Sermão pregado na manhã de Domingo, 2 de Janeiro de 1870
Por Charles Haddon Spurgeon
No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.
“Eu sei em quem tenho crido, e estou seguro que é poderoso para guardar meu depósito para aquele dia.”
2 Timóteo 1:12.
No estilo dessas palavras apostólicas há uma certeza sobremaneira revigorante nessa época entregue a dúvida. Em certos círculos da sociedade é raro encontrar-se hoje em dia com alguém que creia em algo.
O filosófico, o correto, o que está na moda em nossos dias é duvidar de tudo que geralmente é aceito; certamente quem sustém algum credo, do tipo que seja, são catalogados pela escola liberal como dogmáticos antiquados, como pessoas superficiais de um intelecto deficiente e mui defasados com respeito a sua época.
Os grandes homens, os homens de pensamento, os homens de cultura elevada e gosto refinado consideram que é sábio suspeitar da revelação; e escarnecem qualquer solidez de crença. Os condicionais “se” e “mas”, os “talvez” e os “porventura” são o deleite e o supremo dessa época. Havia de nos surpreender que os homens encontrem que tudo é incerto quando recusam submeter seus intelectos as declarações do Deus da verdade?
Note espantado, então, a edificante e até mesmo surpreendente segurança do apóstolo: “Eu sei,” afirma ele. E isso não basta: “Estou seguro”, acrescenta. Fala como alguém que não pode tolerar nenhuma dúvida. Não há nenhuma dúvida acerca de se têm crido ou não. “Eu sei em quem tenho crido.” Não há nenhuma vacilação acerca de se teria razão para crê-lo. “Estou seguro que é poderoso para guardar meu depósito”. Não há nenhum titubeio com respeito ao futuro; está tão seguro em relação aos anos por vir como o está quanto ao momento presente. “É poderoso para guardar meu depósito para aquele dia.” Bem, agora, a certeza que é somente um produto da ignorância e que não vem acompanhada de nada parecido a reflexão, resulta ser muito desagradável. Mas no caso do apóstolo, sua confiança não está fundamentada na ignorância, mas no conhecimento: “eu sei”, afirma ele. Há certas coisas que Paulo tem apurado, e ele sabe são um fato, e sua confiança está baseada nessas verdades que têm sido indagadas. Além disso, sua confiança não era fruto do descuido, pois acrescenta: “estou seguro”, como se houvesse fundamentado o assunto e foi persuadido a aceitá-lo; como se houvesse meditado largamente a respeito, e o teria pesado, e a força da verdade lhe tivesse convencido plenamente de maneira a ser persuadido.
Quando a certeza é o resultado do conhecimento e da meditação, se torna sublime, como sucedeu com o apóstolo, e sendo sublime, se torna influente. Neste caso, deve haver influído certamente no coração de Timóteo e na mente de dezenas de milhares de pessoas que examinaram esta epístola ao longo destes 19 séculos. Incentiva os mais tímidos quando veem que outros são preservados e confirma os indecisos quando veem que outros permanecem firmes. As palavras do grande apóstolo, que ressoam com som de trombeta esta manhã: “eu sei… e estou seguro”, não podem senão nos ajudar a encorajar e dar ânimo a muitos de nós em nossas dificuldades e ansiedades. Que o Espírito Santo faça não apenas que admiremos a fé de Paulo, mas que a imitemos e que alcancemos o mesmo grau de confiança.
Alguns falam confiadamente porque não estão seguros. Quão frequentemente temos observado que o alarde e as bravatas são apenas manifestações externas de uma trepidação interior, são apenas dissimulações adotadas para esconder a covardia! Tal como assobiam os colegiais para renovar o ânimo quando atravessa o cemitério localizado junto a uma igreja, assim algumas pessoas falam com muita segurança porque não estão seguras, e fazem uma ostentação pomposa de fé porque desejam corroborar a presunção de que — como é seu único consolo — é sobremaneira apreciada por elas.
Bem, agora, no caso do apóstolo, cada sílaba que ele pronuncia tem como base um peso sumamente real de confiança que as mais categóricas expressões não poderiam exagerar. Sentado ali dentro do calabouço como prisioneiro por Cristo, aborrecido por seus compatriotas, desprezado pelos doutos e ridicularizados pelos rudes, Paulo confrontou o mundo inteiro com uma santa valentia que não conhecia nenhuma covardia, com um valor que era produto da profunda convicção de seu espírito. Vocês podem tomar estas palavras e dar a cada uma delas toda a ênfase possível, pois são as expressões verazes de um espírito inteiramente sincero e valente. Que desfrutássemos nós também de uma confiança assim e que a declarássemos com plena convicção, pois nosso testemunho daria glória a Deus e levaria consolo aos demais.
Esta manhã, para nossa instrução e conforme o Espírito Santo nos ajude, vamos considerar, primeiro, o encargo em questão: o que Paulo confiou a Cristo; em segundo lugar, o feito que está mais além de toda dúvida, quer dizer, que Cristo foi poderoso para guardá-lo; em terceiro lugar, a certeza desse fato; e como o apóstolo foi capaz de dizer: “eu sei… e estou persuadido”, e em quarto lugar, a influência dessa segurança quando governa no coração.
I. Primeiro então, queridos amigos, falemos uns poucos minutos sobre O ENCARGO EM QUESTÃO.
O encargo foi, em primeiro lugar, o depósito que o apóstolo fez de todos seus interesses e preocupações na mão de Deus em Cristo. Alguns têm dito que Paulo falava aqui de seu ministério, mas há muitas razões para concluir que isso é um erro. Uma grande gama de expositores, que por cabeça dos quais mencionaremos Calvino, pensam que o único tesouro que Paulo depositou na mão de Deus era sua salvação eterna. Nós não duvidamos de que isso constituiu a maior parte do valor inestimável do depósito, mas pensamos também que como o contexto não limita o sentido, não pode ficar restringido ou confiando a uma só coisa. Parece-nos que todos os interesses temporais e eternos do apóstolo foram depositados, mediante um ato fé, na mão de Deus em Cristo Jesus.
O apóstolo entregou seu corpo ao cuidado benevolente do Senhor. Paulo havia sofrido muito nesse frágil tabernáculo. Naufrágios, perigos, fome, frio, nudez, prisões, açoites com varas e apedrejamento haviam empregado sua fúria contra ele. Paulo esperava que não passaria muito tempo antes que seu corpo mortal se visse preso a crueldade de Nero. Ninguém poderia dizer o que lhe sucederia então, se seria queimado vivo para iluminar os jardins de Nero, ou se seria despedaçado pelas feras para fazer uma festa romana, ou se converteria em vítima da espada do carrasco, mas, independentemente da forma em que pudesse ser chamado a oferecer-se em sacrifício a Deus, Paulo entregou seu corpo a custódia Daquele que é a ressurreição e a vida, estando completamente persuadido de que ressuscitaria de novo no dia do advento do Senhor, sem que seu corpo sofresse nenhuma perda devido a tortura ou ao desmembramento. Paulo esperava uma feliz ressurreição, e não pedia nenhum embalsamento melhor para seu corpo que o que o poder de Cristo lhe garantia.
O apóstolo entregou a Cristo naquela hora seu caráter e reputação. Um ministro cristão deve esperar perder sua reputação entre os homens. Ele tem que estar disposto a sofrer todo tipo de vitupérios por causa de Cristo. Mas, por outra parte, pode estar seguro de que jamais perderá sua honra real se corre o risco pela causa da verdade e é colocado na mão do Redentor. O Dia declarará a excelência dos retos, pois revelará tudo o que estava oculto e sacará à luz o que estava encoberto. Haverá uma ressurreição de caracteres assim como de pessoas. Cada reputação que tenha sido ofuscada pelas nuvens do vitupério por causa de Cristo, se tornará gloriosa quando os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai. “Que os ímpios digam o que querem de mim” ”—disse o Apóstolo”— “eu confio meu caráter ao Juiz dos vivos e mortos”.
Da mesma maneira, colocou nas mãos de Deus a obra de toda sua vida. Os homens diziam, sem dúvida, que Paulo havia cometido um grave erro. Aos sábios segundo o mundo Paulo deve de haver-lhes parecido que estava completamente louco. De haver-se convertido em rabino, quanta eminência lhe esperava! Como fariseu, poderia ter levado uma vida respeitada e honrada entre seus compatriotas. E se tivesse preferido seguir as filosofias gregas, sendo um varão de tal vigor mental, poderia ter rivalizado com Sócrates ou com Platão. Mas ao invés disso, preferiu unir-se a um grupo de homens comumente considerados como fanáticos ignorantes que transtornavam o mundo. “Ah, bem!”— disse Paulo— “deixo a recompensa e o fruto de minha vida inteiramente a meu Senhor, pois Ele justificará, ao final, minha eleição de servir debaixo do estandarte de Seu Filho, e o universo inteiro saberá que não fui um fanático equivocado que trabalhou por uma causa sem sentido”.
De igual maneira o apóstolo consignou nas mãos de Deus em Cristo sua alma, sem importar qual fosse o perigo que corresse pelas tentações que lhe rodeavam. Paulo sentia-se seguro nas mãos da grandiosa Fiança, independente de quão grandes foram as corrupções que se alojavam em seu interior e os perigos que estavam a espreita. O apóstolo transferiu ao Depositário divino todos seus poderes mentais, suas faculdades, suas paixões, instintos, desejos e ambições. Ele entregou sua natureza inteira ao Cristo de Deus para que a preservasse em santidade ao longo de toda sua vida, e o transcurso de sua vida justificou amplamente sua fé.
Paulo entregou sua alma para ser guardada na hora da morte, para que então fosse fortalecida, sustentada, consolada, reforçada e guiada através das rotas desconhecidas, em sua ascensão através do misterioso e o inexplorado até o trono de Deus, o Pai. Ele entregou seu espírito a Cristo para ser apresentado sem mancha nem ruga, nem nada parecido no último grande dia. Ele fez, de fato, um depósito integral de tudo o que ele era, de tudo o que tinha e de tudo o que lhe concernia, para a custódia de Deus em Cristo, para encontrar em seu Deus um fiel guardião, um defensor seguro e um depositário confiável.
Então este era o encargo ao que o apóstolo se referia.
Mas juntamente com isso, o encargo em questão incluía a habilidade do Senhor para cumprir com essa custódia. O apóstolo não duvidava de que Cristo houvesse aceitado o ofício de depositário daquilo que lhe havia entregado. A dúvida nunca foi com respeito à fidelidade de Cristo para o que lhe havia confiado. O apóstolo nem sequer disse que confiava que Jesus seria fiel; considerava que essa asseveração era supérflua. Não havia nenhuma dúvida com respeito à disposição de Cristo para guardar a alma confiada a Ele; considerava que não era necessário fazer uma declaração nesse sentido. Mas a pergunta que muitos faziam era em relação ao poder do Redentor que foi crucificado de guardar o que lhe havia sido confiado. Oh, disse o apóstolo: “eu sei e estou seguro que é poderoso para fazer isso”. Observem, meus queridos amigos, que a pergunta não é a respeito do poder do apóstolo para guardar-se a si mesmo; ele não faz essa pergunta. Muitos de vocês têm se preocupado por saber se são capazes de resistir à tentação; não necessitam debater o tema; é claro que à parte de Cristo vocês são sumamente incapazes de perseverar até o fim. Respondam a essa pergunta de imediato com uma negação categórica e não voltem a fazê-la nunca mais. A pergunta não era se o apóstolo seria encontrado com mérito em sua própria justiça no dia do juízo, pois ele havia descartado fazia tempo essa justiça própria. Paulo não toca nesse ponto. A pergunta é esta: “É Jesus capaz de guardar-me?”
Apeguem-se a isso, meus irmãos, e suas dúvidas e temores rapidamente desaparecerão. Em relação a seu próprio poder ou mérito, escrevam “desesperança” de imediato sobre sua fronte. Considerem a criatura como completamente morta e corrupta, e, portanto, apoiem-se sobre esse braço cujos músculos nunca cedem, e descansem todo seu peso sobre essa onipotência que sustém as colunas do universo. Ai está o ponto; apeguem-se a Ele e vocês não perderão sua alegria. Vocês se confiaram a Cristo. A grande pergunta agora não é sobre o que vocês podem fazer, mas acerca do que Jesus é capaz de fazer, e podem ter a segurança de que Ele é poderoso para guardar o que se lhe foi confiado.

Nº 835

