Arquivos Mensais:abril 2012
O SENHOR é Rei eterno (Leituras Noturnas)
Paciência (Sabedoria Bíblica)
Capítulo 5: Paciência
A paciência é melhor do que a sabedoria; trinta gramas de paciência valem mais que meio quilo de massa cerebral. Todos os homens louvam a paciência, mas poucos a louvam o suficiente para praticá-la. É um remédio bom para todas as doenças, como afirma toda senhora de idade, mas as ervas que produzem esse remédio não crescem em todos os jardins. Quando alguém, de carne e osso como nós, fica cheio de dores, é muito natural que murmure, como é natural um cavalo abanar a cabeça quando as moscas o incomodam, ou uma roda ranger quando perde um aro. Mas a natureza não deveria ser a regra para os cristãos ou, então, para que serve sua religião? Se um soldado não lutar melhor que um lavrador, tire seu casaco vermelho. Esperamos mais fruta de uma macieira que de um espinheiro e temos o direito de pensar assim. Os discípulos de um Salvador paciente também devem ser pacientes. O velho ditado aconselha: “Sorria e agüente”, mas cantar e carregar é muito melhor. Afinal, temos poucas marcas de chicote, considerando a péssima qualidade de gado que somos; e sempre achamos que nosso sofrimento vem cedo demais. A dor passada é prazer, além de trazer experiência. Nós não deveríamos ter medo de ir ao Egito quando sabemos que podemos voltar de lá com jóias, prata e ouro.
Pessoas impacientes lavam suas misérias e sulcam seu bem-estar; as tristezas são visitantes que chegam sem ser convidados, mas as mentes queixosas causam um vagão de problemas em sua casa. Muitas pessoas nascem chorando, vivem se queixando e morrem frustradas; elas mastigam a pílula amarga sem sequer saber não seria tão amarga se tivessem inteligência para engoli-la inteira, com um copo de paciência e água. Pensam que a carga dos outros homens é leve, e a delas pesa como chumbo. Dificilmente elas se cansam da própria opinião. Os dedos dos pés de ninguém são pisados pelo touro negro com tanta freqüência como os delas; a neve que cai em volta de sua porta é mais espessa, e o granizo faz um barulho mais forte em suas janelas. Contudo, se a verdade fosse conhecida, ficaria claro que é a fantasia delas, e não a má sorte, que faz parecer que as coisas vão mal, a ladainha poderia ser posta de lado se não pensassem apenas nisso. Se pomos um raminho da erva chamada contentamento em uma sopa bem rala ela terá um sabor tão bom como a torta do prefeito. João Lavrador cultiva a erva em seu jardim, mas o último inverno muito rigoroso danificou-a terrivelmente, e ele não conseguiu uma mudinha para dar aos seus vizinhos; eles deviam seguir Mateus 25.9 e procurar os que vendem e compram. A graça é um solo bom para o cultivo, mas precisa ser regada com a água da fonte da misericórdia. Ser pobre nem sempre é agradável, mas coisas piores que isso acontecem no mar. Sapatos pequenos são ótimos para apertar, mas não se o pé for pequeno; se temos poucos recursos, é ótimo que tenhamos desejos modestos. A pobreza não é vergonha, mas ficar descontente com ela é. Em algumas coisas, os pobres são melhores que os ricos, se um homem pobre tiver fome ele procura um alimento para matar a fome, já o rico que tem demais come além do que precisa para se alimentar. A mesa do pobre logo fica arrumada, e seu trabalho poupa-o de comprar molho. Os melhores médicos são o dr. Dieta, o dr. Sossego e o dr. Feliz, e muitos lavradores religiosos têm todos esses senhores para cuidar deles. A fartura causa gulodice, mas a fome não vê imperfeição no cozinheiro. O trabalho pesado proporciona saúde, e trinta gramas de saúde valem mais do que um saco de diamantes. Há mais doçura em uma colher cheia de açúcar que em um litro de vinagre. Não é a quantidade de nossos alimentos, mas a graça de Deus no que temos que nos faz verdadeiramente ricos. Os restos de uma maçã comum são melhores que uma maçã silvestre inteira; um jantar de verduras em paz é melhor que um com a carne de um boi confinado acompanhada de discussão, ter pouco com temor a Deus é melhor do que ter um grande tesouro acompanhado de problemas. Uma pequena quantidade de lenha aquece meu pequeno forno; por que, então, devo me lastimar se toda a lenha não for minha?
Quando as dificuldades aparecem, não adianta insultar Deus com pensamentos injustos sobre a providência; isso é o mesmo que dar murro em ponta de faca e se machucar. As árvores se curvam com o vento, e nós também devemos nos curvar. Cada vez que a ovelha bali, perde um bocado, e cada vez que nos queixamos, perdemos uma benção. Queixar-se é um mau negócio e não traz lucro, mas a paciência tem mãos de ouro, nossos males logo terminarão. Depois da chuva surge um brilho claro; corvos negros têm asas; cada inverno se transforma em primavera; cada noite rompe em manhã.
O vento não sopra sempre tão forte
No fim, ele se aquieta.
Quando uma porta se fecha, Deus abre outra, se as ervilhas não crescem bem; os feijões crescem, se uma galinha abandona seus ovos, outra choca toda a ninhada. Há um lado luminoso em todas as coisas, e um Deus bom em todos os lugares. Em um lugar ou outro, no meio da pior onda de problemas sempre há terra firme onde pôr nosso contentamento, e se não houver temos de aprender a nadar.
Amigo, como diziam os antigos, ponha paciência e água no mingau de aveia antes de apanhar os miseráveis e transmitir aos outros a doença pecaminosa de encontrar imperfeições em Deus. O melhor remédio para a aflição é submeter-se à providência. O que não pode ser curado, deve ser suportado. Se não pudermos ter bacon, louvemos a Deus, pois ainda temos alguns repolhos na horta. “O dever” é uma noz dura de quebrar, mas tem uma semente doce. “Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam”.O que quer que caia do céu, mais cedo ou mais tarde, faz bem para a terra; o que quer venha de Deus tem valor, mesmo que seja um açoite. Por nossa natureza, não podemos gostar de dificuldades da mesma forma que um rato não cai de amores por um gato, contudo Paulo, pela graça, chegou à glória também em tribulações. Perdas e cruzes são pesadas de suportar, mas é maravilhoso como o fardo fica leve quando nosso coração está do lado direito de Deus. Temos de ir para a glória pelo caminho da Cruz das Lamentações; e como nunca nos foi prometido que iríamos para o céu em uma cama de plumas não podemos nos desapontar ao ver que a estrada é difícil, como nossos pais também acharam antes de nós. Tudo está bem quando termina bem, por isso, aremos o solo mais árido com os olhos na colheita e aprendamos a cantar durante nosso trabalho, enquanto os outros murmuram.
FONTE: Sheed Publicações
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A natureza boa e a firmeza (Sabedoria Bíblica)
Capítulo 4: A natureza boa e a firmeza
Não sejam totalmente doces, ou o mundo sugará vocês; mas também não sejam totalmente azedos, ou o mundo não respeitará vocês. Há um meio termo em todas as coisas, apenas os teimosos adotam os extremos. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Não precisamos bajular todo mundo como os cachorros tolos que abanam o rabo para todos, nem agredir todo mundo como mastins ferozes. Brancos e negros caminham juntos construindo o mundo. Por isso, do ponto de vista do temperamento, temos que nos relacionar com todos os tipos de pessoas. Algumas pessoas são tão dóceis como um sapato velho, mas dificilmente um pé vale mais que o outro; outras se inflamam mais depressa do que uma isca, diante da menor ofensa, e são tão perigosas como pólvora. Ter um companheiro para andar de lá para cá pela fazenda, hostil com todos como um urso que não sabe perder, de temperamento tão azedo como leite estragado, tão agressivo como o fio de uma navalha, com uma aparência tão mal humorada quanto à de um cão carniceiro é um grande aborrecimento, mesmo que tenha aspectos bons. Mas coitado do generoso Tommy, tão ingênuo, sempre pronto a se curvar como um bambu, não tem valor para ninguém e é alvo do desprezo de todos. Um homem deve ter caráter, senão como pode manter a cabeça erguida? Mas esse caráter deve se curvar, ou ele encontra muitas dificuldades. Existem momentos em que devemos fazer como os outros querem, mas também o de se recusar a fazer isso. Se nos fizermos de burros, todos montam em nós, mas se nos fazemos respeitar, somos donos de nós mesmos e não deixamos os outros colocarem sela em nós como acham que podem fazer. Se tentamos agradar a todos, somos como um sapo preso em uma grade e nunca temos paz, e se somos lacaios para todos nossos vizinhos, bons ou maus, não temos o agradecimento de nenhum deles, pois logo causamos tanto o mal quanto o bem. O que se faz de ovelha descobre que os lobos não estão todos mortos. O que fica deitado no chão pode ter certeza que será pisado. O que faz de si mesmo um rato come as iscas Se vocês permitem que seus vizinhos levem seu bezerro nas costas, eles o farão e logo abaterão sua vaca. Nós devemos agradar nossos vizinhos pelo seu bom aperfeiçoamento moral, mas, isso é um assunto completamente diferente. Há raposas velhas cujas bocas estão sempre salivando em busca de gansos jovens, e se elas conseguem persuadi-los a fazer exatamente o que querem, logo os põem à venda. Os amigos o considerarão um ótimo companheiro se fizer o papel do cavalo que faz trabalhos comunitários, logo o meterão em confusão!
Além da confusão, vocês terá de conseguir tudo sozinho, pois, seus amigos, com certeza, dirão a você: “Adeus cesto, já carreguei todas as minhas maçãs”, ou lhe desejarão os melhores votos e nada mais, e você descobre que palavras amáveis são apenas bajulação, não enchem a barriga de ninguém. Os que fazem muito caso de vocês não pretendem nem enganar nem precisar de vocês, quando sugam a laranja, jogam a casca fora. Por isso, sejam sábios e olhem antes de pular, a fim de que o conselho de um amigo não cause mais desordem que a difamação de um inimigo. “O inexperiente acredita em qualquer coisa, mas o homem prudente vê bem onde pisa”. Sigam com seu vizinho até onde o bom senso estiver com vocês, mas se separem a partir do momento em que o sapato da consciência começar a apertar seus pés. Comece com seu amigo do mesmo modo que pretende continuar e, desde o início, faça-o saber que você não é um homem feito de massa, mas alguém que tem opinião sobre si mesmo e pretende usá-la. Pare no momento em que descobrir que está fora da estrada e pegue imediatamente o atalho de volta mais próximo. A forma de evitar grandes erros é cuidar dos pequenos. Portanto, pare a tempo se não quiser que seu amigo o leve para o fosso. É melhor ofender seu conhecido que perder seu caráter e arriscar sua alma. Não se envergonhe de descer a pé a Turnagain Lane. Nunca se preocupe em ser chamado de vira-casaca quando se desviar de caminhos negativos; é melhor virar a tempo que queimar na eternidade. Não se deixe persuadir a arruinar a si mesmo – desprezar a si mesmo para agradar os companheiros é desperdiçar dinheiro com algo que não vale a pena. Olhe sempre onde pisa e não permita que ninguém o afaste do caminho certo. Aprenda a dizer “Não”, pois isso é mais útil para você que aprender latim.
Com freqüência, aquele que é amigo de todos não é amigo de ninguém, ou pior, em sua simplicidade, ele rouba a família para ajudar estranhos e se torna irmão de indigentes. Há sabedoria na generosidade, como em tudo mais, alguns precisam ir à escola para aprender isso. Uma pessoa bondosa pode ser muito cruel com os próprios filhos quando tira o pão da boca deles para dá-lo aos que o chamam de companheiro generoso, mas que riem da sua insensatez. Com muita freqüência, quem empresta dinheiro, perde tanto os amigos como o dinheiro. E o que é fiador nunca está seguro. Aproveite os conselhos de João Lavrador, e nunca seja fiador de mais do que você está realmente disposto a perder. Lembre-se a palavra de Deus diz: “Quem serve de fiador certamente sofrerá, mas quem se nega a fazê-lo está seguro”.
Quando somos ofendidos, como cristãos, somos compelidos a suportar isso sem maldade, mas não temos a pretensão de não sentir, pois isso não faria nada além de encorajar nossos inimigos a nos chutarem de novo. O que é enganado duas vezes pelo mesmo homem é quase tão mau quanto o trapaceiro; e é muito pior em outras ofensas. A não ser que reivindiquemos nossos direitos, nós mesmos nos culparemos se não os conseguirmos. Paulo estava disposto a suportar açoites pelo seu Mestre, mas, ele não se esqueceu de dizer aos juízes que era romano; e quando aqueles homens quiseram tirá-lo da prisão secretamente, ele disse: “Não! Venham eles mesmos e nos libertem”. O cristão é o mais nobre dos homens, mas mesmo assim é um homem. Para uma boa parte de pessoas não é preciso se dizer isso, pois se vê que há possibilidade de alguém prejudicá-la, cuida disso em instantes. Muito antes de saber se há um ladrão, no pátio da fazenda ou se foi a velha égua que se perdeu, já está a postos na janela a fim de despachar o desajeitado no mesmo instante. Esses vizinhos são perigosos; é mais fácil um homem escapar dos chifres de um touro que encontrar conforto em uma vizinhança assim.
Não faça amizade com um homem irado e não acompanhe um homem furioso. “O homem paciente dá prova de grande entendimento, mas o precipitado revela insensatez”.Você já viu um homem precipitado nas palavras? Há mais esperança em um tolo que nele.
No meu tempo conheci poucos homens totalmente obstinados que nem o sentimento nem a razão tiveram condição de mudar. Em nossa aldeia há um desses homens estranhos, ele tem um buldogue e disse-me que quando o animal morde alguma coisa de repente, ele não a larga mais, e se você quiser tirar o que for de sua boca tem de cortar fora sua cabeça. Foi um homem desse tipo que me amofinou muitas vezes e quase me deixou louco. Seria mais fácil argumentar com um forcado em uma debulhadora ou persuadir um pedaço de tijolo a se transformar em mármore do que incutir bom senso naquele homem. Tirar as manchas do leopardo não é nada comparado a tentar conduzir um homem completamente obstinado. Certo ou errado, é mais fácil fazer uma montanha caminhar até Londres que fazer com que ele mude de idéia se estiver decidido. É uma coisa maravilhosa quando um homem mantém-se firme ao seu texto (nosso ministro diz: “Esse é o material de que são feitos os mártires”), mas quando ele é ignorante, os desatinados introduzem esse grão duro nele, e ele transforma em mártires os que têm de caminhar com ele. O velho Senhor Cabeça de Porco, como não conseguiu vender seu milho pelo preço que queria, deixou os ratos devorarem montes dele e jurou que pregaria com força um prego na casca de um carvalho com o próprio punho a fim de danificar a mão para o resto da vida. É impossível cavalgar pelos seus campos sem perceber sua obstinação, pois ele prometeu solenemente “que não adotaria nenhuma dessas idéias modernas” e como resultado disso teve a pior colheita da região. O pior de tudo é que, em um acesso de raiva, expulsou a filha de casa, porque ela se juntou aos metodistas. Acredito que ele se arrependeu muito disso, mas não cedeu em um centímetro em relação ao assunto e continua dizendo que nunca mais falará com ela enquanto viver. Entretanto, a pobre garota está morta de tristeza por causa dessa grosseria. Promessas precipitadas são mais fáceis de serem quebradas do que mantidas. O que nunca muda, nunca melhora; o que nunca grita, nunca conquista.
Com os filhos, vocês precisam misturar gentileza com firmeza, elas não podem sempre fazer tudo do jeito deles, mas também não podem sempre ser contrariados. Alimente o porco quando ele grunhe, e à criança quando ela chora, e você terá um porco dócil e uma criança mimada. O homem que está aprendendo a tocar trombeta e uma criança mimada são duas companhias muito desagradáveis, mesmo como vizinhos próximos; mas a não ser que cuidemos bem disso, nossos filhos serão um aborrecimento para os outros e um tormento para nós mesmos. “A vara da correção dá sabedoria, mas a criança entregue a si mesma envergonha a sua mãe”.Se não nos dermos ao trabalho de repreender nossos filhos, teremos muitas dores de cabeça quando crescerem. A absoluta coerência deve regular todos os nossos procedimentos com os jovens; sempre nosso sim deve ser sim, e o nosso não, não. Nunca prometa um doce ou uma surra a uma criança e deixe de cumprir. Faça-se obedecer a qualquer preço – crianças desobedientes são infelizes, por amor a elas faça com que prestem atenção em você. Se você ceder em sua autoridade uma vez, dificilmente a recupera, pois seu A pode significar B, e assim por diante. Não devemos provocar a raiva de nossas crianças para que não se desencorajem; mas devemos dirigir nosso lar no temor a Deus e seremos abençoados ao fazer isso.
Desde que João Lavrador começou a escrever, ele teve a excelente oportunidade de mostrar sua firmeza e gentileza, pois recebeu uma enorme quantidade de conselhos pelos quais, como diz a esposa do fazendeiro, ele apresenta seus cumprimentos. Para mostrar sua gratidão, ele não se importa em devolver um conselho que recebeu, em vez de dar um dos seus; pois está certo de que é muita gentileza de algumas pessoas dizerem-lhe, de s diversas formas, como fazer de si mesmo um idiota. Ele pretende juntar aos poucos tantas sugestões quantas puder dos restolhos de seus inúmeros amigos, enquanto procura o estilo que se ajusta melhor a ele, e, se possível, essas sugestões o deixarão um pouco mais em contato consigo mesmo. Talvez se o ministro lhe emprestasse Cowper ou Milton, ele pudesse até dar um toque de poesia em seu ramalhete para ficar tão belo como as flores de maio. Mas ele não pode prometer, pois a colheita apenas começou e não há tempo para rimas em meio à colheita. O pior de tudo é que esses amigos, que corrigem João, contradizem uns aos outros; um diz que o assunto é muito insignificante, o estilo não é simplório o suficiente para um lavrador, todos se manifestam com nome fictício; outro diz que a matéria está muito boa, mas as expressões são tão grosseiras que seria surpreendente o editor pô-las em uma revista. João pretende dar aos seus conselheiros toda a atenção que eles merecem; e da mesma forma que os ratos que tiveram coragem suficiente para fazer um ninho no focinho do gato, ele pretende ir atrás deles e, em resposta às instruções deles, escrever conselhos gratuitos minuciosos em um papel, conselhos esses que provavelmente os deixarão com a pulga atrás da orelha.
FONTE: Sheed Publicações
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A aparência do Pregador (Sabedoria Bíblica)
Capítulo 3: A aparência do Pregador
Um bom cavalo não tem uma cor desagradável, e um pregador realmente bom pode vestir o que mais lhe agradar, pois ninguém vai dar importância a isso, mas apesar de não conhecermos o vinho pelo barril, uma boa aparência é uma carta de recomendação, mesmo para um lavrador. Os sábios não se apaixonam nem se desiludem à primeira vista, ainda assim a primeira impressão é sempre uma coisa importante mesmo para eles; o que dizer então em relação aos menos esclarecidos para quem, por não serem sábios, uma boa aparência representa meio caminho andado.
O que é boa aparência? Bem, não é ser pomposo e engomado, ou se fazer de grande e poderoso entre as pessoas, porque o orgulho põe a perder os corações, ao passo que as palavras gentis os cativam. Não é tampouco usar roupas finas; porque roupa extravagante é a mesma coisa que uma casa suja por dentro e com a entrada sem a limpeza adequada. Esse tipo de roupa é considerado a melhor parte em uma boneca. Quando um homem é vaidoso como um pavão, todo pomposo e exibido, ele precisa se converter antes de pregar para os outros. O pregador que mede a si mesmo pelo espelho, pode agradar algumas jovens tolas, mas nem Deus nem os homens se mantêm muito tempo com ele. O homem que deve sua grandeza ao seu alfaiate descobre que essa agulha e essa linha não conseguem manter um tolo no púlpito por muito tempo. Um cavalheiro deve ter mais em seu bolso que sobre os ombros, e um ministro deve ter mais a mostrar em seu interior que em sua aparência externa. Se pudesse, eu diria para os jovens pastores não preguem de luvas, porque os gatos não caçam ratos com luvas de boxe, e que não passem muita brilhantina no cabelo como fazem os vaidosos, porque ninguém se preocupa em ouvir a voz dos pavões; não tenham sempre em mente apenas sua bela aparência, ou ninguém mais se preocupa com vocês. Tirem os anéis de ouro, as correntes e as jóias; por que o púlpito deve se transformar em uma vitrine de jóias? Excluam para sempre as sobrepelizes e as batinas e todas essas vestimentas exageradas, os homens devem afastar de si as coisas infantis. Uma cruz nas costas representa o sinal do diabo no coração; os que fazem como Roma devem ir a Roma e mostrar suas credenciais de herdeiros. Se os padres supõem que conseguem o respeito dos homens honestos por causa da indumentária fina estão muito enganados, pois é voz corrente: “O hábito não faz o monge”, e: “O macaco não se parece tanto com um macaco como quando veste o manto papal”.
Entre nós reformistas, o pregador não reivindica poderes sacerdotais e, portanto não deve jamais usar uma vestimenta especial. Deixem os tolos usarem capuzes e hábitos tolos, pois os homens que não reivindicam a tolice não devem usar roupas desse tipo. Ninguém a não ser uma ovelha imbecil usaria a pele de um lobo. É um gosto estranho o que leva os homens a ansiarem pelos farrapos de um ladrão. Além disso, qual é o lado bom desse aparato espalhafatoso? Nenhuma criatura poderia parecer mais estúpida que um pregador reformista com um capuz que não tem utilidade nenhuma para ele, com exceção de um pato que use tamancos. Eu morro de rir quando vejo nossos doutores com toga e faixas, esbaforidos com suas roupas de seda, enfeitados com seus pequenos peitilhos, pois eles me lembram muito o nosso conhecido peru quando fica estufado com os temperos postos em seu interior. Com certeza, são muito tolas as pessoas que querem ver um homem vestido como mulher em vez de apreciar seu sermão; e aquele que não consegue pregar sem essa vestimenta espalhafatosa pode se achar um homem entre simplórios, mas é um simplório entre homens. Ao mesmo tempo, o pregador deve se esforçar, de acordo com seus recursos, para vestir-se de forma respeitável; e em relação à pureza, ele não deve ter máculas, pois os reis não devem ter homens de pés sujos junto de sua mesa; e aqueles que pregam as coisas de Deus devem praticar o asseio. Eu daria preferência às gravatas brancas, se elas fossem sempre brancas, porque marrom de sujeira não cabe em lugar nenhum. Podemos nos ver livres de um pároco relaxado, enfumaçado, aspirador de rapé, bebedor de cerveja? Muitos dos que encontrei talvez até tivessem muito boas maneiras, mas não lhes ocorria terem boas maneiras consigo mesmo havia muito tempo. Como um capitão holandês deixa as âncoras no mar, eles deixaram as boas maneiras em casa; mas esse jamais deve ser o argumento para tornar um pároco bem comportado em o ministro. Um paletó surrado não significa desonra, mesmo o mais simples deles pode estar bem apresentado, e os homens devem ser estudiosos, e não professores, até alcançar esse patamar. Não se pode julgar um cavalo pelo arreio; mas uma aparência modesta, distinta, em que a roupa é do tipo sobre a qual não se pode fazer comentário, parece-me ser o tipo certo de coisa.
Esse pequeno ponto de minha reflexão tem o objetivo de advertir vocês jovens que acabam de se iniciar no ministério; e se algum de vocês ficar bravo por causa desses comentários, terei de lembrá-los que cavalos com feridas no lombo não suportam ser escovados, e, de novo, “aqueles a quem a carapuça servir, vistam-se de João Lavrador”, vocês dirão que teria sido melhor remendar o próprio avental e deixar o pároco em paz, mas peço licença para cuidar de mim e falar o que me vem à mente, pois um gato pode mirar um rei, e um tolo pode dar bons conselhos ao homem sábio. Se eu falar com muita simplicidade, por favor, lembrem-se de que o cão velho não consegue mudar sua forma de latir, e aquele que por muito tempo foi acostumado a arar em um sulco reto também é muito competente para falar com honestidade.
FONTE: Sheed Publicações
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