Um Desejo de Ano Novo

 Um desejo de Ano Novo - CapaNº 3231

Sermão pregado por

Charles Haddon Spurgeon

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres

E publicado em 5 de janeiro de 1911

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“Meu Deus suprirá todas as vossas necessidades segundo as Suas riquezas na glória em Cristo Jesus.” (Filipenses 4:19)

 

Os filipenses tinham enviado ofertas a Paulo em diversas ocasiões para remediar suas necessidades. Embora eles não fossem ricos, fizeram uma contribuição e a enviaram com Epafrodito, “odor perfumado, sacrifício aceito, agradável a Deus.” Paulo se sentiu muito agradecido: deu graças a Deus, mas sem esquecer-se de agradecer também aos doadores; desejava-lhes toda bênção, e foi como se lhes dissesse: “vocês supriram minhas necessidades, e meu Deus suprirá as suas. Vocês supriram de sua pobreza minha necessidade temporal de alimento e vestimenta; meu Deus suprirá tudo o que lhes falte conforme as Suas riquezas em glória.” “Mas”— disse, no versículo dezoito —“tudo recebi e tenho abundância; estou pleno,” “portanto”— acrescenta — “meu Deus suprirá tudo o que lhes falta.” Vocês me enviaram sua dádiva pelas mãos de um amado irmão, mas Deus lhes enviará um mensageiro melhor, pois Ele suprirá o que lhes falta ‘por meio de Cristo Jesus’. Cada uma dessas palavras ressoa como se Paulo as tivesse ponderado, e o Espírito de Deus o tivesse guiado em sua meditação para desejar aos filipenses uma bênção similar em seu mais pleno alcance, em troca do que lhe haviam enviado, mas se tratava de uma bênção de natureza mais rica e duradoura.

Agora, um pouco no espírito de Paulo, eu desejaria neste dia de Ano Novo, abençoar a todos aqueles que têm suprido, conforme a sua capacidade, as necessidades da obra de Deus que está em minhas mãos, e que têm dado para a causa de Deus, mesmo em sua pobreza, conforme se apresentou a necessidade. Eu me considero devedor de vocês pessoalmente, ainda que suas ofertas sejam para os estudantes, para os órfãos e para os colportores e não para mim mesmo. Em retorno à sua generosidade, à maneira de Seu amor misericordioso, “Meu Deus suprirá tudo o que lhes falta conforme as Suas riquezas em glória em Cristo Jesus.

Este versículo é particularmente grato para mim, pois, quando estávamos construindo o asilo para órfãos, eu previ que, se não tivéssemos votos de apoio e não cobrássemos as assinaturas anuais, embora contássemos, pela bondade de Deus, com as ofertas voluntárias de Seu povo, enfrentaríamos tempos de dura prova, e, portanto, ordenei aos pedreiros que colocassem sobre as primeiras colunas da entrada do orfanato estas palavras, “Meu Deus suprirá tudo o que lhes falta conforme as Suas riquezas na glória em Cristo Jesus.” Então, este texto se encontra gravado em pedra tanto à direita como à esquerda do arco da entrada. Ali permanece esta declaração de nossa confiança em Deus, e enquanto Deus viva, não necessitaremos removê-la nunca, pois Ele certamente suprirá as necessidades de Sua própria obra. Enquanto O sirvamos, Ele proverá nossas mesas.

 

I. O texto poderia sugerir-nos (se quiséssemos dar gosto a nossa veia melancólica) espaço para um pensamento sombrio, pois fala de “tudo o que lhes falta.” Então, em primeiro lugar, contemplem UMA GRANDE NECESSIDADE: “tudo o que lhes falta.” Que fosso! Que abismo! “Tudo o que lhes falta.” Eu não sei quantos crentes constituíam a igreja de Filipos, mas se a necessidade de um só santo já è suficientemente grande, quanto será que necessitam muitos santos? Não seria possível estabelecer o número dos filhos de Deus sobre a terra, mas o texto abarca a necessidade da família eleita completa, “tudo o que lhes falta.” Não vamos lhes pedir que calculem o desembolso requerido por parte da tesouraria divina para cobrir todas as necessidades de todos os santos que se encontram na terra: mas, por favor, pensem em sua própria necessidade; isso estará mais dentro do alcance de sua experiência e da espessura de sua meditação. Que o Senhor supra sua necessidade e todas as suas necessidades!

Está por um lado nossa necessidade temporal, e esse não é um assunto insignificante. Se temos alimento e roupas, deveríamos estar contentes com isso; mas existem muitas pessoas do povo de Deus para quem a simples obtenção de alimento e roupas é uma façanha desgastante. Muitos dos santos de Deus se veem muito pressionados pelas preocupações domésticas, as provas familiares, as enfermidades do corpo, as perdas nos negócios e algumas vezes pela impossibilidade de obter um trabalho adequado, tal como se encontrava Elias quando se sentou junto ao arroio de Querite. Se Deus não lhe enviara pão e comida de maneira prodigiosa, certamente morreriam de fome; mas seu pão lhe será dado e sua água está garantida. “Meu Deus, pois, suprirá tudo o que lhes falta.” Talvez tenham uma numerosa família e suas necessidades se vejam, portanto, grandemente aumentadas, mas a declaração do texto inclui a totalidade de suas necessidades pessoais e familiares.

Afinal, nossas necessidades temporais são muito pequenas comparadas com nossas necessidades espirituais. Com a bênção de Deus, um homem pode logo remediar o que o corpo necessita, mas quem proverá o necessário às exigências da alma? Temos necessidade de perdão perpétuo, pois sempre estamos pecando, e o sangue de Jesus Cristo está intercedendo sempre por nós e nos purificando do pecado. Cada dia há a necessidade de renovada força para combater contra o pecado interior; e, bendito seja Deus porque essa força é fornecida diariamente, de tal maneira que nossa juventude é renovada como a da águia. Como bons soldados de Jesus Cristo, necessitamos uma armadura da cabeça aos pés, e mesmo armados dessa maneira, não sabemos como usar a armadura ou como brandir a espada, a menos que Quem nos deu esses sagrados instrumentos esteja sempre conosco. Santo combatente, Deus suprirá todas as suas necessidades por Sua presença e Seu Espírito.

Não somos meramente guerreiros, como também somos obreiros. Somos chamados, muitos de nós, a importantes esferas de trabalho, (e, em verdade, ninguém deve pensar que sua esfera é irrelevante), mas, nisto também, nossas mãos bastarão para cumprir nosso trabalho de toda uma vida, com a provisão de Deus. Você precisa receber ajuda para poder fazer o que é certo, no momento devido, com um espírito reto e da maneira correta. Sua necessidade, como mestre da escola dominical, como pregador ao ar livre e especialmente como um ministro do Evangelho será muito grande, mas o texto satisfaz todas as suas necessidades, “Meu Deus, pois, suprirá tudo o que lhes falta.”

Depois vem nossa necessidade no sofrimento, pois muitos de nós somos chamados a tomar nosso turno na casa de prisão do Senhor. Ali necessitamos de paciência ante a dor e de esperança ante a depressão de espírito. Quem é suficiente para a obra de fundição? Nosso Deus suprirá para nós essas graças e consolações escolhidas que nos fortalecerão para glorificar Seu nome, mesmo em meio às chamas. Ele fará com que a carga seja leve ou que as costas se tornem mais robustas. Ele diminuirá a necessidade ou aumentará a provisão.

Amados, é impossível mencionar todas as formas de nossa necessidade espiritual. Precisamos ser convertidos diariamente de algum pecado ou de outro, que, talvez, a duras penas temos reconhecido como pecado. Precisamos ser instruídos nas coisas de Deus, precisamos ser iluminados quanto à mente de Cristo, precisamos ser consolados pelas promessas, precisamos ser avivados pelos preceitos, precisamos ser fortalecidos pelas doutrinas. Necessitamos, oh, do que não necessitamos? Somos simplesmente um saco de carências e uma pilha de debilidades. Se qualquer de nós mantiver um registro de carências, como fazem os comerciantes, quão grande será esse registro; poderia ser escrito por dentro e por fora e ser preenchido de um extremo ao outro, pois estamos repletos de carências desde o 1º de janeiro até o final de dezembro; mas aqui está a misericórdia, “meu Deus, pois, suprirá tudo o que lhes falta.”

Vocês são exaltados em altos postos? Têm muitas comodidades? Gozam de riquezas? Então, quanta necessidade vocês têm de serem guardados de amar o mundo, de serem preservados do desenfreio, da altivez e das tolices e costumes deste perverso mundo atual. Vocês são muito pobres? Então a tentação é a inveja, a amargura de espírito, a rebelião contra Deus. “Meu Deus, pois, suprirá tudo o que lhes falta.”

Está só no mundo? Então precisa que o Senhor Jesus seja seu Companheiro; e seu Companheiro será. Está rodeado por muitas pessoas? Então você necessita de graça para lhes dar um bom exemplo, para educar seus filhos e administrar seu lar no temor de Deus. “Meu Deus, pois, suprirá tudo o que lhes falta.

Vocês necessitam, em tempos de regozijo, serem conservados sóbrios e firmes; em tempos de aflição, têm necessidade de serem fortes e portarem-se como homens; têm necessidades na vida e terão necessidades ao morrer, mas sua última necessidade será remediada tão certamente como sua primeira carência. “Meu Deus, pois, suprirá tudo o que lhes falta.”

Vão, então, irmãos, e contemplem de alto a baixo este gigantesco fosso de necessidades e digam exultantes: “Oh Senhor, te damos graças ao Senhor porque nossas necessidades são grandes, pois há mais espaço para que Teu amor, Tua ternura, Teu poder, Tua fidelidade preencham esse vazio.”

Esse primeiro pensamento, que mencionei que poderia ser um pensamento sombrio, vê toda sua melancolia suprimida dele por outros quatro pensamentos igualmente certos, mas cada um deles cheios de grande alento. O texto não só menciona uma grande necessidade, mas menciona também um grande Ajudador: “Meu Deus”; em seguida, uma grande provisão: “Meu Deus, pois, suprirá tudo o que lhes falta”; em terceiro lugar, uma abundante reserva de da qual se extrai o dom: “conforme as suas riquezas em glória”; e, por último, um glorioso canal através do qual chegará a provisão: “por Cristo Jesus.”

 

II. Então, para nossas enormes necessidades, o texto nos mostra UM GRANDE AJUDADOR: “Meu Deus, pois, suprirá tudo o que lhes falta.” De quem é esse Deus? Pois bem, é o Deus de Paulo. Esse é um dos assuntos no qual os maiores santos não estão melhores que os santos menores, pois embora Paulo tenha chamado ao Senhor “Meu Deus,” Ele é também meu Deus. Meu velho e querido amigo que se senta por ali, e não possui nada no mundo senão uns poucos centavos, pode dizer também: “e Ele é também meu Deus. Ele é meu Deus, e seria igualmente meu Deus se eu fosse o mais insignificante, o mais obscuro e o mais débil de Seu povo, como seria meu Deus se eu fosse capaz, como Paulo, de evangelizar às nações.”

Para mim é um deleite pensar que meu Deus é o Deus de Paulo, porque Paulo tinha este propósito; queria dizer: “Vejam, queridos irmãos, meu Deus tem suprido todas as minhas necessidades; e, já que Ele é o seu Deus, Ele suprirá também as suas necessidades.” Eu visitei o calabouço de Roma no qual se diz que Paulo esteve confinado, e é, na verdade, uma prisão muito inóspita. Antes de tudo, descendo há uma sala abobadada na qual não penetra nenhuma luz exceto através de um buraco redondo localizado no teto; e, logo, na metade do piso dessa caverna, tem outro orifício, através do qual o prisioneiro era conduzido a um segundo calabouço inferior, ao que não chegava ar fresco nem luz. Paulo foi provavelmente confinado ali. O calabouço do Pretório em que foi certamente encarcerado, não é muito melhor. Paulo teria sido deixado para perecer de fome a não ser por essas boas pessoas de Filipos. Não me surpreenderia que Lídia estivesse envolvida até o fundo deste tipo de movimento, ou, por outra parte, pode ter sido o próprio carcereiro. Eles diziam a si mesmos: “não devemos permitir que o bom apóstolo morra de fome”; assim fizeram uma coleta enviando-lhe o que necessitava; e quando Paulo a recebeu, disse: “Meu Deus tem cuidado de mim. Não posso fabricar tendas aqui, neste lugar obscuro, para ganhar meu sustento, mas meu Senhor supre minha necessidade; e de igual maneira, quando estiverem em aperto, Ele lhes dará a provisão.”

Meu Deus.” Com frequência, quando penso nos meus orfãozinhos e vejo que não tem entrado dinheiro, tem sido grato para recordar a Deus do senhor Müller e como supre sempre para os meninos de Bristol. Seu Deus é meu Deus e eu descanso Nele. Quando passam as páginas da Escritura e leem acerca de homens que se encontravam em graves problemas, mas que receberam ajuda, podem dizer: “Aqui temos Abraão, que foi abençoado em todas as coisas, e o Deus de Abraão suprirá toda minha necessidade, pois Ele é meu Deus. Leio acerca de Elias e como os corvos o alimentaram; eu tenho ao Deus de Elias, e Ele pode mandar os corvos que me alimentem, se assim Lhe agradar.”

Parece que algumas pessoas pensam que Deus não obrará agora como costumava fazer antes. “Oh, se tivéssemos vivido naqueles tempos milagrosos”— dizem —“então, poderíamos confiar Nele! Naquela época então havia uma evidência manifesta da existência de Deus, pois punha de lado as leis da natureza e trabalhava para o cumprimento de Suas promessas a Seu povo.” Sem dúvida, esse era um modo de obrar mais elementar que o modo presente, pois agora o Senhor produz os mesmos resultados sem a violação das leis de natureza. É um grande feito que, sem a alteração de uma única lei da natureza, a oração se torne eficaz com Deus; e quando Seu povo lhe pede que o faça por eles, com efeito, cumpre Sua promessa, e supre suas necessidades. Usando meios de diversos tipos, Ele todavia proporciona a Seu povo todas as coisas necessárias para esta vida e para a piedade. Sem um milagre, Ele faz grandes maravilhas de amoroso cuidado, e o continuará fazendo.

Amados, o Deus de Paulo é o Deus de vocês? Consideram-No como tal? Nem todos adoram o Deus de Paulo. Nem todo cristão professante conhece realmente ao Senhor, pois alguns inventam uma divindade segundo imaginam que deva ser Deus. O Deus de Paulo é o Deus do Antigo e do Novo Testamento, é o Deus que se encontra ali. Confiam nesse Deus? Podem apoiar-se Nele? “Há juízos tão severos mencionados na Escritura.” Sim, e vocês contendem com eles? Então, o descartam; mas se, ao invés, sentem isto: “eu não posso entendê-Lo, oh meu Deus, e não penso que possa fazê-lo jamais, mas não cabe a mim, uma criança, medir o infinito Deus, ou denunciá-Lo em meu tribunal e dizer: ‘devia ter feito isso e não devia ter feito aquilo.’ Você diz: ‘Eu sou assim,’ e eu respondo: ‘eu o amo tal como é, e me apoio no Senhor, que é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, e o Deus de Seu servo Paulo. És meu Deus e eu vou descansar em Ti.’” Muito bem, então, Ele “suprirá tudo o que lhes falta conforme Suas riquezas em glória em Cristo Jesus.” Só pensem nisto por um minuto.

Se Ele lhe supre, em verdade serão supridos, pois a capacidade de Deus é infinita. Ele é infinitamente sábio quanto à maneira de Suas ações e infinitamente poderoso quanto às ações mesmas. Ele nunca dorme nem se cansa; nunca está ausente de algum lugar, mas sempre pronto para ajudar. Suas necessidades se apresentam, talvez, nos momentos mais inesperados; podem ocorrer à meia-noite do desalento ou ao meio-dia da felicidade, mas Deus está sempre perto para suprir a necessidade que chega de surpresa. Ele está presente em todas as partes, é onipotente em todas as partes e Ele pode suprir tudo o que lhes falte, em qualquer lugar, em todo o tempo e supremamente —

 

“Recordem que a Onipotência

Tem servos por toda parte.”

Recordem que, sempre que Deus deseja enviar-lhes ajuda, pode fazê-lo sem se deter a perguntar: “como se fará?” Basta que queira fazê-lo e todos os poderes do céu e da terra ficam subordinados a suas necessidades. Com tal Ajudador, que motivo têm vocês para duvidar?

 

III. O ponto seguinte no texto é UMA GRANDE PROVISÃO. “Meu Deus, pois, suprirá tudo o que lhes falta.” Algumas vezes, perdemos uma boa parte do significado da Escritura devido à tradução; de fato, ninguém ganha pela tradução, exceto um bispo[1]. A presente passagem poderia ser traduzida assim: “Meu Deus preenchera até as bordas toda sua carência.” A ilustração que explicará melhor o significado é a de uma mulher cujos filhos iam ser vendidos para seu credor para pagar as dívidas de seu finado marido. Ela não tinha nada que pudesse chamar de seu, exceto umas vasilhas vazias para azeite, e o profeta lhe ordenou que as colocasse em ordem e que trouxesse o pouco azeite que ficara no recipiente. Ela assim o fez, e ele lhe disse logo: “Vai e pede para ti vasilhas emprestadas de todos teus vizinhos, vasilhas vazias, não poucas.” Ela foi a um vizinho e a outro até que encheu completamente seu aposento dessas vasilhas vazias, e logo o profeta Elias lhe disse: “Encha todas as vasilhas.” Ela começou a encher com sua vasilha de azeite quase vazia a todos os outros recipientes, e, para sua surpresa, encheu até os recipientes maiores. Então, foi a outra vasilha e a encheu, e depois outra e outra. Assim esteve enchendo todas as vasilhas de azeite, até que por fim disse ao profeta: “Não há mais vasilhas.” Então, o azeite cessou.

O mesmo acontecerá com o que lhes faça falta. Vocês estavam atemorizados por ter muitas carências agora mesmo, não é verdade? Mas agora tenham a bondade de pensar que as têm, pois só se trata de várias vasilhas vazias que hão de ser preenchidas. Se a mulher somente tivesse pedido emprestadas umas poucas vasilhas, não poderia receber muito azeite; mas quanto mais vasilhas vazias tivesse mais azeite obteria.

Então, quanto mais carências e mais necessidades tenham, se as levam a Deus, será muito melhor, porque Ele as preencherá até a borda e podem estar agradecidos de que haja tanto espaço que encher. Quando não tiver mais carências, (mas, oh, quando será isso?) então o fornecimento cessará, mas não antes disso.

Quão gloriosamente Deus dá a Seu povo! Antes necessitávamos perdão: Ele nos lavou e nos fez mais brancos que a neve. Necessitávamos roupas, pois estávamos nus. Que Ele fez? Deu-nos alguma tosca vestimenta de um tipo ou outro? Oh, não! Mas disse: “Pega a melhor vestimenta e veste-o.” Foi algo afortunado que o filho pródigo tivesse sua vestimenta em farrapos, pois então necessitou de roupa e foi levada a melhor vestimenta para ele. É algo grandioso estar consciente das necessidades espirituais, pois todas serão remediadas. Uma necessidade consciente aos olhos de Deus, que coisa é senão uma solicitação prevalecente para uma nova misericórdia? Algumas vezes temos pedido que nos console, pois estavamos muito abatidos; mas quando o Senhor nos consola, nos preenche de deleite de tal maneira que ficamos inclinados a clamar com o antigo teólogo escocês: “Espera, Senhor, espera! É suficiente. Não posso suportar mais felicidade. Lembra que sou somente um vaso de barro.” Nós, ao aliviar os pobres, geralmente não damos mais do que podemos, mas nosso Deus não se detém para contar Seus favores, mas dá como rei. Derrama água sobre o que está sedento e correntes de águas sobre a terra seca.

 

IV. Devemos continuar com o seguinte pensamento e considerar por um minuto ou dois AS GRANDES FONTES das quais há de manar este suprimento: “Meu Deus, pois, suprirá tudo o que lhes falta conforme as Suas riquezas em glória.” O pregador pode sentar-se agora, pois não pode conceber esta parte do texto. As riquezas de Deus em glória estão mais além de todo o pensamento.

Considerem as riquezas de Deus na natureza; quem poderia contar seus tesouros? Visitem os bosques; viajem légua após légua em meio às árvores que projetam sua ampla sombra, não para o prazer de algum homem, mas unicamente para Deus. Contemplem na ladeira da montanha solitária e na extensa planície a infinidade de flores cujo perfume é unicamente para Deus. Quanta riqueza é criada a cada primavera e cada verão nas ilimitadas propriedades do grandioso Rei! Observem a imensa quantidade de vida animal e de insetos que abarrotam a terra com as riquezas da sabedoria divina, porque “do Senhor é a terra e sua plenitude.” Olhem na direção do mar; pensem nesses cardumes de peixes, tão incontáveis que, quando somente a periferia deles é tocada por nossos pescadores, encontram alimento suficiente para suprir uma nação.

Observem, também, os tesouros afundados do oceano, que nenhuma mão recolhe, senão a do Eterno. Se quiserem ver a riqueza do Criador, voltem seus olhares às estrelas; adivinhem seu número, se puderem. A astronomia tem ampliado nossa visão e nos tem conduzido a ver este mundo como uma mera partícula, comparado com outros mundos inumeráveis que Deus fez; e nos tem dito que, provavelmente, toda a infinidade de mundos que podemos ver com o telescópio é uma mera fração dos incontáveis astros que povoam o espaço infinito. Vastas são as riquezas de Deus na natureza. Exige-se um Milton[2] para cantar, como cantou em O Paraíso Perdido, as riquezas do Deus criador.

 

As riquezas de Deus na providência são igualmente ilimitadas. Ele diz à essa criatura: “Vá,” e vai, e a outra: “faz isto,” e o faz, pois todas as coisas cumprem Seu mandato. Pensem na riqueza de Deus na graça. Ali a natureza e a providência permanecem eclipsadas, pois temos a fonte de amor eterno, o dom de um sacrifício infinito, o derramamento do sangue de Seu próprio amado Filho, e o pacto de graça Nele que a menor bênção é infinita em valor. As riquezas de Sua graça! “Deus é rico em misericórdia,” rico em paciência, amor, poder, bondade, rico além de toda concepção.

Agora suas carências serão supridas conforme as riquezas da natureza, as riquezas da providência e as riquezas da graça; mas isto não é tudo; o apóstolo escolhe um estilo mais excelso, e escreve “conforme as Suas riquezas em glória.” Ah, nunca vimos Deus em glória! Esse seria um espetáculo que nossos olhos não poderiam contemplar no presente. Cristo em Sua glória, quando foi transfigurado na terra, era um espetáculo demasiado resplandecente para ser contemplado mesmo pelos olhos instruídos de Pedro, Thiago e João —

“A luz demasiadamente arrebatadora,”

 

A escuridão desabou sobre eles, eram como homens que dormiam. Sabem vocês, anjos, o que é Deus em Sua glória? Acaso não veem a Sua face mesmo para vocês, para que, no excessivo resplendor de Sua essência, não sejam consumidos mesmo vocês? Quem entre todas as Suas criaturas pode determinar as riquezas de Sua glória, quando nem mesmo os céus são limpos diante de Seus olhos, e nota insensatez em Seus anjos?

Suas riquezas em glória.” Quer dizer, não somente as riquezas do que tem feito, mas as riquezas do que poderia fazer; pois se Ele fez exércitos de mundos, poderia fazer miríades de tantos mundos mais, e não haverá senão começado. Quem poderia calcular as possibilidades do Deus onipotente? Mas o Senhor suprirá tudo o que lhes faz falta de conforme a tais gloriosas possibilidades.

Quando um grande rei dá de acordo com suas riquezas, então não poupa sua dádiva de esmolas aos mendigos, mas dá como um rei, segundo o dito; e se trata de um grandioso dia festivo e o rei veste suas roupas reais, sua generosidade se encontra em uma nobre escala. Agora, quando Deus está em Sua glória, pensem, se puderem, qual haverá de ser a generosidade com que distribui, quais os tesouros que toma para Seus próprios seres amados! Agora, “conforme as suas riquezas em glória,” Ele suprirá todas as suas necessidades. Depois disso, atrevem-se a deprimir-se? Oh alma, que loucura é a incredulidade! Quão flagrante blasfêmia é duvidar do amor de Deus! Ele há de abençoar-nos; e, se somos abençoados por Ele, somos em verdade abençoados. Se Ele supre nossas carências “conforme as suas riquezas em glória,” serão supridas em plenitude.

 

V. Agora concluamos nossa meditação considerando O GLORIOSO CANAL por meio do qual estas necessidades haverão de ser supridas: “Conforme as suas riquezas em glória em Cristo Jesus”.

Você verá todas as carências de sua alma satisfeitas, mas deve vir a Cristo para tudo. “Em Cristo Jesus.” Esse é o manancial do qual brotam as águas vivas. Você não há de ver supridas suas carências por seu próprio cuidado e vontade. “Considerai os lírios do campo, como crescem.” Você há de ser enriquecido “em Cristo Jesus”. Não há de ver supridas suas necessidades indo a Moisés, obrando e trabalhando duramente como se fosse seu próprio salvador, mas mediante a fé em Cristo Jesus. Aqueles que não querem vir a Cristo hão de passar sem a graça, pois Deus não dá nada aos homens por via da graça exceto através de Seu Filho. Aqueles que mais vierem a Jesus desfrutarão com maior frequência de Sua abundância, pois todas as bênçãos chegam através de Ele.

Meu conselho, para mim mesmo e para vocês, é que permaneçamos Nele; pois, devido a que esse é o caminho pelo qual nos chega a bênção, é melhor que permaneçamos Nele. Lemos acerca de Ismael que foi enviado ao deserto com um odre de água, mas Isaac habitou junto ao poço do Deus-vivo-que-me-vê, e é sábio que habitemos junto ao poço de Cristo Jesus e não confiemos nunca nos odres de nossa própria força. Irmão, se você se aparta de Cristo Jesus, se separa do centro da bem-aventurança.

Eu rogo para que vocês possam habitar junto ao poço deste texto durante todo este ano. Retirem do poço. Têm muita sede? Tirem água do poço, pois ele transborda; e quando argumentem esta promessa, o Senhor suprirá tudo o que lhes faça falta. Não cessem de receber de Deus nem um só minuto. Que sua incredulidade não atrapalhe a generosidade do Senhor, mas se agarre bem à Sua promessa, “Meu Deus suprirá tudo o que lhes falta conforme as Suas riquezas em glória em Cristo Jesus.” Não sei como desejar-lhes uma maior bênção. Se vocês são habilitados pelo Espírito Santo para levar isto a cabo, gozarão do que sinceramente desejo para vocês, a saber

UN FELIZ ANO NOVO.

ORE PARA QUE O ESPÍRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA TRAZER UM CONHECIMENTO SALFÍVICO DE JESUS CRISTO E PARA EDIFICAÇÃO DA IGREJA.

FONTE:

Traduzido de http://www.spurgeon.com.mx/sermon3231.pdf

Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público e com autorização de Allan Roman.

Sermão nº 3231 — Volume 57 do The Metropolitan Tabernacle Pulpit,

 

Tradução: Cibele Cardozo

Revisão: Armando Marcos

Capa: Victor Silva

 

 

Projeto Spurgeon – Proclamando a Cristo crucificado.

Projeto de tradução de sermões, devocionais e livros do pregador batista reformado Charles Haddon Spurgeon (1834-1892) para glória de Deus em Cristo Jesus, pelo poder do Espírito Santo, para edificação da Igreja e salvação e conversão de incrédulos de seus pecados.

Acesse em: www.projetospurgeon.com.br

 

Você tem permissão de livre uso desse material, e é incentivado a distribuí-lo, desde que sem alteração do conteúdo, em parte ou em todo, em qualquer formato: em blogs e sites, ou distribuidores, pede-se somente que cite o site “Projeto Spurgeon” como fonte, bem como o link do site www.projetospurgeon.com.br. Caso você tenha encontrado esse arquivo em sites de downloads de livros, não se preocupe se é legal ou ilegal, nosso material é para livre uso para divulgação de Cristo e do Evangelho, por qualquer meio adquirido, exceto por venda. É vedada a venda desse material

 


[1] O texto original diz: ‘Sometimes, we lose a good deal of the meaning of Scripture through the translation; in fact, nothing ever does gain by translation except a bishop.’ Spurgeon faz aqui um jogo de palavras com a palavra ‘translation’ que significa: tradução, trasladar de um idioma a outro, e tradução no sentido de trasladar (transferir) um bispo de uma sede ou diocese a outra, um processo que tanto na Igreja da Inglaterra como na Igreja Católica significava uma promoção para o bispo (Nota do tradutor ao espanhol)

[2] John Milton (9 de dezembro de 1608 – 8 de novembro de 1674) foi um escritor inglês, um dos principais representantes do classicismo de seu país, e autor do célebre livro O Paraíso Perdido, um dos mais importantes poemas épicos da literatura universal (Wikipédia)

2 ideias sobre “Um Desejo de Ano Novo

  1. Queridos, acabei de ler o Sermão…que benção,que maravilha!!!
    estava realmente precisando da graça de Deus, que vem através de seu filho Jesus, Aleluia !!!!!
    rmoors

  2. Amados Irmãos em Cristo Jesus a paz queridos, muito me edificou este conteúdo riquissimo da graça de Deus, chegou na hora certa estava precisando ouvir essas palavras santas e muito fui edificado nelas. Shalon.

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