a menos que falemos dos homens a Deus no poder da oração! Não foi sem muita oração e muitos suspiros do meu coração que vim aqui falar pra vocês esta noite. Acredito ter sido enviado com a missão de encontrar alguns que foram escolhidos por Cristo dentro do propósito e Aliança divinos e peço ao meu Senhor que haja muitos destes aqui.

Era assim que este servo fiel orava ao Deus do seu senhor. Enquanto orava, percebia como Abraão era leal ao senhor dele. Evidentemente, percebeu que a missão em que estava não era propriamente sua, mas que fora o instrumento escolhido para fazer a vontade do seu senhor. A expressão “meu senhor” é o refrão deste capítulo. A palavra “senhor” ocorre 22 vezes. Nao era o desejo de Eliezer ser independente de Abraão ou do seu filho. Ao contrãrio, Seus pensamentos foram os do seu senhor – suas palavras foram em louvor do seu senhor – seus feitos em nome do seu senhor. Ele não se pertencia, mas era servo de outro. Esta também é a nossa posição. Ai do ministro que perde de vista a verdadeira relação entre ele próprio e seu Senhor, ou que começa a pensar em servir aos seus próprios interesses em vez dos interesses Daquele que o chamou e o enviou! Meus irmãos e irmãs, nós não nos pertencemos; somos escravos de Cristo. Que nosso coração se mantenha sempre fiel a Ele! Que nossos lábios sempre Lhe profiram louvor! Que nossa vida sempre testemunhe a devoção que temos para com o nosso Senhor! Nada do que temos é propriamente nosso – tudo é Dele; Seu absoluto domínio sobre nós é o nosso maior prazer.

George Herbert fala da “fragrância Oriental” que reside nas palavras “meu Senhor”. De fato, este é um nome cheio de aroma suave e de santa alegria. Sendo assim, até mesmo o aqui e agora se torna um Céu para servi-Lo! Mas, o que será visto em Sua face quando Sua noiva for trazida para casa em segurança?

ó Jesus, Tu prometeste”

A quantos seguem a Ti

Que onde estiveres em Glória,

Teus servos estarão ali!

E Jesus, eu prometi,

Servir-Te até o final.

Dá-me a graça de seguir-Te

Senhor e Amigo leal.”

 

 

Observem como o atento Eliezer aproveitou a oportunidade para obedecer às ordens do seu senhor. Seu amor a Abraão o fez cumprir, sem demora, a incumbência que lhe foi confiada. Quando Rebeca veio ao poço ele iniciou uma conversa da mesma forma que o Senhor Jesus fez, tempos depois, com a mulher samaritana no poço de Jacó: pediu que lhe desse de beber. As duas cenas ao lado do poço poderiam quase compor figuras complementares. Em seguida, Eliezer mui habilmente, descobriu seu nome e foi convidado por Rebeca a hospedar-se em casa do seu pai. Sinto um regozijo especial sempre que tomo conhecimento da visita de um servo de Deus à uma casa quando ele é o meio de ganhar alguns membros daquela família para seu Senhor! Devemos sempre ter o objetivo de fazer das nossas visitas uma bênção para aqueles a quem visitamos. Isto conta muito a favor do homem que é capacitado a proceder assim. Se compreendermos que estamos a serviço do nosso Mestre o tempo todo, devemos dar um bom testemunho diante de todos com quem entramos em contato o tempo todo, deixando bem claro que velamos pelas almas como quem há de prestar contas delas. Que possamos fazer isso com alegria e não com tristeza.

Tem algo mais neste homem que é digno de nota. Ele levou sua tarefa a sério e seguiu com um objetivo definido, direto ao alvo. Não tinha vários propósitos, mas apenas um. Ele não foi até ali com outra finalidade a não ser a de encontrar uma esposa para Isaque. Por isso, embora estivesse confortavelmente acomodado e fosse chamado, por Labão, de “o abençoado do Senhor”, não estava satisfeito. Ele levava tão a sério sua missão que nem mesmo se alimentou até que a houvesse esclarecido por completo. Como todo verdadeiro servo de Cristo, ele pôs os negócios do Senhor à frente do seu bem-estar e conforto e, até, da necessidade de alimento. Quando um homem começa a pensar mais em seu alimento do que em fazer a vontade de Deus, ele deixa de ser um ministro fiel! Imitemos a diligência do servo de Abraão aqui. Eliezer disse a Betuel e a Labão o que tinha ido fazer ali e, antes que terminasse seu discurso, voltou-se a eles e lhes disse claramente: “Agora, qual a resposta de vocês à mensagem do meu senhor? Não posso continuar em suspense. Se vocês usarão de benevolência e de verdade para com o meu senhor, digam-me. Se não, digam-me, para que eu volte pela direita ou pela esquerda”.

I. Observem, inicialmente, que ELE expôs cuidadosamente SUA SITUAÇÃO. Vocês não devem esperar que os homens se decidam sobre uma questão que não lhes foi apresentada. Nosso jovem e bom irmão que vai ao púlpito clamando: “Creia, creia”, mas não diz aos seus ouvintes em que devem crer não conseguiu muita coisa! Vocês não podem pedir as pessoas para comprarem algo que vocês não têm para lhes oferecer. Eliezer abriu sua bolsa, expôs seus produtos e procurou fazer negócios em nome do seu senhor. O que ele falou aos seus ouvintes interessados?

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O Remédio Universal

capa_model_spurNº 834

Sermão pregado na manhã de Domingo de 4 de outubro de 1868,

Por Charles Haddon Spurgeon

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

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“Pelas suas pisaduras fomos curados.” Isaías 53:5

Recebi em um dia desta semana um breve comunicado que dizia o seguinte: “Se busca um remédio para uma fé débil e insegura, especialmente para quando Satanás remove o desejo de orar”. Avidamente desejoso de prescrever alguns remédios para tais enfermidades e para quaisquer outros males que pudessem aborrecer o povo do Senhor, comecei a considerar quais eram os remédios sagrados para um caso como esse, e só pude me lembrar de um: “As folhas da árvore eram para saúde das nações”. Nosso Senhor Jesus é uma árvore de vida para nós, e todas as folhas – suponho que o Espírito Santo quis dizer os atos, as palavras, as promessas e as leves aflições de Jesus – são para a cura de Seu povo. Logo veio à minha mente o seguinte texto: “Pelas suas pisaduras[1] fomos curados.” Não somente Suas feridas sangrentas nos curam, mas mesmo as contusões de Sua carne; não somente a obra dos cravos e da lança nos cura, mas a tarefa cruel da vara e do chicote.

Dentre toda essa multidão de crentes, não há ninguém aqui que está completamente livre de algumas enfermidades espirituais; alguém poderia dizer: “Minha enfermidade é uma fé débil”; outro poderia confessar: “Minha doença é entregar-me a pensamentos fantasiosos”; outro poderia exclamar: “Meu mal é a frieza do meu amor”; e uma quarta pessoa poderia ter que lamentar sua impotência na oração.

Um remédio universal não bastaria para curar todas as enfermidades em um plano natural, no instante em que o médico começa a proclamar que sua medicina cura tudo, vocês podem supor sagazmente que não cura nada. Mas nas coisas espirituais não sucede da mesma maneira, pois há uma panaceia, isto é, há um remédio universal que é fornecido pela palavra de Deus para todas as enfermidades espirituais a que o homem pode estar sujeito, e esse remédio está contido nas poucas palavras do meu texto: “Por suas pisaduras fomos curados”.

I. Então, esta manhã irei convidá-los a considerar, antes de mais nada, A MEDICINA QUE ESTÁ PRESCRITA AQUI: as chicotadas do nosso Salvador. Não se trata de acoites que deviam ser aplicados às nossas próprias costas, nem de torturas infligidas em nossas mentes, mas a dor que Jesus suportou por conta daqueles que confiam Nele. O profeta entendia aqui, sem dúvida, que a palavra “pisadura” significava, primeiro, literalmente, esses chicotes reais que caíram sobre os ombros de nosso Senhor, quando foi flagelado pelos judeus e quando foi posteriormente açoitado pelos soldados romanos.

Mas a intenção das palavras vai muito mais além disso. Não há dúvida de que, com seu olho profético, Isaías viu os chicotes que vinham empunhados pela mão invisível do Pai, que não caia sobre a carne de Jesus, mas sobre sua natureza mais nobre e íntima, quando Sua alma era açoitada pelo pecado, quando a justiça eterna foi o lavrador e cavava sulcos profundos em Seu espírito, quando o chicote era descarregado com uma força terrível, uma, e outra e outra vez mais sobre a alma bendita Daquele que se fez maldição por nós, para que Nele fossemos feitos justiça de Deus. Eu entendo que o termo “pisaduras” abrange todos os sofrimentos físicos e espirituais de nosso Senhor, com referência especial a esses castigos de nossa paz que a precederam ou, antes, que causaram Sua morte expiatória pelo pecado; é por essas feridas que nossas almas são curadas. Continuar lendo