O Véu Rasgado (7º sermão especial de Páscoa, de C.H.Spurgeon)

No. 2015

Sermão pregado na manhã de Domingo de 25 de março de 1888.

Por Charles Haddon Spurgeon.

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

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“E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito. E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras;” (Mateus 27:50-51).

 

“Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, [pela] sua carne, E tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa,” (Hebreus 10:19-22).

 

A morte de nosso Senhor Jesus Cristo esteve com toda razão rodeada de milagres; porem, ela mesma é uma maravilha mais grandiosa que tudo o que ocorreu, e excede a todos esses milagres da mesma maneira que o sol brilha mais que os planetas que o rodeiam. Resulta muito natural que a terra tremesse, e que os sepulcros se abrissem, e que o véu do templo se rasgasse, quando Aquele que unicamente tem a imortalidade, entrega Seu espírito. Quanto mais pensem na morte do Filho de Deus, mais se assombrarão por ela. Da mesma forma que um milagre supera a um feito comum, assim, essa maravilha de maravilhas eleva-se acima de todos os milagres de poder.

Que o divino Senhor, ainda que coberto com o véu de carne mortal, tenha condescendido a sujeitar-se ao poder da morte, ao ponto de inclinar Sua cabeça na cruz, e submeter-se a ser depositado na tumba, é o maior dos mistérios. A morte de Jesus é a maravilha do tempo e da eternidade, e, assim como a vara de Arão devorou todas as demais, essa morte absorve em si todas as maravilhas menores.

No entanto, o rasgo do véu do Templo não é um milagre que deva se considerar sem atenção. Ele havia sido fabricado de “um linho retorcido, com querubins de obra primorosa.” Isso nos dá a ideia de uma tela resistente, de uma peça de tapeçaria duradoura, capaz de resistir a mais severa tensão. Nenhuma mão humana teria sido capaz de romper essa coberta sagrada; e não teria podido ser dividida em duas por alguma causa acidental; no entanto, e é estranho dizê-lo, no instante em que a santa pessoa de Jesus foi rasgada pela morte, o grandioso véu que ocultava ao Santo dos Santos “se rasgou em dois de cima abaixo.” O que isso significa? Significava muito mais do que posso dizer-lhes agora.

Não é algo extravagante considerá-lo como um solene ato de dor por parte da casa de Deus. No Oriente, os homens expressam sua dor rasgando suas vestes; e o Templo, quando viu seu Senhor morrer, parecia golpeado pelo horror e rasgou seu véu. Sacudido pelo pecado do homem, indignado pela morte de seu Senhor, em sua simpatia por Aquele que é o verdadeiro Templo de Deus, o símbolo externo rasgou sua santa vestimenta de cima abaixo. Por acaso não significou também, esse milagre, que a partir dessa hora, todo o sistema de tipos, sombras e cerimônias haviam chegado a seu fim? As ordenanças de um sacerdócio terreno foram rasgadas com esse véu. Em sinal da morte da lei cerimonial, sua alma abandonou o sagrado santuário, e deixou seu tabernáculo corpóreo como algo morto. A dispensação legal havia terminado.

O véu rasgado parecia dizer: “a partir desse momento, Deus já não habita mais na densa escuridão do Santo dos Santos, e não brilha mais em meio dos querubins. O recinto especial foi aberto, e já não existe um santuário interior ao que posso entrar o sacerdote terreno: as expiações e os sacrifícios que serviam de tipo, chegaram a seu fim.”

De conformidade à explicação dada em nosso segundo texto, o rasgo do véu significou principalmente, que o caminho ao Lugar Santíssimo, que não havia sido manifesto antes, ficava agora aberto a todos os crentes. Uma vez ao ano, o sumo sacerdote levantava solenemente uma ponta desse véu, com temor e tremor, e com sangue e santo incenso passava à imediata presença de Jeová; porem, o rasgão do véu abriu o lugar secreto. O rasgo de cima abaixo proporcionará amplo espaço para que entrem todos os que são chamados pela graça de Deus, para que se aproximem ao trono e tenham comunhão com o Eterno.

Sobre esse tema tentarei falar no dia de hoje, rogando no íntimo de minha alma que vocês e eu, junto com todos os outros crentes, tenhamos o valor de entrar realmente ao lugar detrás do véu, nesse momento que nos congregamos para adorar. Oh, que o Espírito de Deus queira nos conduzir à comunhão mais próxima que possam ter os homens mortais com o infinito Jeová!

Em primeiro lugar, nessa manhã, lhes pedirei que considerem o que foi feito. O véu foi rasgado. Em segundo lugar, recordaremos o que possuímos por essa causa: temos “liberdade para entrar no Lugar Santíssimo pelo sangue de Jesus Cristo”. Logo, em terceiro lugar, consideraremos como exercitamos essa graça: “entramos pelo sangue de Jesus Cristo, pelo caminho novo e vivo que ele nos abriu através do véu, isso é, sua carne.”

I. Primeiro, reflitam no QUE FOI FEITO. Um feito real histórico que o glorioso véu do templo foi rasgado em dois de alto abaixo: como um feito espiritual, que é ainda muito mais importante para nós, é abolida a ordenança legal que separa. Existia sob a Lei essa ordenança: que ninguém jamais podia entrar ao Lugar Santíssimo, com a única exceção do sumo sacerdote, e ele podia somente fazê-lo uma vez por ano, e não sem sangue.

Se alguém houvesse tentado entrar ai teria tido que morrer, como culpado de grande arrogância e de sacrílega intrusão no lugar secreto do Altíssimo. Quem poderia estar na presença Daquele que é um fogo consumidor? Essa ordem de manter distância corre ao longo de toda a Lei, pois até mesmo o Lugar Santo, que era o vestíbulo do Santo dos Santos, era somente para os sacerdotes. O lugar do povo era um de distância. Na própria instituição inicial da Lei, quando Deus desceu no Sinai, a ordenança “E marcarás limites ao povo em redor” (Êxodo 19:12). Não existia nenhum convite para se aproximar. Não que o povo quisesse fazê-lo, pois toda a montanha fumegava e ainda “Moisés disse: estou espantado e tremendo.” “E o Senhor disse para Moisés: Desce, ordena ao povo que não passe os limites para ver ao Senhor, porque multidão deles cairão.” Ainda se uma simples besta tocava o monte, devia ser apedrejada, ou lançada. O espírito da antiga lei era de distância reverente.

Moisés, e aqui e ali algum outro homem eleito por Deus, podiam se aproximar de Jeová; mas quanto ao grosso das massas, o mandamento era “não se aproximes.” Quando o Senhor revelou Sua glória ao promulgar a Lei, lemos: “e vendo-o o povo, tremeram, e se colocaram de longe.” Tudo isso acabou. O preceito de se manter afastado está anulado, e o convite é: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados.”Aproximemo-nos” é agora o espírito filial do Evangelho. Que agradecido estou por isso! Que alegria proporciona para minha alma! Alguns membros do povo de Deus não experimentaram isso ainda, já que eles adoram de longe.

Muitas orações deveriam ser altamente admiradas por sua reverência, mas carecem da confiança de uma criança. Eu posso admirar a linguagem solene e majestosa de adoração que reconhece a grandeza de Deus, porem, não efervescerá meu coração nem expressará minha alma, até que não tenha misturado com ela a alegre aproximação desse perfeito amor que lança fora ao medo, e se aventura a falar com seu Pai celestial como o menino fala com seu pai terreno.

Meu irmão, já não resta-nos nenhum véu. Por que te colocas tão longe e tremes como um escravo? Aproxime-se com plena certeza de fé. O véu está rasgado: o acesso é livre. Vem com liberdade ao trono da graça. Jesus o levou perto, tão próximo de Deus como Ele mesmo está próximo. Ainda que falamos do Lugar Santíssimo, do próprio lugar secreto do Altíssimo, no entanto, é desse lugar imponente, desse santuário de Jeová, que se rasgou o véu, portanto, não permitas que nada impeça tua entrada. Certamente nenhuma lei lhe proíbe, mas bem, o infinito amor te convida a aproximar-te de Deus.

Esse rasgão do véu também significou a extirpação do pecado que separa. O pecado é, depois de tudo, o grande divisor entre Deus e o homem. Esse véu de azul e púrpura e linho torcido não podia realmente separar ao homem de Deus: pois Ele não está longe de nenhum de nós, no tocante a Sua onipresença. O pecado é um muro de separação muito mais eficaz: abre um abismo entre o pecador e seu Juiz. O pecado bloqueia a oração, e o louvor, e toda forma de exercício religioso. O pecado faz que Deus caminhe em sentido contrário a nós, porque caminhamos no sentido contrário a Ele. O pecado, ao separar a alma de Deus, causa a morte espiritual, que é tanto o efeito como o castigo da transgressão.

Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo? Como pode um Deus santo ter comunhão com criaturas ímpias? Morará a justiça com a injustiça? Habitará a perfeita pureza com as abominações do mal? Não, isso não pode ser. Nosso Senhor Jesus Cristo tirou o pecado mediante o sacrifício de Si mesmo. Ele tira o pecado do mundo e por isso esse véu se rasgou. Pelo derramamento de Seu sangue precioso, somos limpos de todo pecado, e se cumpre esse promessa auperabundante de graça: “Nunca mais me lembrarei de seus pecados e transgressões.” Quando o pecado se foi, a barreira cai e o abismo insondável é preenchido.

O perdão que tira o pecado, e a justificação que proporciona justiça, elaboram uma certificação de limpeza tão real e tão completa que nada agora separa ao pecador de seu Deus reconciliado. O Juiz agora é o Pai: Ele, que uma vez devia necessariamente ter condenado, é achado absolvendo e aceitando com justiça. O véu é rasgado nesse duplo sentido: a ordenança separadora é anulada, e o pecado separador é perdoado.

Continuando, deve se lembrar que a corrupção que separa é também tirada por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Não é somente o que temos feito, mas sim o que somos, o que nos mantém separados de Deus. O pecado está arraigado em nós; ainda aqueles que possuem graça que habita neles, devem se queixar: “querendo eu fazer o bem, acho essa lei: que o mal está em mim.”

Como podemos ter comunhão com Deus, se nossos olhos estão vendados, nossos ouvidos tapados, nossos corações endurecidos, e nossos sentidos apagados pelo pecado? Toda nossa natureza está corrompida, envenenada e pervertida pelo mal, como podemos conhecer ao Senhor? Amados, pela morte de nosso Senhor Jesus, o pacto de graça é estabelecido conosco, e suas provisões cheias de graça são nesse sentido: “esse é o pacto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: porei minhas leis nas mentes deles, e sobre seu coração as escreverei.”

Quando é esse o caso, quando a vontade de Deus está gravada no coração e a natureza é completamente trocada, então véu divisório que nos esconde de Deus, é retirado: “Bem aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.” Bem aventurados são todos aqueles que amam a justiça e a buscam, pois se encontram em um caminho no que o Justo pode caminhar em comunhão com eles.

Os espíritos que são semelhantes a Deus, não estão separados de Deus. A diferença de natureza coloca o véu; porem, o novo nascimento, e a santificação que lhe segue, por meio da preciosa morte de Jesus, tiram esse véu. Quem odeia o pecado, procura a santidade e se exercita para aperfeiçoá-la no temor de Deus e está em comunhão com Deus. É algo bendito quando amamos o que Deus ama, quando buscamos o que Deus busca, quando coincidimos com as metas divinas, e somos obedientes aos mandamentos divinos: pois com tais pessoas o Senhor habitará. Quando a graça nos faz participantes da natureza divina, então somos um com o Senhor, e o véu e tirado.

“Sim”, dirá alguém, “agora vejo como o véu é tirado, de três maneiras diferentes, porem, ainda assim, Deus é Deus, e nós não somos senão pobres homens insignificantes, entre Deus e o homem deve haver necessariamente um véu separador, posto pela grande disparidade entre o Criador e a criatura. Como pode ter comunhão o finito com o infinito? Deus é tudo em tudo, e mais que tudo; nós somos nada, e menos que nada: como podemos nos juntar?”

Quando o Senhor se aproxima de Seus favorecidos, eles reconhecem quais incapazes são de suportar a excessiva glória. Ainda o amado João disse: “Quando o vi, cai como morto a seus pés.” Tudo isso é certo; pois o Senhor disse: “Não poderás ver meu rosto; porque homem não me verá, e viverá;” Ainda que é um véu muito mais fino que esses que já mencionei, segue sendo um véu; e é difícil que um homem se sinta cômodo com Deus.

Porem, o Senhor Jesus coloca uma ponte sobre a distância que separa. Vejam, o bendito Filho de Deus veio ao mundo, e assumiu nossa natureza! “Porquanto os filhos participaram de carne e sangue, ele também participou do mesmo.” Ainda que Ele é Deus, como Deus é Deus, no entanto, Ele é verdadeiramente homem, como o homem é homem. Fixem-se bem como na pessoa do Senhor Jesus vemos a Deus e ao homem na aliança mais próxima possível; pois estão unidos em uma pessoa para sempre. O abismo é preenchido com a plenitude pelo fato que Jesus completou tudo por nós até o amargo fim, a morte, e morte de cruz. Seguiu o caminho da humanidade até o próprio sepulcro; e assim vemos que o véu, que estava posto entre a natureza de Deus e a natureza do homem, é rasgado na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo. Entramos ao lugar mais santo por meio de Seu carne, que vincula a humanidade com a Divindade.

Agora vocês vêem o que significa que o véu tenha sido tirado. Notem com solenidade que isso é válido unicamente para os crentes: os que rejeitam a Jesus, rejeitam o único caminho de acesso a Deus. Não podemos nos aproximar a Deus, exceto mediante o rasgão do véu pela morte de Jesus. Havia um caminho tipificado até o propiciatório de antes, e esse caminho consistia em deixar de lado o véu; não havia outro. E não existe agora nenhum outro caminho para que qualquer de vocês vá à comunhão com Deus, exceto através do véu rasgado, a morte de Jesus Cristo, a Quem Deus estabeleceu para que seja a propiciação pelo pecado. Se vocês vêm por esse caminho, podem vir gratuitamente. Se recusam vir por esse caminho, então pende entre você e Deus, um véu inviolável. Sem Cristo, vocês se encontram sem Deus, e sem esperança. Jesus mesmo lhes assegura: “se não creêis que eu sou, em vossos pecados morrereis.” Que Deus nos conceda que isso não lhes ocorra a nenhum de vocês!

Para os crentes o véu não está enrolado, mas sim rasgado. O véu não foi dependurado e dobrado cuidadosamente, e retirado, para voltar a ser colocado em seu lugar no futuro. Oh, não! Mas sim que a mão divina o tomou e o rasgou de alto abaixo. Não pode voltar a ser pendurado outra vez; isso é impossível. Entre os que estão em Cristo Jesus e o grandioso Deus, não haverá jamais outra separação. “Quem nos separará do amor de Cristo?” Somente um véu foi fabricado, e como esse foi rasgado, o único e solitário separador foi destruído. Eu me deleito ao pensar nisso. O próprio diabo não poderá jamais me separar agora de Deus. Poderá tentar impedir que eu tenha acesso a Deus, e de fato o fará; porem, o que pode fazer é pendurar um véu rasgado. De que lhe serviria isso senão para mostrar sua impotência. Deus rasgou o véu e o diabo não pode remendá-lo. Há acesso entre um crente e seu Deus; e deve existir tal livre acesso para sempre, pois o véu não está dobrado, nem posto de lado para ser pendurado de novo em dias vindouros; está rasgado e já não serve para nada.

O rasgão não está em um canto do véu, uma ponta, mas sim no próprio meio, como Lucas nos informa. Não é uma rasgadura ligeira através da que possamos ver algo; é um rasgo de cima abaixo. Uma entrada foi aberta para os piores pecadores. Se só se tivesse aberto um pequeno buraco no véu, os ofensores menores poderiam ter se arrastado através dele; porem, que ato de abundante misericórdia é esse, que o véu foi rasgado no centro, e de cima abaixo, de tal forma que o primeiro dos pecadores pode achar um amplo espaço! Isso também mostra que para os crentes não há impedimento para o mais pleno e livre acesso a Deus. Oh, nos armemos de valor, no dia de hoje, para vir ao lugar em que Deus não somente abriu a porta, mas que arrancou a porta de suas dobradiças; sim, a tirou, até mesmo os umbrais e as redes e tudo!

Quero que notem que esse véu, quando foi rasgado, foi rasgado por Deus, não por homem. Não foi o ato de uma turba irreverente; não foi um atropelo de meia-noite de um conjunto de sacerdotes sacrílegos: foi unicamente o ato de Deus. Ninguém esteve por detrás do véu; e em seu lado externo, os sacerdotes estavam cumprindo unicamente sua vocação ordinária de oferecer sacrifícios. Eles devem ter se assombrado quando viram que o Lugar Santo estava ao descoberto em um instante. Como devem ter fugido, quando viram ao sólido véu dividido sem mediação de  nenhuma mão humana, em um segundo de tempo!

Quem o rasgou? Quem, senão o próprio Deus? Se outro o tivesse feito, poderia ter ocorrido um erro ao respeito, e o erro poderia ter necessitado de reparo, recolocando a cortina; porem, se o Senhor o fez, foi feito corretamente, definitivamente, irreversivelmente. É Deus mesmo Quem colocou o pecado sobre Cristo, e em Cristo tirou o pecado. Deus mesmo abriu a porta do céu aos crentes, e desenhou uma ampla avenida na que as almas dos homens podem transitar até Ele. Deus mesmo colocou a escada entre a terra e o céu. Venham a Ele agora, vocês que são humildes, olhem, Ele abriu uma porta diante de vocês!

II. E agora, em segundo lugar, lhes peço que procedam comigo, queridos amigos, a uma verificação experimental do tema. Agora notamos O QUE POSSUÍMOS: “Assim que, irmãos, tendo liberdade para entrar no Lugar Santíssimo.” Notem o triple “tendo” no parágrafo diante de nossa consideração, e não se contentem se não possuem os três. “Tendo liberdade para entrar.” Existem graus de liberdade; porem esse é um dos mais elevados. Quando o véu foi rasgado, requeria-se certa liberdade para olhar dentro. Eu me pergunto se os sacerdotes ao pé do altar tinham verdadeiramente o valor de olhar ao propiciatório. Suspeito que estavam absorvidos no assombro, que fugiram do altar, temendo uma morte súbita. Requer-se de certa medida de coragem para olhar fixamente ao mistério de Deus: “Coisas nas quais os anjos anelam olhar.”

É bom que não olhemos as coisas profundas de Deus, com um olho simplesmente curioso. Eu questiono se alguém é capaz de espiar o mesmo mistério da Trindade, sem expor-se a grande risco. Alguns, querendo olhar ali com os olhos de seu intelecto natural, foram cegados pela luz desse sol, e a partir disso vagaram em trevas. É necessário liberdade para olhar os esplendores do amor redentor que elege.

Se alguém olhou ao Lugar Santíssimo quando o véu estava sendo rasgado, se contava entre os homens mais valorosos, pois outros poderiam ter temido incorrer na mesma sorte que os homens de Bete-Semes (1 Samuel 6:9). Amados, o Espírito Santo os convida a olhar nesse lugar santo, e vê-lo com um olho reverente; pois está repleto de ensinos para vocês. Entendam o mistério do propiciatório, e da arca do pacto coberta de ouro, e da vasilha de maná, e das tábuas de pedra, e da vara de Arão que floresceu. Olhem, olhem livremente por meio de Jesus Cristo: porem, não se contentem com olhar somente! Escutem o que diz o texto: “Tendo liberdade para entrar”. Bendito seja Deus porque nos ensinou essa doce maneira de não olhar mais de longe, mas sim de entrar ao mais recôndito do santuário com confiança! “Liberdade para entrar” é o que devemos de ter.

Sigamos o exemplo do sumo sacerdote, e tendo entrado, executemos as funções da pessoa que entra. “Liberdade para entrar” sugere que atuamos como homens que estão no lugar devido. Estar detrás do véu enchia o servo de Deus com um opressor sentido da presença divina. Se alguma vez em sua vida estava próximo de Deus, certamente estava próximo de Deus nesse momento, quando, muito sozinho, fechado, e excluído do resto do mundo, não tinha a ninguém a seu lado, exceto ao glorioso Jeová.

Oh, meus amados, que nós possamos entrar hoje ao Lugar Santíssimo nesse sentido! Desconectados com o mundo, tanto ímpio como cristão, saibamos que o Senhor está aqui, muito próximo e manifesto. Oh, que possamos clamar agora com Agar: “Não vi também aqui ao que me vê?” Oh, que doce é experimentar através do gozo pessoal, a presença de Jeová! Que animador é sentir que o Senhor dos Exércitos está conosco! Nós sabemos que nosso Senhor é uma ajuda muito real na tribulação. Uma das maiores alegrias do céu consiste em poder cantar: Jeová Samá: o Deus que está ali[1](Ezequiel 48:35).

Ao início, trememos na divina presença; porem, conforme sentimos mais o espírito de adoção, nos aproximamos com sagrado deleite, e nos sentimos tão plenamente em casa com nosso Deus, que cantamos com Moisés: “Senhor, Tu nos há sido refúgio de geração em geração”. Não vivam como se Deus estivesse tão longe de vocês como o leste está do oeste. Não vivam apegados à terra; mas sim vivam no alto, como se estivessem no céu. No céu estarão com Deus; porem, na terra, Ele estará com vocês: por acaso há muita diferença? “Juntamente com Ele nos ressuscitou, e assim mesmo, nos fez assentar nos lugares celestiais com Cristo Jesus”. Jesus fez que nos aproximemos por Seu sangue precioso. Tentem dia a dia viver na maior proximidade com Deus, como o sumo sacerdote sentia quando estava por um momento dentro de secreto do tabernáculo de Jeová.

O sumo sacerdote tinha um sentido de comunhão com Deus; não somente estava perto, mas que ele falava com Deus. Não posso saber o que falava, porem, penso que nesse dia especial, o sumo sacerdote se livrava da carga do pecado e da aflição de Israel, e apresentava suas petições ao Senhor. Arão, só ali, devia ter estado cheio de lembranças de sua própria culpa, e das idolatrias e apostasias do povo. Deus brilhava sobre ele, e ele se inclinava perante Deus. Talvez escutava coisas que não era permitido expressar, e outras que jamais poderia ter expressado mesmo que tivesse permissão.

Amados, vocês sabem o que é ter comunhão com Deus? As palavras são pobres veículos para esse companheirismo; porem, que bendito é isso! As provas da existência de Deus são totalmente supérfluas para os que têm o hábito de conversar com o Eterno. Se alguém escrevesse um ensaio para demonstrar a existência de minha esposa, ou de meu filho, eu em verdade não o leria, exceto para divertir-me; e as provas da existência de Deus para o homem que tem comunhão com Deus, são mais ou menos o mesmo. Muitos de vocês caminham com Deus: que bênção! A comunhão com o Altíssimo eleva, purifica, fortalece. Entremos com liberdade. Entremos em Seus pensamentos revelados, da maneira que Ele adentra nos pensamentos de vocês, cheio de graça: elevem-se a Seus planos, como Ele condescende aos seus; peçam para serem levados a Ele, como Ele se digna em habitar com vocês.

Isso é o que o rasgo no véu nos traz quando temos liberdade de entrar; porem, observem bem, o rasgão do véu não nos traz nada no tanto que não tenhamos a coragem de entrar. Por que nos deixamos de fora? Jesus nos leva perto, e verdadeiramente nossa comunhão é com o Pai, e com Seu Filho Jesus Cristo. Não nos demoremos em receber essa liberdade e nos aproximemos com valor ao trono.

O sumo sacerdote atravessava o véu de azul e púrpura, carmesim e linho retorcido, com sangue e com incenso, para que pudesse orar por Israel; e ai ficava diante do Altíssimo, suplicando que abençoasse ao povo. Oh, amados, a oração é uma instituição divina, e nos pertence. Porem, existem muitos tipos de oração. A oração do que parece que tem o impedimento de entrar ao santo templo de Deus; a oração do outro que está no átrio dos gentios, muito longe, olhando para o Templo; a oração que se aproxima de onde está Israel e suplica a Deus dos eleitos; a oração que se faz dentro do átrio dos sacerdotes, quando o homem de Deus santificado faz intercessão; porem, a melhor de todas é que se oferece no Lugar Santíssimo. Não existe temor que a oração não seja ouvida quando é oferecida no Lugar Santíssimo. A própria posição do homem demonstra que ele é aceito por Deus. Está parado no lugar de aceitação mais seguro, e está tão perto de Deus que cada um de seus desejos é ouvido. Ali o homem é visto de trás e adiante, pois ele se encontra muito perto de Deus. Seus pensamentos são lidos, suas lágrimas são vistas, seus suspiros são escutados; pois ele tem liberdade de entrar. Pode pedir o que queira, e se lhe concederá.

Assim como o altar santifica a oferenda, assim o Lugar Santíssimo, aberto pelo sangue de Jesus, assegura uma resposta certa à oração, que é oferecida lá. Que Deus nos conceda tal poder de orar! É algo maravilhoso que o Senhor preste ouvidos à voz de um homem; no entanto, tais homens existem. Lutero, ao sair de seu confinamento, exclamou: Vici: “venci.” Ainda não tinha se enfrentado com seus inimigos, mas tendo prevalecido ante Deus pelos homens, ele sentia que devia prevalecer diante dos homens por Deus.

Porem, o sumo sacerdote, se vocês recordam, depois de ter tido comunhão e ter orado a Deus, saia e abençoava o povo. Revestia-se com suas vestes de glória e beleza, que havia colocado de lado para entrar no Lugar Santíssimo, e entrava vestido simplesmente de branco, e nada mais: e agora, saia levando o peitoral e todos os seus preciosos ornamentos, e abençoava ao povo. Isso é o que vocês farão, se possuem liberdade de entrar ao Lugar Santíssimo pelo sangue de Jesus: vocês abençoarão ao povo que os rodeia. O Senhor os abençoou, e os converterá em uma bênção. Sua conduta comum e sua conversação serão benditos exemplos. As palavras que vocês falam por Jesus, serão como um orvalho do Senhor: o enfermo será consolado por suas palavras; o desalentado será animado pela fé de vocês: o tíbio será recuperado por seu amor. Estarão dizendo, praticamente, a cada um dos que conhecem: “o Senhor o abençoe e guarde: o Senhor faça resplandecer seu rosto sobre ti, e tenha de ti misericórdia.” Vocês se converterão em um canal de bênção: “de seu interior fluirão rios de água viva”. Que cada um de nós tenha liberdade de entrar, para que saímos carregados de bênçãos!

Peço-lhes que amavelmente olhem o texto, e notarão algo que eu simplesmente irei sugerir: que essa liberdade está bem fundamentada. Encanta-me ver quando o apóstolo usa um “assim que”: “Assim que, irmãos, tendo liberdade”. Paulo[2] é, muitas vezes, um verdadeiro poeta, porem, sempre usa a lógica com correção; é tão lógico como se estivesse tratando com matemática em vez de teologia. Aqui escreve um de seus “assim quem”.

Por que é que temos liberdade? Por acaso não é por conta de nossa relação com Cristo, que nos converte em “irmãos”? “Assim que, irmãos, tendo liberdade”. O crente mais débil tem tanto direito de entrar no Santo dos Santos como Paulo tinha; isso devido a que ele é um membro da irmandade. Eu me lembro de uma rima de John Ryland[3], na que diz sobre o céu –

“Todos eles estarão lá, os grandes e pequenos,

Pobre, irei dar a mão ao bendito Paulo.”

Não tenho nenhuma dúvida que teremos uma posição e uma comunhão assim. Enquanto isso, lhe damos a mão a ele, e ele nos chama irmãos. Somos irmãos uns dos outros, porque somos irmãos de Jesus. Onde vemos que o apostolo vai, ali iremos; sim, mas bem, onde vemos que o Grandioso Apóstolo e Sumo Sacerdote de nossa confissão entrar, ali o seguiremos. “Assim que, irmãos, tendo liberdade.”

Amados, agora não temos nenhum temor de morrer no Santo dos Santos. O sumo sacerdote, quem quer que fora, deve ter sempre temido esse dia de expiação, quando tinha que passar ao lugar silencioso e isolado. Não posso dizer se é verdade, mas li que existe uma tradição entre os judeus, que se amarrava uma corda ao pé do sumo sacerdotes para que pudesse tirar seu cadáver em caso de morte na presença do Senhor. Não me surpreenderia se sua superstição houvesse idealizado uma coisa assim, pois é uma terrível posição a de um homem que entra na habitação secreta de Jeová. Porem, não podemos morrer no Santo dos Santos agora, posto que Jesus morrer por nós. A morte de Jesus é a garantia de vida eterna de todos aqueles pelos que morreu. Temos liberdade para entrar, pois não pereceremos.

Nossa liberdade deriva da perfeição de Seu sacrifício. Leiam o versículo 14: “fez perfeitos para sempre aos santificados.” Nós confiamos no sacrifício de Cristo, crendo que Ele foi nosso substituto tão perfeito, que não é possível que morramos depois que nosso substituto morreu; e devemos ser aceitos, porque Ele é aceito. Cremos que o sangue precioso tirou nosso pecado tão eficaz e eternamente que já não somos mais detestáveis para a ira de Deus. Podemos estar com segurança onde o pecado deve ser golpeado, se houvesse algum pecado em nós; pois estamos tão lavados, tão limpos, e tão plenamente justificados que somos aceitos no Amado. O pecado é tão completamente tirado de nós pelo sacrifício vicário de Cristo, que temos liberdade para entrar onde o próprio Senhor habita.

Mais ainda, temos isso por certo, que como um sacerdote tinha um direito de morar perto de Deus, nós também possuímos esse privilégio; pois Jesus nos fez reis e sacerdotes para Deus, e todos os privilégios do ofício nos são outorgados conjuntamente com o próprio oficio. Temos uma missão dentro do Lugar Santo; somos chamados para entrar ali por um negócio divino, e por isso não temos o temor de ser intrusos. Um ladrão pode entrar em uma casa, porem não entra com liberdade; sempre tem medo de ser surpreendido. Vocês poderiam entrar na casa de um estranho, sem ser convidados, mas não sentiriam nenhuma liberdade ai.

Nós não entramos no Santo dos Santos como ladrões que violam uma casa, nem como estranhos; viemos obedecendo a um chamado, para cumpri um ofício. Uma vez que aceitamos o sacrifício de Cristo, estamos em casa com Deus. Onde um filho será livre, senão na casa de seu pai? Onde o sacerdote estará senão no templo de seu Deus, para cujo serviço foi apartado? Onde viverá o pecador lavado com o sangue, a não ser com seu Deus, com Quem foi reconciliado?

Sentir essa liberdade constitui um gozo celestial! Temos agora tal amor por Deus, e tal gozo Nele, que jamais cruza nossas mentes que somos transgressores quando nos aproximamos Ele. Nunca dizemos: “Deus, meu temor,” antes, “Deus de minha alegria e meu gozo”. Seu nome é a música a que nossas vidas estão conectadas: ainda que Deus seja um fogo consumidor, o amamos como tal, pois Ele consumirá nossa escória, e nós queremos nos desfazer dela. Deus não é enfadoso para nós sob nenhum aspecto, Nos deleitamos Nele, seja o que seja. Então podem ver, amados, que temos uma boa base de liberdade, quando entramos no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus.

Não posso deixar esse ponto até não ter-lhes lembrado que podemos ter essa liberdade de entrar em qualquer momento, porque o véu está sempre rasgado, e jamais é restaurado a seu antigo lugar. “E Jeová disse a Moisés: Diz a Arão seu irmão, que não em todo tempo entre no santuário detrás do véu, diante do propiciatório que está sobre a arca, para que não morra’; porem, o Senhor não nos diz assim para nós. Amado filho de Deus, você pode ter em todo momento “liberdade para entrar.” O véu está rasgado tanto de dia como de noite. Sim, deixa-me dizê-lo, ainda quando seu olho de fé está diminuto, de todas as maneiras, entra; quando as evidências sejam obscuras, ainda assim você tem “liberdade para entrar”; e ainda se pecaste infelizmente, recorde que o acesso está aberto a tua oração penitente. Atravessa o véu rasgado, pecador como és. Que importa que tenhas recaído no pecado, que importa que estejas afligido pelo sentido de teus desvios, vem ainda assim! “Se ouvires hoje sua voz, não endureçais vossos corações”, mas sim que entre de imediato; pois o véu já não está ali para excluir-te, ainda que a dúvida e a incredulidade te façam pensar o contrário. O véu não pode estar ai, pois foi rasgado em dois de cima abaixo.

III. Meu tempo escapuliu, e não terei espaço para fala como teria desejado fazê-lo sobre o último ponto: COMO EXERCER ESSA GRAÇA. Permitam-me dar-lhes as notas do que teria dito.

Entremos agora no Lugar Santíssimo. Olhem o caminho! Vamos pela via da expiação! “Assim que, irmãos, tendo liberdade para entrar no Lugar Santíssimo pelo sangue de Jesus Cristo.” Me fizeram sentir muito mal ultimamente, as palavras ferinas e blasfemas que certos cavaleiros da escola moderna usaram concernentes ao sangue precioso. Não sujarei meus lábios repetindo as coisas três vezes malditas que se atreveram em expressar enquanto pisoteiam o sangue de Jesus. Em todas as partes, ao longo desse Livro divino, pode encontrar-se com o sangue precioso. Como pode chamar-se a si mesmo cristão, alguém que com uma linguagem profana e impertinente, fala do sangue da expiação?

Meus irmãos, não há um caminho ao Lugar Santíssimo, ainda que o véu esteja rasgado, sem sangue. Vocês poderiam supor que o sumo sacerdote antigamente levava sangue porque o véu estava ali; porem, você tem que trazê-lo contigo ainda que o véu não esteja mais agora. O caminho está aberto, e você tem liberdade para entrar, porem, não sem o sangue de Jesus. Seria uma liberdade ímpia se pensasse em aproximar-se a Deus sem o sangue do grandioso Sacrifício. Sempre devemos usar o argumento da expiação. Posto que sem derramamento de sangue não há remissão de pecado, da mesma maneira, sem esse sangue, não há acesso a Deus.

Continuando, o caminho pelo que vamos é um caminho infalível. Por favor, notem essa palavra: “Pelo caminho novo”; isso quer dizer por um caminho que sempre é fresco. O grego original sugere a ideia de “sacrificado recentemente.” Jesus morreu faz muito tempo, porem Sua morte é a mesma agora como no momento de sua ocorrência. Nós vamos a Deus, queridos amigos, por um caminho que sempre é eficaz com Deus. Não perde nunca, jamais, nem um ápice de seu poder e frescor –

“Amado Cordeiro agonizante, Teu sangue precioso

Não perderá jamais seu poder.”

O caminho não está gasto pelo tráfego pesado: sempre é um caminho novo. Se Jesus Cristo tivesse morrido ontem, não sente que poderia argumentar Seu mérito hoje? Muito bem, podes argumentar esse mérito depois desses dezenove séculos, com a mesma confiança com que faria naquela primeira hora. O caminho a Deus é aberto sempre de novo. De fato, as feridas de Jesus sangram incessantemente nossa expiação. A cruz é tão gloriosa como se Ele estivera ainda nela. No relativo a frescura, vigor, e força da morte expiatória, vamos por um novo caminho. Que sempre seja novo para nossos corações. Que a doutrina da expiação não se volte jamais rançosa, mas sim que tenha orvalho sobre ela para nossas almas.

Logo, o apostolo agrega, que é um “caminho vivo.” Uma palavra maravilhosa! O caminho que o sumo sacerdote seguia até o lugar santo, era naturalmente um caminho material, portanto, um caminho morto. Nós vamos por um caminho espiritual, adequado para nossos espíritos. O caminho não podia ajudar ao sumo sacerdote, porem nosso caminho nos ajuda abundantemente. Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Quando vamos a Deus por esse caminho, o próprio caminho guia, conduz, suporta e protege. Esse caminho nos dá a vida com a que podemos vir.

É um caminho dedicado: “Que Ele nos abriu.” Quando um novo caminho é aberto, é separado e dedicado para uso público. Algumas vezes um edifício público é inaugurado por um rei ou um príncipe, e assim é dedicado para seu propósito. Amados, o caminho a Deus por meio de Jesus Cristo é dedicado por Cristo, e ordenado por Cristo para uso dos pobres pecadores crentes, tais como nós. Ele consagrou o caminho para Deus, e o dedicou para nós, para que possamos usá-lo livremente. Certamente, se um caminho foi apartado para mim, posso usá-lo nem nenhum temor; e o caminho a Deus e ao céu por meio de Jesus Cristo está dedicado pelo Salvador para os pecadores; é o caminho real do Rei para os viajantes que vão destino à Cidade de Deus; portanto, usem-no. “Que ele nos abriu!” Benditas palavras!

Por último, é um caminho pleno de Cristo; pois quando vamos a Deus, vamos por meio de Sua carne. Não podemos ir a Jeová, exceto pelo Deus encarnado. Deus em carne humana é nosso caminho a Deus; a morte substitutiva do Verbo feito carne é assim mesmo o caminho ao Pai. Não podemos ir a Deus, exceto por representação. Jesus nos representa diante de Deus, e vamos a Deus por meio Dele, quem é nossa cabeça do pacto, nosso representante e precursor diante o trono do Altíssimo. Não intentemos jamais orar sem Cristo; não tentemos jamais cantar sem Cristo; não intentemos jamais pregar sem Cristo. Não realizemos nenhuma função santa, nem pretendamos ter comunhão com Deus de nenhum tipo, exceto através desse rasgão que Ele fez no véu com Sua carne, santificado por nós, e oferecido sobre a cruz a nosso favor.

Amado, terei terminado quando tenha ressaltado dois versículos, que são necessários para completar o sentido, porem que me vi obrigado a omitir hoje, pois não haveria tempo para considerá-los. Somos chamados para tomar santas liberdades com Deus. “Aproximemo-nos”, de imediato, “com coração sincero, em plena certeza de fé.” Façamo-lo livremente, pois temos um grandioso Sumo Sacerdote. O versículo 21 nos recorda isso. Jesus é o grande Sacerdote, e nós somos sub-sacerdotes abaixo Dele, e posto que Ele nos ordena que nos acerquemos a Deus, e Ele mesmo nos ensina o caminho, sigamos-lhe ao recôndito do santuário. Porque Ele vive, nós também viveremos. Não morreremos no Santo dos Santos, a menos que Ele morra. Deus não nos golpeará a menos que golpeie a Cristo. Assim, “tendo um grande sacerdote sobre à casa de Deus, nos aproximemos com coração sincero e plena certeza de fé.”

E logo o apóstolo nos disse que não somente podemos vir com liberdade, porque nosso Sumo Sacerdote vai adiante no caminho, mas sim porque nós mesmo estamos preparados para entrar. O sumo sacerdote tinha que fazer duas coisas antes que pudesse entrar: uma era ser aspergido com sangue, e isso o temos; pois temos “purificados os corações de má consciência.”

O outro requisito para os sacerdotes era que tivessem “lavados os corpos com água pura.” Isso temos recebido de maneira simbólica em nosso batismo, e em realidade, no lavamento espiritual da regeneração. Para nós se cumpriu a oração –

“Que a água e o sangue

Que brotaram do lado ferido

Sejam do pecado a dupla cura

E me limpem de sua culpa e poder.”

Temos conhecido o lavamento da água pela Palavra, e temos sido santificados pelo Espírito de Sua graça; portanto, entremos no Lugar Santíssimo. Por que devemos permanecer afastados? Corações aspergidos com sangue, corpos lavados com água pura: esses são os preparativos ordenados para uma entrada aceitável. Aproximem-se, amados! Que o Espírito Santo seja o espírito de acesso para vocês agora. Venham a seu Deus, e logo habitem com Ele. Ele é seu Pai, seu tudo em tudo. Sentem-se e alegrem-se Nele; tomem sua porção de amor e não permitam que sua comunhão seja interrompida daqui ao céu. Por que haveria de ser interrompida? Por que não começar hoje essa doce alegria de reconciliação perfeita e deleite em Deus, que irá aumentando em intensidade até que possam ver ao Senhor em visão aberta,  e já seja que não saia mais dali? O céu trará uma grande mudança de condição, mas não em nossa posição, se ainda agora mesmo já estamos por detrás do véu. Será somente uma mudança como a que existe entre o dia perfeito e a aurora; pois temos o sol mesmo, e a luz mesma provenientes do sol, e o mesmo privilégio de caminha a plena luz. “Até que aponte o dia, e as sombras fujam, volte-se, amado meu, se semelhante ao corço, ou como o cervo sobre os montes da Divisão.” Amém e Amém.

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Porção da Escritura lida antes do Sermão: Hebreus 10


[1] Jeová-Shammah é uma transliteração cristã do hebraico יְהוָה significado שָׁמָּה “O Senhor está lá”, nome dado à cidade em Ezequiel viu na visão em Ezequiel 48:35 . Estas são as palavras finais do livro de Ezequiel

[2] Spurgeon acreditava pessoalmente que o apostolo Paulo que escreveu a epístola aos Hebreus: porem, não é consenso geral entre pastores e teólogos. (Nota do Tradutor)

[3] John Ryland foi um pregador batista do século 18; foi pastor na Inglaterra, com interesses missionários e pastorais (http://www.johnryland.co.uk/)

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2 ideias sobre “O Véu Rasgado (7º sermão especial de Páscoa, de C.H.Spurgeon)

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