Diante da Porta Estreita – Despertar

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GRANDE É O NÚMERO DE PESSOAS que não tem nenhuma preocupação acerca das coisas eternas. Eles se preocupam mais com seus gatos e cachorros do que com suas próprias almas. É uma grande misericórdia que nós tenhamos sido levados a pensar sobre nós mesmos e como estamos diante de Deus e do mundo eterno. Esse é um sinal frequentemente suficiente de que a salvação está vinda a nós. Por natureza, nós não gostamos da ansiedade que a preocupação espiritual nos causa, e tentamos, como preguiçosos, dormir de novo. Isso é grande tolice, pois, é por nossa própria conta e risco, que negligenciamos quando a morte está tão perto e o julgamento tão certo. Se o Senhor nos escolheu para a vida eterna, Ele não nos deixará retornar à nossa soneca. Se formos sensíveis, devemos orar para que a ansiedade sobre nossas almas nunca termine até que estejamos realmente salvos. Digamos com nosso coração:

“Aquele que sofreu em meu lugar,

Deve ser o meu médico;

Eu não estarei consolado

Até que Jesus me console.”

Seria algo terrível ir sonhando para o inferno e lá abrir os olhos e ver um enorme abismo colocado entre nós e os céus. Será igualmente terrível ser acordado para escapar da ira vindoura e, então, sacudir a influência da advertência, voltando à insensibilidade. Eu noto que aqueles que subjugam suas convicções e continuam em seus pecados não são tão facilmente sensibilizados da próxima vez: cada despertar que passa deixa a alma mais sonolenta que antes e menos apta a ser novamente sacudida com sentimentos santos. Por isso, nosso coração deveria ser grandemente conturbado com o pensamento de se livrar desse problema de outra forma, que não no caminho certo. Assemelha-se a alguém que teve reumatismo e foi curado por um medicamento charlatão. Este trouxe uma doença interior e o paciente morreu. Assim também é ser curado da aflição da mente por uma falsa esperança: seria um péssimo negócio, pois o remédio seria pior do que a doença. É muito melhor que nossa fragilidade de consciência nos cause longos anos de angústia do que perdê-la e perecer pela dureza dos nossos corações.

Contudo, o despertar não é algo sobre o qual podemos descansar ou desejar que continue mês após mês. Se eu acordar de um susto e vir minha casa em chamas, eu não sentarei à beira da cama, dizendo a mim mesmo: “Espero que eu esteja verdadeiramente desperto! De fato, eu estou profundamente grato por não ficar adormecido!” Não, eu quero escapar da morte ameaçadora e, assim, eu corro para uma porta ou janela, para que eu saia e não pereça onde estou. Seria um benefício questionável ser desperto e, ainda assim, não conseguir escapar do perigo. Lembre-se: despertar não é ser salvo. Um homem pode estar ciente de que está perdido e, todavia, nunca ser salvo. Ele pode ficar pensativo e, ainda assim, morrer em seus pecados. Se você descobrir que está falido e apenas tiver conhecimento sobre seus débitos, isso não os pagará. Um homem pode examinar suas feridas por um ano e elas não estarão mais próximas de serem curadas somente porque ele as sente inteligentemente e sabe o seu número. É um truque do demônio tentar ao homem a se satisfazer sabendo de seu pecado. É outro truque do mesmo enganador insinuar que o pecador não deve se contentar por confiar em Cristo, para que ele seja tomado pelo desespero e adicione ao  seu trabalho ao que já foi consumado pelo Salvador. Nossos despertares não são para ajudar o Salvador, mas nos ajudar a chegar ao Salvador. Imaginar que meu senso de pecado é para ajudar a removê-lo é absurdo. É o mesmo que dizer que a água não pode lavar minha face até que eu tenha olhado longamente no espelho, e tenha contado as sujeiras na minha cara. Um senso de necessidade de salvação pela graça é um sinal muito saudável; mas precisa-se de sabedoria para usá-lo, para não fazer dele um ídolo.

Alguns parecem ter se apaixonado por suas dúvidas, medos e aflições. Você não pode fazê-los se livrar de seus terrores – eles parecem casados com os mesmos. Diz-se que o pior problema com cavalos quando o estábulo está em chamas é que você não consegue fazê-los sair de suas cocheiras. Se eles somente seguissem você, eles escapariam das chamas. Porém, eles parecem paralisados pelo medo, de tal forma que o medo do fogo os impede de escapar do fogo. Leitor, será o seu próprio medo da ira vindoura que o impedirá que escape dela? Esperamos que não.

Havia um homem que, tendo estado muito tempo na cadeia, não queria ir embora. A porta estava aberta, mas ele clamava com lágrimas para que lhe permitissem permanecer onde estivera por tanto tempo. Afeiçoado pela prisão! Devotado às barras de ferro do corredor da prisão! Certamente, o prisioneiro deve ter sido acertado na cabeça! Vocês estão desejosos de continuarem despertos e nada mais? Não estão desejosos de serem perdoados de uma vez? Se vocês fossem se demorar em angústia e pavor, certamente, vocês também estariam raciocinando mal! Se a paz deve ser recebida, recebam-na de uma vez! Por que permanecer na escuridão da cova, aonde seus pés afundam no barro sujo? Vocês não sabem o quão perto está a salvação! Se soubessem, certamente esticariam a mão e a pegariam, pois ali está e está lá para ser recebida.

Não pensem que sentimentos de desespero os fariam adequados à misericórdia. Vocês pensam que, quando o peregrino, em sua jornada para a Porta Estreita, caiu no Pântano do Desânimo[1] e a lama suja daquele pântano ficou presa em suas roupas, era para ele uma recomendação para receber mais facilmente admissão na entrada do caminho? Não. O peregrino não pensava ser assim; nem vocês devem pensar. Não é o que vocês sentem que irá salvá-los, mas o que Jesus sentiu. Ainda que houvesse algum valor curativo nos sentimentos, eles teriam de ser bons e os sentimentos que nos fazem duvidar do poder de Cristo para salvar e previnem nossa salvação nEle, de forma alguma são bons, mas são uma cruel injúria ao amor de Jesus.

Nosso amigo veio ver-nos e viajou por toda nossa abarrotada Londres de trem, de bonde e de ônibus. De repente, ele fica pálido. Perguntamos a ele: “Qual é o problema?” E ele responde: “Eu perdi minha carteira que continha todo o dinheiro que eu tinha no mundo”. Ele começa a falar do valor de cada moeda e descreve cheques, contas, notas e moedas. Dizemos que é um grande consolo para ele saber de maneira tão segura o tamanho de sua perda. Ele não parece dar valor à nossa consolação. Garantimos que ele deve ser grato por ter um senso tão profundo de sua perda, pois muitas pessoas devem ter perdido suas carteiras e foram incapazes de calcular a perda. Nosso amigo não parece, entretanto, estar nem um pouco animado. “Não”, diz ele, “saber minha perda não me ajuda a recuperá-la. Diga-me onde achar o que é meu e você me terá dado ajuda real, mas meramente saber minha perda não me dá nenhum conforto”. Da mesma forma, crer que você pecou e que sua alma deve ser executada para a justiça de Deus, é algo bem apropriado e que, no entanto, não o salvará. A salvação não vem pelo conhecimento de nossa própria ruína, mas por agarrar totalmente o livramento providenciado em Cristo Jesus. Uma pessoa que se recusa a olhar para o Senhor Jesus e insiste em se afogar em seu pecado e ruína, lembra um garoto que deixou cair uma moeda por uma grade aberta de um esgoto de Londres e permaneceu lá por horas, achando conforto em dizer: “Ela rolou para lá! Exatamente entre aquelas duas barras de ferro e eu a vi cair”. Pobre alma! Por muito tempo há de se lembrar dos detalhes de sua perda antes que consiga de volta qualquer valor com o qual possa comprar um pedaço de pão. Você vê o significado da parábola, lucre com ela.

Diante 1


[1] Citação da obra “O Peregrino” de John Bunyan

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“Diante da Porta Estreita” é uma tradução do site Projeto Spurgeon – Proclamando a Cristo Crucificado. Proibida a reprodução desse material sem citar o Projeto e proibida a venda em material impresso. Permitida a divulgação na net.

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