O Retorno do Filho Pródigo – Sermão n° 1189

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Nº 1189

Pregado na manhã de domingo, 23 de agosto, 1874,

Por Charles Haddon Spurgeon

no Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

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“E, levantando-se, foi para seu pai (…)” Lucas 15:20

Essa frase expressa o verdadeiro ponto de inflexão na história da vida do filho pródigo. Muitos assuntos o conduziram a esse ponto, e antes de chegar a ele, havia muito no filho pródigo que era muito encorajador; porém esse foi o momento decisivo, e se nunca tivesse chegado a esse ponto, teria permanecido sendo um pródigo e nunca teria sido o filho pródigo restaurado, e sua vida teria sido uma advertência mais do que uma instrução para nós. “E, levantando-se, foi para seu pai”.

Falando, como faço, em meio a uma extrema debilidade, devo economizar minhas palavras; e enquanto minha voz aguentar, vou direto ao ponto, e peço ao Senhor que faça com que cada sílaba pronunciada seja poderosa por Seu Espírito e tenha uma aplicação prática.

I. Começaremos advertindo que AQUI HOUVE AÇÃO: “E, levantando-se, foi para seu pai”. Havendo experimentado um estado de reflexão, e tendo caído em si, agora ele deveria prosseguir e ir a seu pai. Já havia considerado o passado, e o havia posto na balança, e tinha visto o vazio dos prazeres do mundo; havia visto sua condição em relação a seu pai e quais eram suas expectativas se ficasse nessa província afastada; havia refletido sobre o que deveria fazer e qual seria o provável resultado de sua ação; mas agora que ele havia passado os limites da sua imprecisão de pensamentos, chegava agora até a atividade e a implantação do curso da ação.

Quanto tempo passará, queridos leitores, até que vocês façam o mesmo? Agrada-nos que reflitam; esperamos que um grande ponto seja ganho se forem conduzidos a considerar seus caminhos, a ponderar sua condição e a olhar sinceramente para o futuro, pois a irreflexão é a ruína de muitos viajantes que vão rumo à eternidade, e por seu meio os incautos caem no profundo abismo da segurança carnal e perecem em seu interior.

Mas alguns de vocês foram encontrados entre “os reflexivos” durante tempo suficiente. Já é momento de passarem para uma etapa mais prática. É a hora suprema de agirem. Seria muito melhor se já tivessem agido, porque no que se refere à reconciliação com Deus, os primeiros pensamentos são os melhores. Quando a vida de um homem pende por um fio, e o inferno está justamente a sua frente, seu caminho é claro e uma segunda consideração é supérflua. O primeiro impulso de escapar do perigo e agarrar-se em Cristo é o que, se for sábio, você deveria fazer. Alguns aos quais me dirijo agora estão pensando, pensando, e pensando… e temo que fiquem pensando até sua perdição. Que sejam conduzidos, pela graça divina, a crer, e não só a pensar, pois se não for assim, seus pensamentos se converterão no verme imperecível de seu tormento.

O filho pródigo havia ultrapassado também a etapa da simples lamentação. Ele estava profundamente compungido por ter abandonado a casa de seu pai, lamentava seu profuso esbanjamento no desenfreio e nas orgias, e deplorava que o filho de tal pai como o seu se visse desgraçado até chegar a ser um ‘cuidador de porcos’ em uma terra estranha. Mas agora ele passou da lamentação ao arrependimento, e se moveu para escapar da condição que o assolava. De que serviriam as lamentações se continuássemos no pecado?

Por todos os meios que vocês podem, levantem as comportas de sua dor se as águas fizeram as rodas do moinho da ação se moverem, mas podem muito bem reservar suas lágrimas se elas não significarem outra coisa além de um inútil sentimentalismo. De que serve a um homem dizer que se arrepende de sua má conduta se ainda persevera nela? Alegramo-nos quando os pecadores lamentam o pecado e se afligem pela condição em que o pecado os conduziu, mas se não seguem adiante, suas lamentações somente o prepararão para o remorso eterno.

Se o filho pródigo tivesse ficado parado por causa do desespero ou pavor pela sombria dor, teria perecido longe da casa paterna, como é de se temer que muitos perecerão, porque a sua tristeza pelo pecado os conduz a uma arrogante incredulidade e a um voluntário desespero em relação ao amor de Deus. Porém, ele foi sábio, pois sacudiu a sonolência de seu desalento e com uma resoluta determinação, “levantando-se, foi para seu pai”. Oh, vocês que estão tristes, quando serão suficientemente sábios para fazer o mesmo? Quando seus pensamentos e aflições darão lugar a uma obediência prática do Evangelho?

O filho pródigo avançou também além da simples resolução. O versículo diz: “Levantar-me-ei” (v. 18), que é bom, mas é muito melhor o versículo que diz: “E, levantando-se” (v. 20). As resoluções são boas, como os botões das flores, mas melhores ainda são as ações, pois são como os frutos. Alegramo-nos quando ouvimos a resolução de vocês: “me voltarei”. Nos alegramos quando ouvimos a resolução de vocês: “voltar-me-ei a Deus”, mas os anjos no céu não se regozijam por causa das resoluções, já que eles reservam sua música para os pecadores que efetivamente se arrependem. Muitos de vocês, como o filho da parábola, disseram: “Sim, Senhor, eu vou”, porém não foram. Vocês são tão propensos a esquecer como são a resolver.

Cada sermão sincero, cada morte em sua família, cada tom fúnebre por seu vizinho, cada remorso na consciência, cada visita da enfermidade lhe dá uma resolução de emenda, mas suas notas promissórias nunca estão honradas e seu arrependimento termina em palavras. Sua bondade é como o orvalho que ao amanhecer adorna com joias cada folha do chão, porém, logo quando o sol ardente chega sobre o prado, deixa o chão seco e quente novamente.

Você ridiculariza seus amigos e não dá importância à sua alma! Você algumas vezes já disse nessa casa: “tão pronto chegue a meu quarto, me prostrarei”, mas no caminho de casa você se esquece de que tipo de homem era e o pecado confirma seu cambaleante trono. Você já não perdeu tempo suficiente? Acaso você já não mentiu bastante para Deus? Você não deveria, agora mesmo, largar suas resoluções e progredir com o solene assunto de sua alma como um homem de sentido comum?

Você está num barco que está afundando e o bote está perto de você, mas sua mera resolução de entrar nele não o impedirá de naufragar junto com o barco; tão certo como agora você sabe que é um ser vivo, irá afundar a menos que pule para salvar sua vida.

“E, levantando-se, foi para seu pai”. Agora observe que essa ação do pródigo foi imediata e sem discussões adicionais. Ele não chegou ao dono dos porcos e perguntou: “ah, você poderia subir meu salário? Se não puder, terei que partir”. Se ele tivesse negociado, estaria completamente perdido! Ele não deu nenhum aviso a seu antigo patrão e cancelou o contrato de trabalho, fugindo de lá.

Como que gostaria que os pecadores aqui presentes rompessem sua aliança com a morte e violassem seu pacto com o inferno, escapando até Jesus Cristo para salvar suas vidas, pois Ele recebe a todos os ‘fugitivos’ que assim o fazem! Não precisamos de nenhuma permissão nem licença para renunciar o serviço do pecado e de Satanás, nem tão pouco é um assunto que requer uma consideração de um mês: nesta matéria, a ação instantânea é a mais sábia. Ló não parou para consultar o rei de Sodoma para saber se podia abandonar seus domínios, nem tão pouco consultou os oficiais da comunidade para averiguar a conveniência de abandonar rapidamente seu lar. Com as mãos dos anjos segurando as deles, ele e sua família fugiram da cidade. Não, uma mulher não fugiu. Olhou para trás e essa olhada lhe custou a vida! Essa estátua de sal é uma eloquente admoestação para nós para que evitemos demoras quando é necessário que fujamos para salvar nossas vidas.

Pecador, você quer se tornar uma estátua de sal? Vai parar entre duas opiniões até que a ira de Deus o condene à penitência eterna? Desprezará a misericórdia até que a Justiça o fira? Levante-se, homem, e enquanto seu dia de graça continua, escape para os braços de amor!

O texto implica que o filho pródigo se levantou empenhando todas as suas energias. Diz: “elevantando-se“. A palavra sugere que ele estava, até o momento, dormindo sobre o leito da preguiça ou sobre a poltrona da presunção. Como Sansão no colo de Dalila, ficou indiferente, inativo e fraco; mas agora, despertado de sua letargia, levanta seu olhos, cinge seus lombos, retira todo o mal que o havia acometido, emprega todos os seus poderes, desperta a sua natureza inteira e não poupa esforço até regressar a seu pai.

Homens não são salvos entre o sono e a vigília. “Se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele.” A graça não nos deixa estupefatos, mas sim nos desperta. Certamente, senhores, vale à pena fazer um esforço tremendo para escapar da ira eterna. Vale à pena reunir cada aptidão, cada poder, emoção e paixão de seu ser e dizer a si mesmo: “Não posso estar perdido! Eu não vou ficar perdido! Resolvi encontrar misericórdia através de Jesus Cristo”.

O pior disso, oh pecadores, é que vocês são tão preguiçosos, tão indiferentes, tão prontos para deixar as coisas acontecerem como quiserem! O pecado os enfeitiçou e os entorpeceu. Por assim dizer, vocês dormem sobre leitos de penas e esquecem que estão em perigo de cair no fogo do Inferno! Você pede: “Um pouco mais de descanso, um pouco mais de sono, um pouco mais de cruzar os braços para dormir”, e você continua dormindo, enquanto sua condenação não descansa.

Quisera Deus que você despertasse. Minha voz não tem poder para despertá-lo, mas peço que o próprio Senhor o alerte, pois nunca os homens estiveram em maior perigo. Só basta que o ar falte, que seu sangue se detenha, e você estará perdido para sempre. Essa vida na qual pende seu destino eterno é mais frágil que uma teia de aranha. Se você fosse sábio, não daria sono a seus olhos, nem descanso para suas pálpebras, até que você tenha encontrado seu Deus e seja perdoado. Oh, quando você se entregará para uma ação real? Quanto tempo passará até que você creia em Jesus? Durante quanto tempo você se sustentará entre as garras do Inferno? Por quanto tempo você ousará desafiar o Deus Vivo?

II. AQUI NOS ENCONTRAMOS COM UMA ALMA QUE ENTRA EM UM CONTATO REAL COM DEUS: “e, levantando-se, foi a seu pai”. De nada lhe adiantaria levantar se ele não tivesse ido ao encontro do pai. Isso é o que o pecador deve fazer e o que o Espírito o capacita a fazer, ou seja, ir diretamente a Seu Deus. Mas, ai, muito normalmente, quando os homens começam a ficar ansiosos, dão voltas por todos os lados e se apressam até um amigo para falar a respeito, ou inclusive recorrem a um sacerdote enganador e pedem ajuda a ele! Eles correm para um santo ou uma virgem, e pedem para que eles sejam seus mediadores, ao invés de aceitarem o único mediador Jesus Cristo, e ir de imediato a Deus por meio Dele. Correm para formas externas e cerimônias, voltam-se para suas Bíblias, seus arrependimentos, suas orações ou o ouvir sermões. Em verdade, recorrem a qualquer coisa em vez de ir a seu Deus.

Mas o filho pródigo conhecia uma melhor opção: ele foi ao seu pai – e esse será um grande dia para você, oh pecador, quando você fizer o mesmo. Vá diretamente a Deus através de Jesus Cristo. “Venha aqui”, diz o sacerdote. Passe reto por esse indivíduo. Vá para seu Pai. Rejeite um anjo do céu se ele o apartar do Senhor. Vá pessoalmente, diretamente e de uma vez para Deus em Cristo Jesus. “Mas não cumprirei nenhuma cerimônia antes”? O pródigo não fez assim, antes se levantou e foi imediatamente ao seu pai.

Pecador, você deve vir a Deus, e Jesus é o caminho. Então, vá até Ele, diga a Ele o que você tem feito de errado, confesse seus pecados a Ele e se entregue a Ele. Clame: “Pai, eu pequei. Perdoa-me, por teu Filho Jesus Cristo.

Ai! Há tantas almas ansiosas que não vão ter com outros, mas só olham para si mesmas. Eles sentam quietas e clamam: “como gostaria de arrepender-me! Quisera eu sentir minha necessidade, quisera eu ser humilde”. Oh, homem, levante-se! O que você faz aí? Marche e apele a seu Pai! “Oh, mas tenho tão pouca esperança! Minha fé é muito pequena e eu sou cheio de medos“. Mas o que sua fé e seus medos importam enquanto você está longe do Pai? Sua salvação não está em você mesmo, mas na boa vontade do Senhor para com você. Você nunca terá paz até que, libertando-se de suas dúvidas e medos, venha para seu Deus e descanse em Seu peito.

“Oh, mas eu quero vencer minha inclinação para o pecado, quero controlar minhas fortes tentações“. Eu sei o que você quer. Você quer a melhor roupa sem a necessidade de que o Pai lhe dê, e calçado para seus pés que você tenha conseguido sozinho. Você não quer ir com roupas de mendigo e receber tudo da amorosa mão do Senhor! Mas você tem que renunciar a esse seu orgulho e vir a Deus ou morrerá para sempre! Deve esquecer-se de si mesmo, só lembrando-se de você para sentir que é mal por completo, e que é indigno de ser chamado filho de Deus. Renuncie a si mesmo como um barco que afunda e não vale a pena ser resgatado, mas tem que deixar que se afunde, e tem que subir ao bote salva-vidas da Graça imerecida. Pense em Deus como seu Pai, n’Ele, lhe digo, e em Seu amado Filho, o único Mediador e Redentor para os filhos dos homens! Ali está sua esperança; corra de você mesmo e aproxime-se de seu Pai.

Por acaso ouço você dizer: “bom, continuarei participando dos meios da Graça, e neles espero encontrar meu Deus“? Digo a você que se você fizer isso e recusar a Deus, os meios da Graça serão os meios de sua condenação. “Devo esperar perto do tanque“, diz um. Então lhe advirto solenemente que, recostado ali, você morrerá, pois Jesus não ordena a você que repouse ali, mas Sua ordem é “pegue seu leito e ande”.

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16:31). Você tem que ir até seu Pai – e não ao tanque de Betesda ou qualquer outro tanque de ordenanças ou meios de graça.

“Mas eu tenho a intenção de orar,” diz um. O que você pediria? Acaso espera que o Senhor lhe ouça quando você não quer ouvi-lo? Você orará melhor no colo do Pai – mas as orações de um coração orgulhoso, desobediente e cético são zombarias! Suas próprias orações lhe arruinarão se são convertidas em um substituto para ir de uma vez a Deus.  Suponham que o filho pródigo tivesse sentado perto dos porcos e tenha dito: “vou orar aqui”? De que lhe teria servido? Ou suponha que ele tenha orado ali, que bem o teria lhe acometido? A oração e o pranto foram muito bons uma vez que ele foi até seu pai, mas poderiam ter substituído seu regresso.

Pecador, seu problema é com Deus! Apresse-se em chegar a Ele de imediato! Você não tem nada a fazer contigo, pelos seus próprios atos nem com que os outros possam fazer por você, pois o ponto chave da Salvação é: “e, levantando-se, foi para seu pai”. Deve haver um contato real, vivo e sincero de sua pobre alma culpada com Deus, um reconhecimento que há um Deus e que se pode conversar com Ele, e deve haver uma oração de sua alma para Ele através de Jesus Cristo, pois só se pode chegar a Deus através de Jesus.

Vindo dessa maneira a Deus, dizemos a Ele que estamos completamente errados e precisamos ser consertados. Dizemos-lhe que desejamos ser reconciliados com Ele e que estamos envergonhados de ter pecado contra Ele; logo, colocamos nossa confiança em Seu Filho e somos salvos.

Oh, alma, vem para Deus! Não importa que a oração com que venha seja uma oração em ruínas, ou até se contém erros nela, como a do filho pródigo tinha quando disse: “faze-me como um dos teus servos” (Lucas 15:19). A linguagem da oração não será relevante tanto que você realmente se achegue a Deus. Jesus disse: “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”(Jo 6:37). E Jesus sempre vive para interceder por aqueles que se achegam a Deus por Ele. Aqui temos, então, a grande doutrina protestante.

A doutrina papista Romana diz que você deve dar a volta pela porta de trás e que meia dúzia de servos do Senhor devem tocar por você – e mesmo assim, você poderia nunca ser ouvido. Mas a grandiosa e antiga doutrina protestante é: vá a Deus por si mesmo! Venha sem nenhum outro mediador que não seja Jesus Cristo! Venha do modo que está, sem méritos e boas obras! Confie em Jesus e seus pecados lhe serão perdoados.

Esse é meu segundo ponto – houve uma ação – e essa ação consistiu num contato com Deus.

III Agora, em terceiro lugar, NESSA AÇÃO HOUVE UMA TOTAL ENTREGA DE SI. No caso do filho pródigo, sua orgulhosa independência e sua obstinação haviam desaparecido. Em outros dias ele exigiu sua herança, e resolveu gastá-la como queria, mas agora estava disposto a ser tratado no nível de um empregado; já experimentou o suficiente sendo seu próprio senhor, e está cansado da distância que o separa de Deus, sempre estabelecida pela obstinação. Anela assumir o verdadeiro lugar de um filho, ou seja, da dependência e da amorosa submissão. O pior mal de todos foi ter se distanciado de seu Pai, e agora se dá conta que assim é. Sua maior preocupação é remover essa distância através de uma humilde volta, pois sente que todos os outros males chegarão ao fim. Ele abre mão de sua apreciada liberdade, a ostentosa independência, sua liberdade para pensar e dizer qualquer coisa que talvez queira e anela submeter-se ao amoroso governo e à sábia orientação. Pecador, está pronto para isso? Se for assim, venha e seja bem-vindo! Seu pai anela por ter você em Seus braços!

O filho pródigo renunciou a toda sua ideia de justificação própria, pois disse: “Pequei” Antes ele tinha dito: “Tenho o direito de fazer o que quero com o que é meu. Quem determinará como gastarei meu próprio dinheiro? E se eu semeio algumas sementes de aveia, não importa, pois todo jovem faz isso também. Eu pelo menos fui muito generoso, ninguém pode dizer que sou mesquinho. Não sou nenhum hipócrita. Olhem seus metodistas hipócritas, como enganam as pessoas! Não há nada disso em mim, garanto; sou um homem sincero no mundo; e depois de tudo, sou de uma disposição muito melhor que de meu irmão maior, ainda que ele pretenda ser um tipo de homem bom”. Mas agora o filho pródigo não se vangloria mais. Nem uma sílaba de adoração a si mesmo sai de seus lábios; tristemente confessou: “Pequei contra o céu e perante ti.”

Pecador, se você quiser ser salvo, você também deve descer de seus lugares altos e reconhecer sua iniquidade. Confesse que você agiu mal, e não tente atenuar sua ofensa. Não ofereça apologias e nem apresente seu caso melhor do que é, mas humildemente, confesse-se culpado e deixe sua alma nas mãos de Jesus.

Dessas duas coisas: pecar ou negar o pecado, provavelmente negar o pecado seja a pior das duas, pois mostra um coração mais escuro. Homem, reconheça sua falta e diga a seu Pai Celeste que se não fosse por Sua misericórdia, você estaria no inferno, e que como estão as coisas, merece abundantemente estar lá agora. Enegreça seu caso, se puder – digo isso porque sei que não pode enegrecê-lo em excesso. Quando um homem está no hospital, não adianta nada fingir que está melhor do que está; nesse caso ele não receberá maior atenção médica, pois quanto pior é seu caso, mais provável que o médico lhe dê uma atenção maior.

Oh, pecador, ponha diante de Deus suas chagas, suas chagas apodrecidas do pecado, as horríveis úlceras de sua profunda depravação, e clame: “Oh, Senhor, tenha misericórdia de mim!” Esse é o caminho da sabedoria. Acabe com o orgulho e com a justiça própria, e apele à piedade imerecida do Senhor e assim prosperará.

Observem que o filho pródigo se entregou tão plenamente que reconheceu que o amor de seu pai para com ele fazia mais grave sua culpa. Entendo que quis dizer isso quando declarou: “Pai, pequei (…)”. Isso adiciona uma ênfase a “Eu pequei”, quando essa confissão segue a palavra “Pai”“Deus bondoso, quebrantei Suas boas leis. Deus amoroso, terno e misericordioso, contra ti, descarada e perversamente, fiz o mal. Tu tens sido um Pai muito amoroso para mim, e eu tenho sido um traidor desavergonhado e pouco generoso para contigo, rebelando-me sem causa. Confesso isso franca e humildemente, e com muitas lágrimas. Ah! Tivesse o Senhor sido um tirano, teria extraído alguma apologia de Sua severidade, mas o Senhor tem sido um Pai, e isso torna pior o fato de que eu tenha pecado contra Ti”. É doce ouvir uma confissão dessa natureza, apresentada aos pés do Pai.

O penitente também renunciou a seus supostos direitos e reivindicações em relação a seu pai, dizendo: “e já não sou digno de ser chamado teu filho.” Ele poderia ter dito: “Eu pequei, mas ainda sou seu filho”, e muitos de nós teríamos considerado um argumento muito justificável. Porém ele não disse isso; é muito humilde para dizer tal coisa, e reconhece: “já não sou digno de ser chamado teu filho”. 

Um pecador está realmente quebrantado quando reconhece que se Deus não tivesse misericórdia dele, mas que se o deixasse fora para sempre, seria muito justo.

“Se a súbita vergonha se apodera de meu alento,

Pronunciar-te-ei Justo na morte;

E se minha alma fosse enviada ao inferno,

Sua justa Lei o aprovaria como bom”

A alma que parou de argumentar e se submete à sentença não está longe da paz. Oh, pecador, se você quer encontrar pronto alívio, o encorajo a ir e se lançar aos pés da cruz, onde Deus recebe as pessoas que são como você, e diga: “Senhor, eis-me aqui; faça o que quiseres comigo. Não oferecerei nenhuma palavra de desculpa, nem nenhum argumento atenuante. Sou uma massa de culpa e miséria, mas tenha piedade, oh, tenha piedade de mim! Não conto com direitos ou reivindicações. Perdi meus direitos de criatura ao voltar-me um rebelde contra Ti. Estou perdido e completamente arruinado diante do Tribunal da Tua Justiça. Dessa justiça fujo e me escondo nas feridas de Seu Filho.” “Segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões (Sl 51:1)”.

Novamente, aqui houve a entrega de si a seu Pai, e não se mencionam nem sequer implicitamente alguns termos ou condições. Ele suplica ser recebido, ainda que o lugar de um servo fosse o suficientemente bom para ele. Ficaria contente de estar no meio dos ajudantes de cozinha, sendo que ele fosse perdoado. Ele não reclama por uma pequena liberdade para pecar, ou estipula um pouco de justiça-própria com que possa vangloriar-se; antes, renuncia tudo. Está disposto a ser nada ou qualquer coisa como nada, simplesmente o que agrade a seu pai, contanto que possa ser contado com os jornaleiros da casa. Agora não tem em suas mãos nenhuma arma de rebelião. Em sua alma não permanece nenhuma oposição secreta ao governo de seu pai, pois está completamente submetido e jaz aos pés de seu pai.

Nosso Senhor, todavia, nunca esmagou nenhuma uma alma prostrada a seus pés, e nunca o fará. Inclinar-se-á e dirá: “Levante-se, filho meu. Levante-se, pois eu te perdoei; vai-te, e não peques mais. Eu te amei com um amor infinito”. “Vinde, e tornemos ao SENHOR, porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará a ferida” (Oséias 6:1) “A cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega” (Isaías 42:3).

IV. Em quarto lugar, notem que NESSE ATO SE ABRIGAVA UMA MEDIDA DE FÉ EM SEU PAI – uma medida, digo, significando com isso não muita fé, mas alguma fé. Uma medida de pouca fé salva a alma! Tinha fé no poder de seu pai. Disse: “Na casa de meu pai tem comida o suficiente e até sobra”. Pecador, você não crê que Deus pode lhe salvar, que através de Jesus Cristo, Ele pode suprir as necessidades de sua alma? Não poderia chegar tão longe para dizer: “Senhor, se quiseres, podes me limpar”?

O filho pródigo também tinha um pouco de fé na disposição do pai para perdoar; pois se não tivesse esperado isso, absolutamente nunca teria regressado a ele. Se ele tivesse a certeza que seu pai não sorriria para ele, não retornaria jamais à casa.

Pecador, você deve crer que Deus é misericordioso, pois Ele o é! Creia, por meio de Jesus Cristo, que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva; tão certo como vive Deus, isso é verdade, e não creia em nenhuma mentira concernente a seu Deus. O Senhor não é duro nem áspero, mas bem se alegra em perdoar grandes transgressões!

O filho pródigo também acreditava na disposição de seu pai em abençoá-lo. Estava seguro que seu pai iria tão longe quanto a correção lhe permitisse, pois pensou dizer-lhe: “Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus servos”. Nisso ele também admitia que seu pai fosse tão bom que até ser seu servo seria algo muito bom! Contentava-se em obter o lugar mais baixo desde que pudesse estar sob a sombra de um protetor tão bom.

Ah, pobre pecador, não acredita que Deus terá misericórdia de você, se for compatível com Sua Justiça? Se você crê isso, tenho boas notícias para lhe dar! Jesus Cristo, Seu Filho, ofereceu tal expiação, que Deus pode ser justo e o que justifica ao que é da fé em Jesus. Ele tem misericórdia do mais vil e justifica o ímpio, e aceita o pior dos pecadores através de Seu amado Filho!

Oh, alma, tenha fé na expiação! A expiação feita através do sacrifício pessoal do Filho de Deus há de ser infinitamente preciosa! Deve crer que há suficiente eficácia nela para você. Sua segurança consiste em acudir apressadamente a essa expiação e lançar-se a Cruz de Cristo, e você estará honrando a Deus se assim o faz. Essa é a única maneira que você pode honrá-lo. Você pode honrá-lo se crê que pode salvar você, até você. A fé mais genuína é a que acredita na misericórdia de Deus, apesar da indignidade consciente.

O penitente da parábola veio a seu pai tão indigno de ser chamado de filho, e, no entanto, disse: “Meu pai”. A fé tem um jeito de ver a escuridão do pecado e ainda crer que Deus pode converter nossa alma branca como a neve! Não é fé que diz: “eu sou um pequeno pecador então Deus pode me salvar”, mas antes a fé clama: “Sou um grande pecador! Um pecador maldito e condenado, e, no entanto, apesar disso tudo, a misericórdia de Deus pode me perdoar e o sangue de Cristo pode me limpar”. Creia apesar de seus sentimentos e sua consciência; creia em Deus, ainda que tudo em você pareça dizer: ‘Ele não pode salvá-lo. Ele não quer me salvar’. Creia em Deus, pecador, acima dos topos de pecado do tamanho de montanhas! Faça como John Bunyan disse que fez, pois estava tão temeroso de seus pecados e seu castigo consequente, que não pôde fazer outra coisa senão correr para os braços de Deus, e acrescenta: “ainda que Ele estivesse segurando uma espada em Suas mãos, eu teria corrido contra sua ponta ao invés de manter-me longe d’Ele”.

Então, pobre pecador, faça o mesmo. Creia em seu Deus! Não acredite em nada mais, mas creia no seu Deus, e você será abençoado. O poder da fé sobre Deus é maravilhoso, pois cega sua Justiça e coage sua Graça.

Não sei como ilustrar isso melhor do que com uma pequena historinha. Quando eu andava pelo jardim da minha casa há um tempo, achei um cachorro que se divertia entre as flores. Eu sabia que ele não era um bom jardineiro, e nem era meu, então eu joguei um pedaço de pau para que ele fosse embora. Depois de ter feito isso, ele me conquistou, e me fez sentir envergonhado por ter falado rudemente com ele, pois levantou meu graveto e balançando prazerosamente seu rabo, trouxe-me de volta e o soltou aos meus pés. Vocês pensam que poderia expulsá-lo depois disso? Não, dei-lhe umas palmadas de leve e comecei a elogiá-lo. O cachorro tinha conquistado o homem!

E você, pobre pecador, sendo um cachorro como é, pode ter confiança suficiente em Deus para ir até Ele tal como é; não está em Seu coração menosprezá-lo! Há tal onipotência na fé sincera que é capaz de conquistar o próprio Ser divino. Confie unicamente n’Ele conforme se revela em Jesus, e você encontrará a salvação.

V. Não tenho nem tempo nem força para prolongar-me mais aqui, e então você deve notar, em quinto lugar, que ESTE ATO DE ENTRAR EM CONTATO COM DEUS É EXECUTADO PELO PECADOR NO ESTADO EM QUE ELE SE ENCONTRA. Não tenho ideia de quão desastrosa devia ser a aparência do filho pródigo, mas sou obrigado a dizer que ela não deve ter tido como voltar melhor depois de ter cuidado de porcos, nem tão pouco imagino que suas roupas estivessem suntuosamente bordadas após ter que recolher as alfaborras das árvores. No entanto, do jeito que ele estava, veio! Provavelmente poderia ter gasto uma hora limpando sua roupa e seu corpo. Mas não, disse: “Me levantarei”, e tão pronto como pensou, fez! Efetivamente, levantou-se e foi para seu pai.

Toda vez que um pecador se detém longe de Deus para ficar melhor não está fazendo mais que agregando mais pecado a seu pecado, pois o maior de todos os pecados é estar longe de Deus, e quanto tempo permaneça nesse estado, mais ele peca. A intenção de fazer boas obras, fora de Deus, é como o esforço de um ladrão para manter em ordem os bens roubados, enquanto seu único dever é devolvê-los imediatamente.

O mesmo orgulho que conduz os homens a se afastarem de Deus pode ser visto em sua presunçosa noção de que eles podem melhorar a si mesmo enquanto recusam regressar a Ele! A essência de sua falta é que estão longe de Deus, e, portanto, qualquer coisa que façam, enquanto essa distância ainda permanece, não a podem fazer eficazmente. Digo que o extremo de todo o assunto é a distância que os separam de Deus, e, por ele, o começo da colocação das coisas radica em levantar-se voltar para Ele, do qual se apartaram.

O filho pródigo estava obrigado a voltar para sua casa tal como estava, pois não havia nada que pudesse fazer. Estava reduzido a tais extremos de pobreza que não podia comprar uma peça nova de pano para remendar suas roupas, nem um pedaço de sabão com que pudesse limpar-se; e é uma grande misericórdia quando um homem está tão espiritualmente reduzido que não pode fazer nada a não ser ir até Deus como um mendigo, quando ele está tão falido que não pode pagar nem um centavo, quando ele está tão perdido que não é capaz nem de crer ou se arrepender longe de Deus, e mais, sente que está eternamente arruinado a não ser pela intervenção do Senhor. Nossa sabedoria consiste em ir a Deus para tudo.

Além disso, não se requisitava nada do filho pródigo a não ser voltar para seu pai! Quando um filho que fez algo de errado regressa, quanto mais cheio de lágrimas estará. Quando um mendigo pede uma esmola, quanto mais suas roupas estão surradas, melhor. Não são rasgos e dores as características dos mendigos?

Uma vez eu dei a um homem um par de sapatos, porque ele havia dito que estava precisando deles. Porém, depois dele os ter colocado e andando por um pouquinho, o peguei em um beco tirando os sapatos, voltando a ficar descalço de novo. Creio que eram sapatos de couro, e o que um mendigo teria que fazer com esse acessório? Ele os estava trocando por ‘sapatos velhos e batidos’ – os que eram apropriados para seu negócio! Um pecador nunca está mais bem vestido para suplicar do que quando vem em farrapos. O pecador, ao pedir misericórdia, quando no seu pior momento, está paradoxalmente no seu melhor estado. E assim, pecadores, não há necessidade de hesitar – venham como estão. “Mas não deveríamos esperar pelo Espírito Santo?” Ah, amado, o que quer levantar e vir a seu Pai tem o Espírito Santo! É o Espírito Santo quem nos move para retornarmos a Deus. São os espíritos da carne e do demônio que nos pedem para esperar.

Por que não agora, pecadores? Alguns de vocês estão sentados nesses assentos – onde vocês estão? Não posso encontrá-los, mas meu Mestre sim pode. Ele fez esse sermão para vocês. “Bem, eu gostaria de ir para casa e orar”. Ore aí onde você está: no seu assento! “Mas eu não posso falar alto”. Você pode se quiser, pois eu não vou impedi-lo. “Mas talvez eu não queira fazê-lo”. Bom, então não faça. Deus pode ouvi-lo sem um único som, ainda que goste às vezes de ouvir clamores como “o que devo fazer para ser salvo?”. Eu ouviria com prazer: “Deus, seja misericordioso comigo, pecador”. Mas se o homem não pode ouvir você, o Senhor pode ouvir o clamor do seu coração.

Agora, só por um minuto aquietem-se e digam: “Meu Deus, devo vir a Ti. Tu estás em Jesus Cristo e n’Ele Tu percorreste boa parte do caminho para se encontrar comigo. Minha alma precisa de Ti. Toma-me agora e faça-me o que tens que fazer. Perdoa-me e aceita-me”. Quando um homem faz isso, se encontra no momento decisivo de sua vida, no ponto de retorno, onde quer que esteja, num escritório, numa oficina, numa igreja, ou em um tabernáculo; não importa onde. Esse é o ponto: ir a Deus em Cristo, renunciando a tudo, e descansando na misericórdia de Deus por meio da fé.

VI. O último ponto de todos: ESSE ATO FORJOU A MAIOR MUDANÇA POSSÍVEL NO HOMEM. Ele foi um novo homem depois disso. Rameiras, beberrões, vocês agora perderam seu velho companheiro! Ele veio para o Pai, e a companhia dele e a de vocês não combinam. O retorno de um homem para seu Deus significa o abandono dos aposentos do vício e das mesas de dissipação. Sempre que vocês ouvirem que um cristão professante vive na imundícia, podem ter certeza de que ele não está vivendo perto de seu Deus. Poderia ter falado muito disso, mas Deus e a impureza nunca estarão de acordo. Se vocês têm amizade com Deus não terão nenhuma participação nas infrutíferas obras das trevas.

Agora, o penitente terminou também com todas as degradantes obras para manter a si mesmo. Você não o encontra mais alimentando suínos, ou fazendo dele mesmo um porco, seja por confiar nos sacerdotes ou nos sacramentos; já não se confessará mais com um sacerdote, nem pagará nem um centavo mais para tirar sua mãe do purgatório. Ele não é mais um insensato como antes para fazer isso. Ele acudiu a seu Deus por conta própria, e não necessita mais que nenhum desses frades acudam a Deus em seu nome. Lançou-se longe dessa servidão. Já não alimentará mais aos porcos; já não existe mais superstições para ele! “Vamos” – diz a si mesmo – “Posso entrar com resolução até ao propiciatório, então, para que preciso dos sacerdotes de Roma?”

Há uma mudança nele em todos os sentidos. Agora ele veio a seu Pai com seu orgulho destroçado. Ele já não se gloria mais nas suas próprias coisas – toda sua glória está no amor gratuito e perdoador de seu Pai. Ele não se jacta pelo que tem, pois reconhece que não possui nada exceto aquilo que seu Pai lhe dá; e ainda que está muito melhor do que enquanto viveu em seus dias de esfarrapado, é tão modesto como um bebê. É um cavalheiro plebeu que depende da generosidade de seu Deus, e vive dia após dia por uma concessão real que provém da mesa do Rei dos reis. O orgulho desapareceu, e agora o contentamento preenche sua habitação. Ele teria se contentado em ser um dos serviçais da casa – ele agora naturalmente está muito mais satisfeito em ser um filho. Ele ama seu Pai com um novo amor; sequer menciona Seu nome sem dizer: “Ele me perdoou! Ele me perdoou de imerecidamente de graça! Ele perdoou completamente, e Ele disse ‘Ache a melhor roupa e o vista; ponha um anel em seu dedo e um calçado em seus pés'”. Desde o dia de sua restauração, o filho pródigo está ligado à casa de seu Pai, e considera isto como uma das maiores bênçãos que está escrita no pacto da Graça: “porei o meu temor nos seus corações, para que nunca se apartem de mim” (Jr 32:40).

Nesta manhã creio que Deus em sua misericórdia tem o propósito de chamar muitos pecadores para que venham a Ele! Eu sempre me surpreendo ao descobrir como o Senhor guia minha palavra de acordo com a pessoa que está diante de mim. Domingo passado veio aqui um jovem filho de um cavalheiro, um estrangeiro procedente de uma terra distante. Seu pai é um seguidor de uma das religiões antigas do Oriente e esse jovem cavalheiro naturalmente considerava que seria uma grande dificuldade para ele se provocasse a ira a seu pai tornando-se cristão. Julguem, então, com que força penetrou em seu coração a mensagem de domingo passado, quando o texto pregado foi: Quem me fará saber, se por acaso teu pai te responder asperamente? 1 Samuel 20:10. Ele veio a mim para dizer que dava graças a Deus por aquele sermão e que esperava suportar a tribulação, se alguma perseguição se levantasse contra ele.

Parece que estou falando com alguns de vocês com a mesma simplicidade. Eu sei que estou! Vocês devem estar se perguntando: ‘Eu posso ir agora a Deus do jeito como sou, e entregar-me através de Jesus Cristo, e Ele me perdoará?’ Querido irmão, ou amada irmã, no lugar onde você está, tente. É o melhor que você pode fazer – tentar – e, se os anjos não tocarem voando os sinos nos céu, então Deus alterou seu comportamento do que foi a semana passada, pois sei que Ele recebeu a pobres pecadores então, e Ele os receberá agora. A pior coisa que eu temo é que você diga: ‘Eu pensarei sobre isso’. Não penseFaça!

No concernente a isso não se requer que se pense mais, melhor sim, faça-o. Fuja apressadamente a Deus! Acaso não é de conformidade com a natureza que a criatura esteja em paz com o Criador? Isso não vai de acordo com sua consciência? Acaso não há algo em você que clama: ‘Vá correndo até Deus em Cristo Jesus’? No caso desse pobre filho pródigo, a fome lhe dizia: ‘Vá para casa!’. O pão era escasso, o alimento, precário, ali havia fome e tudo dizia: ‘Vá para casa! Vá para casa!’. Quando ele foi a um velho amigo e pediu por ajuda, seu olhar sombrio parecia dizer: ‘Por que você não vai para casa?’.

Há um tempo para os pecadores quando seus velhos companheiros parecem dizer: “não queremos estar ao seu lado. Estás demasiadamente abatido e melancólico. Por que você não vai para casa?”. O enviaram a alimentar porcos, e parecia que os próprios animais grunhiam: “vá para casa!”. E quando recolhia as alfarrobas, e queria comê-las, essas alfarrobas crepitavam: “volte para casa”. Olhava seus trapos e esses abriam suas bocas dizendo: “vá para casa!” Sua barriga faminta e sua fraqueza clamavam: “vá para casa“. Logo ele pensou no rosto de seu pai e quão amavelmente havia olhado para ele, e parecia dizer-lhe: “venha para casa!”. Ele se lembrava da abundância de pão, e cada bocado parecia dizer: “venha para casa!”. Ele imaginou os servos sentados para jantar e festejando plenamente – e cada um parecia olhá-lo de longe, sobre o deserto, e dizendo: “venha para casa. Seu pai nos alimenta bem. Venha para casa!”. Cada coisa lhe dizia: “venha para casa!”. Só o diabo sussurrava: “nunca volte. Você tem que lutar até o fim! Melhor é morrer de fome que render-se! é um jogo de azar!”. Mas dessa vez ele fugiu do diabo, pois caindo em si, disse: “não! Levantar-me-ei e irei a meu pai!”.

Oh, que vocês fossem sábios assim também! Pecador, de que lhe adianta ser condenado por causa de um pouco de orgulho? Renda-se, homem! Derrube o seu orgulho! Você não achará tão difícil submeter-se se você lembrar desse querido Pai que nos amou e se entregou a nós na pessoa de Seu próprio amado Filho! Você descobrirá que é doce se entregar a um Amigo assim. E quando você recostar sua cabeça no peito Dele e sentir Seu morno beijo em seu rosto, você rapidamente sentirá que é doce chorar pelo pecado – que é doce confessar sua má conduta, e que é mais doce ainda ouvi-lo dizer: “Eu desfiz como uma nuvem as suas rebeliões, e como névoa os seus pecados”. “Se seus pecados forem como escarlate, eles serão brancos como a neve. Se eles forem vermelhos como carmesim, eles serão como a lã”.

Que o Deus Todo-Poderoso nos conceda que este seja o caso com centenas de vocês esta manhã. Ele receberá toda glória por isso, mas meu coração se alegrará bastante, pois não sinto nada do espírito do irmão maior dentro de mim; antes, o maior regozijo concebível diante do pensamento de logo celebrar com vocês quando cheguem a reconhecer a meu Deus e Senhor, e quando nos sentemos juntos na festa sacramental, regozijando em Seu amor. Que Deus lhes abençoe, por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

FONTE

Traduzido de http://www.spurgeon.com.mx/sermon1189.html

Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público e com permissão

 

Sermão nº 1189—Volume 20 do The Metropolitan Tabernacle Pulpit,

Original em inglês: THE TURNING POINT

Tradução: Isabela Caroline

Revisão: Cibele Cardozo

Diagramação: Armando Marcos

Capa: Salvio Bhering

Ilustração:  Clark Kelley Price

Projeto Spurgeon – Proclamando a Cristo crucificado.

Projeto de tradução de sermões, devocionais e livros do pregador batista reformado Charles Haddon Spurgeon (1834-1892) para glória de Deus em Cristo Jesus, pelo poder do Espírito Santo, para edificação da Igreja e salvação e conversão de incrédulos de seus pecados.

Acesse em: www.projetospurgeon.com.br

 

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