Diante da Porta Estreita – Fé Muito Simples

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A FÉ PARECE A MUITOS uma coisa difícil. A verdade é que só é difícil porque é fácil. Naamã achou difícil se lavar no Jordão, mas se fosse algo grande, ele teria feito imediatamente com alegria. As pessoas pensam que a salvação deve ser o resultado de um ato ou sentimento muito misteriosos e muito difíceis, mas os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos, nem os Seus caminhos como os nossos. A fim de que o mais fraco e o mais ignorante possam ser salvos, ele fez o caminho da salvação tão fácil quanto o A, B, C. Não há nada nele que confunda ninguém, entretanto, como todo mundo espera ser confundido por ele, muitos ficam aturdidos quando descobrem-no grandemente simples. O fato é que nós não cremos que Deus é sério em sua palavra e agimos como se Ele não pudesse ser real.

Eu ouvi falar de um professor de escola dominical que realizou um experimento que eu mesmo não tentaria com as crianças, pois parece ser bem caro. De fato, eu acredito que o resultado no meu caso seria muito diferente daquele que agora descrevo. Esse professor havia tentado ilustrar o que era fé e, como não conseguia colocá-la nas mentes dos meninos, ele pegou seu relógio e disse: “agora, eu vou lhe dar esse relógio, João. Você o aceita?” João começou a pensar no que o professor quereria dizer e não se apossou do tesouro, nem deu resposta alguma. O professor falou ao próximo menino: “Henrique, aqui está o relógio. Você o aceita?”. O garoto, com uma modéstia bem própria, respondeu: “Não, obrigado, senhor”. O professor tentou dar o relógio a vários meninos, mas com o mesmo resultado, até que um garoto mais novo, que não era tão sábio nem tão pensativo quanto os outros, porém muito mais crédulo, disse com a maior naturalidade: “Obrigado, senhor” e pôs o relógio em seu bolso. Então os outros alunos despertaram para um fato instigante: seu colega recebeu um relógio que eles recusaram. Um dos garotos rapidamente perguntou ao professor: “ele pode ficar com ele?”. “Claro que sim”, disse o professor, “eu ofereci a ele, e ele aceitou. Eu não daria algo e depois pegaria de volta, isso seria tolice. Eu pus o relógio diante de vocês e eu disse que o daria a vocês, mas nenhum de vocês o recebeu”. “Oh”, disse o garoto, “se eu soubesse que você falava sério, eu o teria recebido”. Claro que ele teria. Ele achou que era apenas uma ilustração, e nada mais. Todos os outros garotos estavam num triste estado de mente pensando que haviam perdido o relógio. Cada um clamou: “professor, eu não achei que era sério, mas eu pensei”. Nenhum dos garotos pegou o presente, mas todos pensaram. Cada um tinha sua teoria, exceto o menino de mente simples que acreditou no que lhe foi dito e recebeu o relógio.

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Eu gostaria de ser sempre uma criança simples para acreditar literalmente no que o Senhor diz e receber o que Ele põe diante de mim, descansando contente que Ele não está brincando comigo e que eu não posso estar errado ao aceitar o que Ele põe diante de mim no evangelho. Seríamos felizes se confiássemos e não levantássemos nenhum tipo de questionamento. Mas, veja, pegamos a nós mesmos pensando e duvidando. Quando o Senhor apresenta Seu Filho querido diante de um pecador, aquele pecador deveria recebê-lo sem nenhuma hesitação. Se você o receber, você o terá e ninguém poderá tirá-lo de você. Estenda sua mão, homem, e o receba de uma vez!

Quando questionadores aceitam a Bíblia como literal e verdadeira e veem que Jesus é realmente dado a todo aquele que Nele confia, todas as dificuldades para entender o caminho da salvação desaparecem como a geada da manhã ao nascer do sol.

Duas questionadoras vieram a mim em meu gabinete. Elas ouviram o evangelho de mim por apenas um curto período de tempo, mas ficaram muito impressionados por ele. Elas expressaram seu arrependimento de que em breve se mudariam para bem longe, mas apresentaram sua gratidão pelo fato de poderem ter me ouvido. Eu fiquei animado pelos seus agradecimentos gentis, mas fiquei ansioso também de que um trabalho mais eficiente deveria ser feito e, por isso, perguntei a elas: “vocês de fato creram no Senhor Jesus Cristo? Vocês estão salvas?”. Uma delas respondeu: “eu tenho me esforçado para acreditar”. Eu já ouvi esse depoimento várias vezes, mas nunca o deixarei passar por mim sem ser desafiado. “Não”, eu disse. “Isso não é assim. Você já disse alguma vez a seu pai que você tentou crer nele?”. Depois que eu me demorei um pouco sobre o assunto, elas admitiram que tal linguagem seria ofensiva ao pai delas. Então, eu apresentei o evangelho todo a elas na linguagem mais simples que eu consegui e lhes pedi que cressem em Jesus, que é mais digno de fé que o melhor dos pais. Uma delas respondeu: “Eu não consigo perceber isto, não consigo perceber que estou salva”. Então, eu disse: “Deus dá testemunho de Seu Filho, que todo aquele que confia no Filho está salvo. Você o fará mentiroso agora ou crerá na Sua palavra?”. Enquanto eu falava, uma delas ficou como que atônita e surpreendeu a nós quando começou a chorar: “Oh senhor, eu vejo claramente que estou salva! Oh, Jesus me abençoou, Ele me mostrou o caminho e me salvou! Eu vejo tudo”. A estimada irmã que trouxe essas duas jovens para mim ajoelhou-se com elas, enquanto que, em nossos corações, nós louvávamos e engrandecíamos ao Senhor, por mais uma alma que Ele trouxe à luz. Uma das duas irmãs, no entanto, não podia ver o evangelho como a outra, por mais que eu esteja seguro de que ela o fará depois de algum tempo. Não parece estranho que, ambas ouvindo as mesmas palavras, uma veio à luz e a outra permaneceu na escuridão? A mudança que há no coração quando o entendimento agarra o evangelho é normalmente refletido na face, e ela brilha como a luz do céu. Tal alma recentemente iluminada geralmente clama: “Por que, Senhor, tudo é tão claro e como eu nunca havia percebido antes? Agora eu entendo tudo que leio na Bíblia, mas não podia fazê-lo antes. Tudo aconteceu em um minuto e agora eu vejo aquilo que eu não entendia antes”. O fato é que a verdade sempre foi simples, mas eles estavam procurando por sinais e prodígios e, com isso, não viam o que estava bem próximo a eles. Homens velhos muitas vezes olham para os seus óculos quando eles estão na sua testa, normalmente, é observando no que falhamos que deixamos de ver o que está logo diante de nós. Cristo Jesus está diante de nossos rostos e precisamos apenas olhar para Ele e viver, mas nós causamos toda sorte de embaraço diante disso e criamos um labirinto para aquilo que é simples e fácil de entender[1].

O pequeno incidente com as duas irmãs me lembra de outro incidente: uma amiga muito querida veio a mim no Domingo de manhã depois do serviço para me cumprimentar porque “eu completei cinquenta anos no mesmo dia que você”, disse ela. “Eu me pareço com você apenas nisso, mas eu sou o oposto de você nas coisas excelentes”, disse ainda. “Então, você deve ser uma ótima mulher, pois em muitas coisas eu desejo ser o oposto do que eu sou”. “Não, não”, disse ela, “não quis dizer nada disso: eu não estou totalmente endireitada”. “O quê?”, gritei eu, “você não é uma crente em Jesus?” “Bem”, ela disse, com muita emoção: “Eu, eu vou tentar ser”. Eu segurei suas mãos e disse: “Minha querida alma, não me diga que você vai tentar crer no meu Senhor Jesus! Eu não aguento ouvir isso de você. Significa ceticismo cego. O que Ele fez que lhe permite falar dEle desse jeito? Você me diria que tentaria acreditar em mim? Eu sei que você não me trataria de forma tão rude. Você vê em mim um homem confiável e, com isso, você crê em mim plenamente e, certamente, você não poderia fazer menos com meu Senhor Jesus?”. Então, com lágrimas ela exclamou: “Oh senhor, ore por mim!”. A isso, respondi: “Não creio poder fazer nada disso. O que poderia pedir ao Senhor Jesus que fizesse por alguém que não confia nEle? Eu não vejo motivo de oração. Se você crer nEle, você será salva, se você não crer nEle, não posso pedir a Ele que invente uma nova forma pra agradar sua incredulidade”. Então, ela disse de novo: “Eu tentarei crer”, mas eu lhe disse seriamente que não aceitaria nenhuma de suas tentativas, pois a mensagem do Senhor não menciona “tente”, mas diz: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo”. Eu coloquei diante dela a grande verdade, que “aquele que nEle crê terá a vida eterna”, e, ao mesmo tempo, seu terrível oposto: “Aquele que não crê no Filho já está condenado, porque não creu no nome do único Filho de Deus”. Eu lhe insisti que depositasse toda sua fé naquele outrora crucificado, mas agora elevado Senhor e o Espírito Santo que estava ali naquela hora a habilitou a crer. Ela muito ternamente disse: “Oh senhor, eu estava buscando meus sentimentos e isso foi um erro! Agora confio minha alma a Jesus e estou salva”. Ela achou paz imediata pela fé. Não há outro caminho.

Sem título2Deus se agradou de fazer das necessidades da vida assuntos muito simples. Temos de comer e, mesmo um homem cego, consegue achar sua própria boca. Temos de beber e, mesmo o menor bebê, sabe como fazê-lo sem instrução. Temos uma fonte no centro do Orfanato Stockwell[2] e, quando estão correndo no tempo quente, os meninos vão lá naturalmente. Não temos aulas de “beber na fonte”. Muitos garotos pobres vieram ao orfanato, mas nenhum era tão ignorante a ponto de não saber beber. Agora, a fé é, nas questões espirituais, o que comer e beber são entre as coisas temporais. Pela boca da fé recebemos as bênçãos da graça na nossa natureza espiritual e elas são nossas. Oh! Você que precisa crer, mas pensa que não pode, você não vê que, assim como alguém pode beber sem ter forças e como alguém pode comer sem ter forças e recebe forças por comer, assim devemos receber a Jesus sem esforço e, ao recebê-lo, recebemos poder para todo o esforço posterior a que formos chamados?

Fé é um assunto tão simples que, toda vez que eu tento explicar, eu fico temeroso de que talvez não consiga revelar sua simplicidade. Quando Thomas Scott publicou suas notas sobre “O Peregrino”, ele perguntou a uma das suas paroquianas o que ela entendia do livro. “Ah sim, senhor”, disse ela, “eu entendo o sr. Bunyan muito bem e eu espero que um dia, pela graça divina, eu possa entender suas explicações”. Não deveria eu me sentir morto se meu leitor soubesse o que é fé e então ficar confuso pela minha explicação? Eu vou tentar explicar e também orar ao Senhor para que a torne clara.

Contaram-me que, havia uma disputa sobre um caminho que era a estrada para um monte. O dono queria preservar sua supremacia e, ao mesmo tempo, não queria ser inconveniente ao público e daí, surgiu a solução que provocou o incidente que conto a seguir: vendo uma doce jovem do campo parada no portão, um turista foi até ela e ofereceu-lhe uma moeda, para que lhe fosse permitido passar. “Não, não”, disse a criança, “Eu não estou aqui para receber nada de você, mas você deve dizer, ‘Por favor, me deixe passar’, e, então, você entrará e será bem-vindo”. A permissão era para ser pedida e poderia ser obtida pelo pedir. Igualmente, a via eterna é gratuita e pode ser recebida. Sim! Pode ser imediatamente recebida, ao confiar na palavra daquele que não pode mentir. Confie em Cristo e, por essa confiança, você agarra a salvação e a vida eterna. Não filosofe. Não se sente e incomode seu pobre cérebro. Apenas creia em Jesus como você creria em seu pai. Confie Nele, assim como você confia seu dinheiro a um banqueiro ou a sua saúde a um médico.

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A fé não parecerá mais uma dificuldade para você, nem deve ser, pois é simples.

Fé é confiança, confiar totalmente na pessoa, trabalho, mérito e poder do Filho de Deus. Alguns pensam que este confiar é uma coisa romântica, mas de fato é a coisa mais simples que pode haver. Para alguns de nós, verdades que antes eram difíceis de acreditar agora são fatos que acharíamos difíceis de duvidar. Se algum de nossos grandes antepassados se levantasse dos mortos e visse as coisas como são hoje, quanta fé ele teria que exercer! Ele diria pela manhã: “Onde estão a pedra e o aço? Eu quero fazer luz” e lhe daríamos uma pequena caixa com pequenos pedaços de madeira dentro e lhe diríamos para raspar uma delas no lado da caixa. Ele teria de confiar muito antes de acreditar que assim o fogo poderia ser produzido. A seguir diríamos a ele: “Agora que você tem fogo, gire aquela torneira e acenda o gás”. Ele não vê nada. Como poderia existir luz através de um vapor invisível? E ainda assim isso aconteceria. “Venha conosco, vovô. Sente naquela cadeira. Olhe para aquela caixa diante de você. Você terá assim uma reprodução de si mesmo”. “Não, criança”, ele diria, “isso é ridículo. O sol fazer uma figura minha? Eu não posso crer nisso”. “Sim, e você irá andar a cinquenta milhas por hora em cavalos”. Ele não o creria até que o colocássemos em um trem. “Meu caro senhor, você pode falar com seu filho em Nova Iorque, e ele lhe responderá em poucos minutos”. Não assustaríamos o velho cavalheiro? Isso não lhe exigiria toda a sua fé? Ainda assim, essas coisas são cridas por nós sem esforço algum, pois a experiência nos fez familiarizados com elas. Fé é necessária em grande quantidade a vocês que são estranhos às coisas espirituais; vocês se sentem perdidos quando falamos sobre elas. Mas oh, quão simples são para nós que temos a nova vida e temos comunhão com as realidades espirituais! Nós temos nosso Pai com quem falamos e Ele nos ouve; temos um bendito Salvador que ouve os desejos do nosso coração e nos ajuda nas lutas contra o pecado. Está tudo claro ao que entende. Que seja agora claro para você!


[1] N. do T.: originalmente, pikestaff. Uma expressão que pode significar “tão simples quanto um cabo de lança”.

[2] Orfanato Stockwell foi o orfanato infantil masculino fundado por Spurgeon e sua igreja, o Tabernáculo Metropolitano, para o cuidado dos órfãos de Londres. Anos depois, foi aberto um orfanato feminino. (N.R)

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“Diante da Porta Estreita” é uma tradução do site Projeto Spurgeon – Proclamando a Cristo Crucificado. Proibida a reprodução desse material sem citar o Projeto e proibida a venda em material impresso. Permitida a divulgação na net.

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