6 Anos de Projeto Spurgeon – entrevista com Armando Marcos

384245_534135866603639_695440804_nAproveitando os 6 anos do Projeto Spurgeon nessa semana, republicamos (atualizada) essa entrevista que Armando Marcos, o editor e criador do Projeto Spurgeon concedeu ao site Internautas Cristãos

O que é o Projeto Spurgeon?

Projeto Spurgeon– proclamando a Cristo crucificado, é um site que nasceu como blog em 2009, quando senti que deveria reservar um espaço a parte dos textos do Spurgeon que eu postava em meu blog particular. Eu percebi que a grande maioria das postagens nesse blog eram do Spurgeon. Isso tudo pela necessidade que eu senti da parte do Senhor que eu poderia contribuir com a evangelização de alguma forma que eu tivesse capacidade por esse tipo de trabalho na Internet.

Também percebi que na web praticamente não existiam sites onde você pudesse achar material do Spurgeon, a não ser na seção que existia no Monergismo e na Editora Fiel, e alguma coisa no site do Josemar Bessa, de resto, só material espalhado, esparso, sem nenhum tipo de organização. Também há um PDF que é distribuído na net, mas que nada tem nele além de textos do Monergismo compilado. Isso também foi um incentivo para um projeto próprio. Começamos efetivamente o Projeto em 10 de julho de 2009 com a publicação do sermão “A Oração Mais Curta de Pedro“.

Projeto Spurgeon resumidamente é o que nosso moto diz “Projeto Spurgeon – Poclamando a Cristo crucificado”, pois através dos escritos do Spurgeon, que são muitos, nossa meta e intenção é proclamar a Jesus Cristo e Seu evangelho a todos que acessam nossos recursos, tanto no site como nas redes sociais e em outros blogs. Não é somente uma defesa do Calvinismo em si, mas uma aplicação dele, pela web, de forma consistente teologicamente e na prática, e de edificação da Igreja, pastores e estudantes, proporcionando base sólida para o estudo das Escrituras.

Porque “proclamando a Cristo Crucificado”, isso não é pregar um Cristo morto impotente

O nosso lema “Proclamando a Cristo crucificado” é uma citação direta de 1 Corintios 1:23, onde o apostolo Paulo fala aos corintios que não queria saber nada entre eles, a não ser pregar a Cristo e esse crucificado. A pregação da obra de Cristo na cruz não exclui Sua obra completa, incluindo a ressurreição, pois isso seria falar que Paulo errou em não citar a ressurreição nesse contexto de sua carta. Nossa intenção com a frase é mostrar a centralidade do evangelho de Cristo, que é a boas novas que Deus amou o mundo de tal forma que mandou seu Filho para nos reconciliar consigo por meio de sua vida em nosso lugar. Nosso lema é para colocar a importância da obra de Cristo em destaque e para mostrar que, mesmo que seja por meio dos escritos de Spurgeon, nossa meta aqui é exaltar Cristo.

Ouve algum trabalho parecido com o Projeto Spurgeon que lhe inspirou?

Sim, o site que o Senhor usou grandemente na minha vida para que eu conhecesse o Evangelho, o http://www.spurgeon.com.mx/, mantido no México pelo irmão batista Allan Roman, desde o começo dos anos 2000. Alias, um irmão por quem peço orações por sua saúde, ele sofre de um tipo de câncer nos pulmões. Também recomendo o site onde tem as narrações dos sermões em espanhol, feitas pelo Allan, http://www.spurgeonaudio.com/.

Até hoje, 2015 , quantos material foi publicado? Quantas pessoas colaboram hoje com o Projeto?

Pouco mais de 130 sermões inéditos e dois livros inéditos, o “Diante da Porta Estreita” e “A Dica do Labirinto”. Grande parte pode ser acessada nesse link http://www.projetospurgeon.com.br/sermoes/ineditos/

Hoje temos aproximadamente 20 pessoas que trabalham diretamente permanente ou esporadicamente no Projeto, entre tradutores, revisores, a Hospedy que oferece a hospedagem dos Projetos e os responsáveis pela parte artística dos Projetos; e claro, todos aqueles que nos apoiam em oração, divulgação e distribuindo o material publicado!

O Projeto Spurgeon não é idólatra ao colocar Spurgeon num pedestal?

Não, e eu tento tomar o máximo cuidado para que não descambe nisso. O fato do Projeto em si foi uma escolha de pregar o Evangelho por esse meio, que é muito amplo e vasto (existe muito material dele na web em outras línguas, e pouco na nossa), com muita facilidade. Hoje tambem temos um site só para textos do Bispo J.C.Ryle, o Projeto Ryle, e um projeto para tantos outros textos clássicos como Lutero, Calvino, Bunyan, o Projeto Castelo Forte. Nosso foco com o projeto é a glória de Deus, por meio de Cristo, pela pregação do Evangelho e edificação da Igreja pelo bom conteúdo teológico e pelas exortações práticas, por meio de todos esses Projetos, como outros que temos desenvolvido, como Proyecto La Reforma, com textos em espanhol, e os videos do Papos Teológicos

Se Deus usou a pregação de Spurgeon nos seus dias, por que não pode usar hoje? Se Spurgeon acreditava que o poder da Palavra pregada era tanto, que o Espírito poderia atuar na salvação de muitos por meio da publicação de sermões, por que não traduzir algo dessa obra e deixar o Espirito usar hoje esse material antigo? Nós sabemos que hoje é muito difícil que as pessoas leiam algo grande na net, mas quem sabe amanhã? Quem sabe quando alguém irá imprimir algo e distribuir? O ponto não é Spurgeon, e sim Jesus, e Ele corretamente anunciado e proclamado.

Quem foi Charles Haddon Spurgeon?

Eu editei a página do Spurgeon no Wikipedia (antes ela era minúscula, sem quase nada de informação, hehe). A mesma pode ser acessada em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Spurgeon

Quem é Armando Marcos, pessoal e teologicamente?

Meu nome é Armando Marcos Pinto, sou gestor de negócios imobiliários por formação. Moro com meus irmãos (Otávio, 9, e Felipe, 21) e minha mãe Sônia. Meu pai separou-se da minhã mãe há anos. Moro em São Paulo.

Converti-me em 2002, assistindo a um fim de culto num programa do R.R.Soares, no qual ele disse algo como “eu não posso fazer nada, só Jesus pode: aceite Jesus, arrependa-se, será salvo”, e o Senhor usou esse meio para me trazer ao Evangelho.

Passei anos acompanhando a Igreja da Graça pela TV e rádio, mas não frequentava a Igreja (não podia na época). Depois, com o fim do ensino médio, sem poder ir à Igreja (que eu fazia escondido, hehe) tentei ser “um cristão por conta”, meio nicodomeniano, por assim dizer.

Depois, por 2005, comecei a ouvir o Ricardo Gondim pelo rádio, e larguei o neopentecostalismo, e até o fim da faculdade continuei me alimentando na fé pela pregação do Gondim. Por essa época, lembro que comecei a ver sobre “livre arbítrio” e essas coisas “calvinistas“, hehe.

Em 2006 fui convidado a ir na Igreja Presbiteriana Conservadora de São Paulo, para uma cantada de Páscoa. Minha tia-avó frequenta essa igreja há mais de 40 anos. Logo comecei à frequentá-la e me interessei por Calvinismo. Nessa época li alguns livros como do Arthur Pink, e depois conheci o Monergismo do Felipe Sabino, e comecei a me preocupar com questões como batismo, livre arbítrio, expiação limitada, calvinismo, e de 2007 em diante, participando ativamente na net de comunidades calvinistas no Orkut, comecei a entender e aceitar as doutrinas da graça como ensinadas pelo sistema reformado.

Em 2008, com a questão do Teísmo Aberto do Gondim, e depois de descobrir o espanhol e ouvir os sermões do Spurgeon, deixei de acompanhar o Gondim como fazia, e o Senhor tem me guiado desde então. Muito do que eu tinha dificuldade de entender, como predestinação e livre arbítrio, o Senhor usou Spurgeon e outros pregadores para me aclarar essas questões, e me dar um desejo mais real por Jesus, em vez de só ideias. Em 2011, comecei a frequentar a Igreja Presbiteriana da Bela Vista, onde fui batizado. Depois de algum tempo passei a frequentar a Igreja Anglicana Reformada, mas voltei ao presbiterianismo em 2014. Hoje, sou membro da Igreja Presbiteriana da Barra Funda

Por que o interesse pelas obras de Spurgeon?

Meu interesse começou ainda em 2005 e 2006, quando entrei em contato com os sermões dele pela web. Porém, consistentemente, na forma do Projeto, começou em 2008 e 2009. Em 2008 ganhei, pela Felire, um kit de livros de Calvino e J.C.Ryle em espanhol, e começei a ler em espanhol mesmo. Então me toquei que não seria tão difícil assim traduzir do espanhol para o português (claro, isso levando em conta o uso de um bom dicionário online, rs).

A partir disso comecei a pesquisar na net por material evangélico, em especial reformado e em espanhol, e achei o site http://www.spurgeonaudio.com. Comecei a ouvir um sermão atrás do outro. Foram uma benção para mim, eles e os vídeos de John Piper e Paul Washer, que me abriram os olhos para perceber o que era realmente o Evangelho e as distorções que alguns fizeram dele. O Senhor usou esses meios para me fazer entender várias doutrinas e tirar dúvidas complicadas, como a eleição, a predestinação, o monergismo, a relação fé-obras, etc

A partir disso, e de ler mais em espanhol (os livros que ganhei e os sermões do Spurgeon) achei que poderia começar a traduzir alguns sermões, e ampliar o leque deles disponível em português. Reparei que muito do que era traduzido do Spurgeon na web eram sermões que sempre focavam o calvinismo e as doutrinas calvinistas, mas ouvindo os sermões do Spurgeon e de outros, achei que seria necessário ampliar.

Como você avalia a situação da igreja brasileira atual?

Bem, tratarei só de uns aspectos: muito disso pode ser discutido, a começar quais realmente são as igrejas. Eu sinceramente creio que, do jeito que a coisa tem ido, é capaz do Brasil se tornar um arremedo do que os EUA já foram, uma nação evangélica, sim, mas depois só de nome.

De um lado,  a igreja brasileira precisa de um genuíno avivamento: eu creio sinceramente que no Brasil o Senhor tem usado a Internet para esse propósito, divulgando para muitos o Evangelho. Mas é necessário que isso seja visto como uma questão de Igreja e de pessoas comprometidas com o avanço do Reino. Isso precisa passar para vida prática da Igreja, da evangelização e do culto e comunhão com os irmãos.

Em segundo lugar, precisamos parar de tratar a Palavra de Deus e o culto a Deus como algo leviano e secundário. O estudo da Palavra é essencial, evita muito das heresias e erros da Igreja, e isso deve ser incentivado de forma ordeira. Devemos levar a sério o culto ao Senhor; não que eu seja a favor de um princípio regulatório, ou algo assim, mas muitos consideram a Igreja como apenas um clube, ou como uma agência lotérica, onde a pessoa saca o que precisa e pronto.

Em terceiro, creio que a Igreja brasileira tem que parar de ser individualista e orgulhosa; muito do que acontece de errado em algumas igrejas é fruto da vaidade de pregadores e líderes. Por outro lado, muitos só querem saber da ideia ou teoria de seu pastor e ministério. Isso tudo tem que ser provado pela Palavra. Também, a igreja como corpo precisa voltar à ideia de que somos um conjunto, não podemos ter uma comunhão artificial de 15 minutos num domingo, e no resto da semana cada um cuida de si e Deus de todos. Isso, a meu ver, é essencial para acabar com a cultura do individualismo existente em muitos lugares.

Também creio que Igreja no Brasil está tomando um rumo politico demais: muitos tem tentado impor uma “política de moral evangélica” e para isso usam o povo de Deus como número para mostra seu poder, e muitos tem desviado o foco, que deveria ser a pregação do Evangelho, a conversão e a mudança de coração, para algo combativo e que não é a nossa prioridade.

Qual a relevância das obras de Spurgeon para a igreja brasileira atual?

Creio ser muito relevante por algumas razões:

1º Mostra que o amor a Jesus e à Sua palavra, e o estudo e paixão por ela, deve ser essencial para todos os que estão se preparando para o ministério.

2º Entender que Jesus e a conversão deve ser prioridade de todo aquele que é crente. Como Spurgeon mesmo disse: “todo cristão ou é um missionário ou um impostor”.

3º É importante para aclarar muita coisa mal dita e mal explicada. Spurgeon, a meu ver, é prático na aplicação do Evangelho, e não fica se preocupando com miudeza, mas antes, ele trata do essencial. Ele é sim um defensor ao máximo do Calvinismo, mas não fica preso nisso, ele aplica a verdade na prática e em obras (ele fez muita coisa em vida demonstrando o reino de Deus por suas ações).

4º Que a glória de Deus é prioridade, que o Senhor é Deus, que Cristo é maravilhoso, e que é digno de ser louvado e horado com uma vida de boas obras e de devoção a Ele.

Qual a relevância de Spurgeon para a igreja brasileira atual?

1º Spurgeon deve ser visto como um exemplo de fé e amor simples a Cristo e Sua palavra.

2º Spurgeon deve ser visto como alguém que se entregou completamente ao Senhor, mas que não foi perfeito e errou em muitas coisas.

3º Spurgeon deve ser visto mais pelo que ele pregou do que pelo que ele fez em si. Muitos admiram a inteligência de Spurgeon e a sua obra, mas devemos focar a causa disso, Cristo, e este crucificado, e não Spurgeon em si.

4º Spurgeon deve ser exemplo de que Calvinismo não é sinônimo de intelectualismo. Ele foi privilegiado em muitas coisas, mas não de uma forma somente acadêmica, mas prática e para que TODOS entendessem e compreendessem o Evangelho.

5º Spurgeon deve ser visto como exemplo de firmeza doutrinária, e de alguém que teve coragem de defender a fé e o Evangelho contra tudo e todos, e contra toda tendência moderna de sua época que ainda faz muito mal hoje em dia (liberalismo e pragmatismo).

Além de Spurgeon, quais outros teólogos e pregadores você recomenda?

Recomendo muito que todo que está começando na fé, ou que está começando a entender algo do Calvinismo, leia primeiramente Calvino, especialmente as Institutas da Religião Cristã, de ponta a ponta. Eu li (do conjunto da Felire) e achei que Calvino trata de muitos assuntos ligados à fé cristã e à Igreja que são essenciais e que todo cristão deveria entender. Não sei se é a tradução, mas para mim a leitura de Calvino foi fácil e muito prazeiroza. Muito do que ele diz nas Institutas surpreende muito calvinista (creio que “Calvinismo”, como conhecemos, veio mesmo de Dort).

Gosto muito dos livros e escritos de Martin LLoyde Jones e J.C.Ryle, são muito fáceis e práticos, mas com muita profundidade teológica e percepção espiritual. Recomendo-os com gosto.

Dos pregadores de hoje, gosto muito do Paul Washer, a meu ver ele é o George Whitefield de nossa geração. Ele prega a Palavra com paixão, e mostra essa paixão não como algo fingido, e explica e prega a Palavra de Deus com temor e tremor; sou muito abençoeado por ele.

Também gosto e recomendo muito John  Piper, John McArthur, Peter Master, Robert Murray McCheney, Arthur Pink e John Bunyan; com certeza, quem puder adquirir livros e sermões deles, não perderá dinheiro rsrs. Dos arminianos, gosto dos sermões do Ravenhill e do Wilkerson.

Para quem entende espanhol, recomendo os sermões do pastor Paco Orozco, em http://sermones-biblicos.org/index.php. Eu ouço sempre, são uma benção, é um pastor reformado do México. Vale a pena a ouvida, hehe.

Quais outros meios fora e dentro da internet que o Projeto Spurgeon tem usados para divulgação do material publicado?

Hoje temos algumas canais fora da internet, como a distribuição de material impresso com nossa parceria exclusiva, a editora Estação da Fé, uma pequena editora de Goiânia que tem contrato exclusivo de publicação e que parte das vendas são revertidas para o Projeto. eles até mesmo já publicaram uma de nossas traduções, o livro “Diante da Porta Estreita“. Também, temos investido nos livros digitais na Amazon, onde as pessoas que queiram podem comprar os sermões e livros que disponibilizamos lá.

Deixe uma palavra final aos leitores

Ame ao Senhor acima de tudo, e a Cristo. Procure entender o Evangelho o máximo que puder, viva para ele, imite a Cristo. Se você está começando a ouvir e a ler sobre Calvinismo, não se preocupe em entender tudo sobre ele, nem fique apaixonado por discutir uma ou outra questão. Com calma, clame ao Senhor que lhe guie, e estude e leia a Bíblia de forma ordeira e sem desespero.

E também, não deixe de comungar com os irmãos, mesmo que eles não entendam tanto disso e daquilo como nós. Uma coisa que eu evito muito é me achar mais entendido que outro. Eu não sou, ninguém é, todos sabemos em parte. Só no final conheceremos como devemos.

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