Os Milagres Posteriores a Morte de Jesus (8º Sermão de Páscoa, de C.H.Spurgeon)

No. 2059

Sermão pregado a noite Domingo de 1º de abril de 1888.

Por Charles Haddon Spurgeon.

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

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“E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito. E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras; E abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados; E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos..”(Mateus 27:50-53)

A morte de nosso Senhor é um prodígio ocorrido em um entorno de maravilhas. Traz-nos a memória ao diamante Koh-í-noor [1] rodeado de um círculo de pedras preciosas. Assim como o sol em meio dos planetas que o rodeiam, ofusca a todos com seu brilho, assim a morte de Cristo é mais prodigiosa que os portentos que ocorreram nesse momento. No entanto, depois de ter visto ao sol, nos agrada estudar os planetas; da mesma forma, depois de crer na morte única de Cristo, e de colocar nossa confiança Nele como o Crucificado, consideramos um grande prazer examinar em detalhes quatro maravilhas planetárias mencionadas no texto, que circundam o grandioso sol da morte de nosso Senhor.

Os prodígios são esses: o véu do templo de rasgou em dois; a terra tremeu; as rochas se partiram; os sepulcros se abriram.

I. Vamos nos referir ao primeiro desses milagres. Essa noite, não posso estender-me muito. Não tenho forças. Quero simplesmente sugerir alguns pensamentos.

Considerem O VÉU RASGADO, ou os mistérios revelados. Pela morte de Cristo o véu do templo se rasgou em dois, de cima abaixo, e os mistérios que tinham estado ocultos no Santo dos Santos, ao longo de muitas gerações, foram expostos ao olhar de todos os crentes. Começando, por assim dizer, no superior, na Divindade de Cristo, e seguindo até a parte inferior da humanidade de Cristo, o véu se rasgou, e tudo foi descoberto aos olhos espirituais. Continuar lendo

O Véu Rasgado (7º sermão especial de Páscoa, de C.H.Spurgeon)

No. 2015

Sermão pregado na manhã de Domingo de 25 de março de 1888.

Por Charles Haddon Spurgeon.

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

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COMPRE A COLEÇÃO DE SERMÕES DE PASCOA “PAIXÃO DE CRISTO”, impressos pela Editora Interferência, que traduzimos em 2011 pelo Projeto

“E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito. E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras;” (Mateus 27:50-51).

 

“Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, [pela] sua carne, E tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa,” (Hebreus 10:19-22).

 

A morte de nosso Senhor Jesus Cristo esteve com toda razão rodeada de milagres; porem, ela mesma é uma maravilha mais grandiosa que tudo o que ocorreu, e excede a todos esses milagres da mesma maneira que o sol brilha mais que os planetas que o rodeiam. Resulta muito natural que a terra tremesse, e que os sepulcros se abrissem, e que o véu do templo se rasgasse, quando Aquele que unicamente tem a imortalidade, entrega Seu espírito. Quanto mais pensem na morte do Filho de Deus, mais se assombrarão por ela. Da mesma forma que um milagre supera a um feito comum, assim, essa maravilha de maravilhas eleva-se acima de todos os milagres de poder.

Que o divino Senhor, ainda que coberto com o véu de carne mortal, tenha condescendido a sujeitar-se ao poder da morte, ao ponto de inclinar Sua cabeça na cruz, e submeter-se a ser depositado na tumba, é o maior dos mistérios. A morte de Jesus é a maravilha do tempo e da eternidade, e, assim como a vara de Arão devorou todas as demais, essa morte absorve em si todas as maravilhas menores.

No entanto, o rasgo do véu do Templo não é um milagre que deva se considerar sem atenção. Ele havia sido fabricado de “um linho retorcido, com querubins de obra primorosa.” Isso nos dá a ideia de uma tela resistente, de uma peça de tapeçaria duradoura, capaz de resistir a mais severa tensão. Nenhuma mão humana teria sido capaz de romper essa coberta sagrada; e não teria podido ser dividida em duas por alguma causa acidental; no entanto, e é estranho dizê-lo, no instante em que a santa pessoa de Jesus foi rasgada pela morte, o grandioso véu que ocultava ao Santo dos Santos “se rasgou em dois de cima abaixo.” O que isso significa? Significava muito mais do que posso dizer-lhes agora.

Não é algo extravagante considerá-lo como um solene ato de dor por parte da casa de Deus. No Oriente, os homens expressam sua dor rasgando suas vestes; e o Templo, quando viu seu Senhor morrer, parecia golpeado pelo horror e rasgou seu véu. Sacudido pelo pecado do homem, indignado pela morte de seu Senhor, em sua simpatia por Aquele que é o verdadeiro Templo de Deus, o símbolo externo rasgou sua santa vestimenta de cima abaixo. Por acaso não significou também, esse milagre, que a partir dessa hora, todo o sistema de tipos, sombras e cerimônias haviam chegado a seu fim? As ordenanças de um sacerdócio terreno foram rasgadas com esse véu. Em sinal da morte da lei cerimonial, sua alma abandonou o sagrado santuário, e deixou seu tabernáculo corpóreo como algo morto. A dispensação legal havia terminado.

O véu rasgado parecia dizer: “a partir desse momento, Deus já não habita mais na densa escuridão do Santo dos Santos, e não brilha mais em meio dos querubins. O recinto especial foi aberto, e já não existe um santuário interior ao que posso entrar o sacerdote terreno: as expiações e os sacrifícios que serviam de tipo, chegaram a seu fim.”

De conformidade à explicação dada em nosso segundo texto, o rasgo do véu significou principalmente, que o caminho ao Lugar Santíssimo, que não havia sido manifesto antes, ficava agora aberto a todos os crentes. Uma vez ao ano, o sumo sacerdote levantava solenemente uma ponta desse véu, com temor e tremor, e com sangue e santo incenso passava à imediata presença de Jeová; porem, o rasgão do véu abriu o lugar secreto. O rasgo de cima abaixo proporcionará amplo espaço para que entrem todos os que são chamados pela graça de Deus, para que se aproximem ao trono e tenham comunhão com o Eterno.

Sobre esse tema tentarei falar no dia de hoje, rogando no íntimo de minha alma que vocês e eu, junto com todos os outros crentes, tenhamos o valor de entrar realmente ao lugar detrás do véu, nesse momento que nos congregamos para adorar. Oh, que o Espírito de Deus queira nos conduzir à comunhão mais próxima que possam ter os homens mortais com o infinito Jeová!

Em primeiro lugar, nessa manhã, lhes pedirei que considerem o que foi feito. O véu foi rasgado. Em segundo lugar, recordaremos o que possuímos por essa causa: temos “liberdade para entrar no Lugar Santíssimo pelo sangue de Jesus Cristo”. Logo, em terceiro lugar, consideraremos como exercitamos essa graça: “entramos pelo sangue de Jesus Cristo, pelo caminho novo e vivo que ele nos abriu através do véu, isso é, sua carne.” Continuar lendo

“Está Consumado!” (6º sermão especial de Páscoa, de C.H.Spurgeon)

Nº 421

Um sermão pregado na manhã do Domingo 1º de Dezembro, 1861

por Charles Haddon Spurgeon

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

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“E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.” João 19: 30

 

 

Meus irmãos, gostaria que vocês observassem com atenção a singular clareza, o poder e a vivacidade da mente do Salvador, nas últimas agonias da morte. Quando as dores e os gemidos acompanham a última hora, frequentemente têm o efeito de descompor a mente, de tal forma que não é possível que o moribundo recolha seus pensamentos, ou, tendo-os recolhido, que possa expressá-los de tal maneira que outras pessoas os entendam. Em nenhum caso podemos esperar um notável exercício da memória de um homem a ponto de expirar, ou um juízo profundo sobre temas complexos. Mas os últimos atos do Redentor estiveram cheios de sabedoria e prudência, ainda que seus sofrimentos tenham sido agudos, além de toda medida. Observem o quão claramente Ele percebeu o significado de cada figura! Quão claramente pôde ler com Seu olho agonizante esses símbolos divinos que os olhos dos anjos somente podiam olhar ansiosos! Ele viu que os segredos que surpreenderam os sábios e assombraram os videntes, se cumpriam todos em Seu próprio corpo.

Não devemos deixar de observar o poder e o alcance de Seu entendimento sobre a corrente que ligava o passado de sombras simbólicas com o presente iluminado pelo sol. Não devemos esquecer o brilho dessa inteligência que amarrava todas as cerimônias e os sacrifícios em um único fio de pensamento, e considerava todas as profecias como uma grandiosa revelação única, e todas as promessas como os arautos de uma pessoa, e que logo disse de tudo isso, “Está consumado, consumado em mim.”

Que vivacidade de mente era essa que lhe permitiu atravessar todos os séculos de profecia, penetrar a eternidade do pacto, e logo antecipar as glórias eternas! E tudo isto enquanto era escarnecido por multidões de inimigos, e enquanto Suas mãos e Seus pés eram cravados na cruz! Que força mental deve ter possuído o Salvador, para elevar-se acima desses Alpes de Agonia, que tocavam as próprias nuvens. Em que condição mental tão singular se encontrava Ele no momento de Sua crucificação, para poder repassar todo o registro da inspiração!

Agora, pode parecer que esta observação não tenha grande valor, mas eu penso que precisamente seu valor está radicado em certas deduções que possam ser estabelecidas a partir dela. Às vezes escutamos que se diz: “Como Cristo pôde suportar, em tão curto tempo, o sofrimento que deveria ser equivalente aos tormentos, os eternos tormentos do inferno?” Nossa resposta é que não somos capazes de julgar o que o Filho de Deus é capaz de fazer em apenas um momento, e muito menos o que poderia fazer e o que poderia sofrer em toda Sua vida e Sua morte.

Algumas pessoas que foram resgatadas depois de estar a ponto de afogarem-se, afirmaram com frequência que a mente de um homem que está se afogando é singularmente ativa. Alguém que, depois de estar algum tempo na água, e por fim foi resgatado dolorosamente, comentou que a história de sua vida completa se agrupou em sua mente enquanto estava afundando, e que se alguém houvesse perguntado quanto tempo tinha estado na água, teria respondido que vinte anos, enquanto na verdade tinha estado ali unicamente por um momento ou dois.

O extravagante relato da viagem de Maomé montando Alborak[1], não é uma ilustração inadequada. Ele afirma que quando o anjo veio em visão para levá-lo em sua celebrada viagem para Jerusalém, atravessou todos os sete céus e viu todas as suas maravilhas e, contudo, se havia ido por tão curto tempo que ainda que a asa do anjo tivesse roçado uma bacia de água quando se foram, regressaram o suficientemente rápido para evitar que a água se derramasse. O longo sonho do impostor epiléptico pode haver ocupado realmente um segundo de tempo, nada mais.

O intelecto do homem mortal é tal que, se Deus assim o quer, quando se encontra em certos estados, pode ponderar séculos de pensamento de uma só vez; pode alcançar, em um instante, o que suporíamos que tomaria anos e anos para conhecer ou sentir. Portanto pensamos que, pela singular clareza e a vivacidade do intelecto do Salvador na cruz, é muito possível que no espaço de dois ou três horas suportou em verdade, não somente a agonia que poderia ter sido contida em séculos, mas inclusive o equivalente ao que poderia ter estado incluído no castigo eterno.

De qualquer maneira, não nos corresponde dizer que não poderia ser assim. Quando a Divindade está adornada de humanidade, a humanidade se torna onipotente para sofrer; e assim como os pés de Cristo foram uma vez onipotentes para caminhar sobre os mares, assim também seu corpo inteiro se tornou todo poderoso para submergir-se nas grandes águas, e para suportar uma imersão em “agonias desconhecidas.” Lhes rogo que não tentemos medir os sofrimentos de Cristo com a linha finita de nossa própria razão ignorante, mas que devemos saber e crer que o que Ele suportou ali, foi aceito por Deus como o equivalente de todas as nossas dores e, portanto, não poderia ter sido algo sem valor; mas foi tudo o que Hart concebeu que era, quando diz que Ele carregou com:

 

 

“Tudo o que o Deus encarnado podia suportar,
Com a força suficiente, mas toda Sua força requerida.”

Não duvido que minha mensagem ilustrará de maneira mais clara a observação com a qual comecei; procedamos a ele de imediato. Primeiro, ouçamos o texto e o entendamos; logo, ouçamos e maravilhemo-nos dele; e logo, em terceiro lugar, o ouçamos e o proclamemos.

I. OUÇAMOS O TEXTO E O ENTENDAMOS.

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As Três Horas de Trevas (5º sermão especial de Páscoa de C.H.Spurgeon)

No. 1896

Sermão pregado no Domingo de 18 de Abril de 1886.

Por Charles Haddon Spurgeon.

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres

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“E desde a hora sexta houve trevas sobre toda a terra, até à hora nona. ” (Mateus 27:45).

Desde as nove da manhã até ao meio-dia, a luz do Sol iluminou com toda sua intensidade usual; de tal forma que os adversários de nosso Senhor tiveram tempo suficiente para contemplar e insultar Seus sofrimentos. Não poderia haver nenhum equivoco a respeito do fato de que Ele estava realmente cravado na cruz. Pois, Ele foi crucificado em plena luz do dia. Estamos plenamente convencidos que foi Jesus de Nazaré, já que tanto seus amigos como seus inimigos foram testemunhas oculares de Sua agonia: durante três longas horas os judeus estiveram sentados ali o contemplando na cruz, zombando de Suas misérias.

Dou graças por essas três horas de luz. Do contrário, os inimigos de nossa fé teriam questionado se verdadeiramente o corpo bendito de nosso Senhor foi cravado na cruz, e haveriam dado motivo a inumeráveis fantasias, tão abundantes como os morcegos e as corujas que rondam na escuridão. Onde estariam as testemunhas dessa solene cena se o sol estivesse oculto desde manhã até de noite? Posto que três horas de luz proporcionaram a oportunidade de que se verificasse e de que se pudesse dar testemunho do fato, vemos nisso a sabedoria que não permitiu que a luz se dissipará tão rapidamente.

Nunca percam de vista que esse milagre de fechar os olhos do dia, exatamente ao meio-dia, foi realizado por nosso Senhor em Sua debilidade. Ele havia caminhado sobre o mar, ressuscitado mortos, e sarado aos enfermos nos dias de Sua força; porem, agora, decaiu baixíssimo, tem febre, sem forças e sedento. Ele se movimenta nos limites da dissolução; no entanto, possui o poder de escurecer o sol exatamente ao meio-dia. Ele é ainda verdadeiro Deus de verdadeiro Deus.[1]

 

Olhem, uma torrente púrpura derrama-se

Desde  Suas mãos e de Sua cabeça,

A maré vermelha apaga o sol;

Seus gemidos despertam os mortos.”

Se Ele pode fazer isso em Sua debilidade, o que não poderá fazer em Seu poder? Não esqueçam que esse poder foi desdobrado em uma área na que Ele usualmente não manifestou Sua força. A área de Cristo é de bondade e benevolência, e conseguintemente, de luz. Quando Ele adentra nas áreas de convocar à escuridão ou de chamar à juízo, Ele ocupa-se daquilo que Ele nomeia Sua estranha obra. As obras de Sua mão esquerda são maravilhas de terror. Somente de vez em quando que Ele faz com que o sol se oculte ao meio-dia, ou escurece a terra em dia claro (Amós 8:9).

Se nosso Senhor pôde trazer a escuridão ao morrer, que glória não poderíamos esperar agora que Ele vive para ser luz da cidade de Deus para sempre? O Cordeiro é a luz, e que luz! Os céus mostram as pistas de Seu poder agonizante, e perdem seu brilho. Por acaso os novos céus e a nova terra não darão testemunho do poder do Senhor ressuscitado? As densas trevas que rodeiam ao Cristo moribundo são as vestes do Onipotente: Ele vive outra vez, e tem todo o poder em Suas mãos, e todo esse poder o empregará para abençoar Seus eleitos.

Que chamado deve ter sido para os despreocupados filhos dos homens, esse meio-dia convertido em meia-noite! Eles não sabiam que o Filho de Deus estava em meio deles; nem que Ele estava cumprindo a redenção humana. A hora mais grandiosa de toda a história humana dava a impressão que passaria sem que se a notasse, quando, subitamente, a noite saiu apressadamente de suas habitações e usurpou o dia. Todo mundo perguntou a seu companheiro: “o que essa escuridão significa?” Os negócios foram paralisados: o arado ficou no meio do sulco e o machado não pode ser alçado. Era meio-dia, justo quando os homens encontram-se mais ocupados; porem, todos eles fizeram uma pausa geral. Não só no Calvário, mas também em todas as colinas, e em cada vale, as trevas baixaram. Houve um hiato na caravana da vida. Ninguém podia se mover exceto buscando seu caminho as apalpadas, tal como os cegos o fazem. O dono da casa pediu que a luz fosse acesa ao meio-dia, e o servente, tremendo, obedeceu essa ordem inusitada. Outras luzes também brilhavam, e Jerusalém era uma cidade submersa na noite, mas os homens não estavam em suas camas. Como a humanidade estava surpreendida! Em volta desse grandioso leito de morte conseguiu-se uma quietude apropriada. Não duvido que um gélido terror apoderou-se das massas das pessoas, e que os homens prudentes anteciparam coisas terríveis. Os que tinham permanecido ao redor da cruz, e se atreveram a insultar a majestade de Jesus, estavam paralisados de terror. Eles cessaram com sua obscenidade e deixaram de cruelmente se alegrarem. Até mesmo os mais vis deles estavam atemorizados, ainda que não convencidos – os demais “se golpeavam nos peitos.” Os que puderam, sem dúvida, foram tremulantes para suas casas trataram de se esconder, por medo dos terríveis juízos que, temiam, teriam que encarar.

Não me surpreende que existam tradições de coisas estranhas que foram ditas no silêncio dessas trevas. Esses sussurros do passado podem ou não ser verdadeiros; foram tema de controvérsia dos estudiosos, porem o esforço da disputa foi energia mal gasta. No entanto, não nos surpreenderia que alguém tenha dito, como afirmam alguns repórteres: “Deus está sofrendo ou o mundo está perecendo.” Nem irei eliminar de minhas crenças a lenda poética que afirma que o piloto egípcio de um barco, navegando rio abaixo entre seus bancos cheios de juncos, escutou uma voz que saia da sussurrante flora, dizendo: “O grandioso Pão morreu.” Em verdade, o Deus da natureza estava expirando, e coisas ainda mais ternas que os juncos da ribanceira tremeriam diante desse som.

Somos informados que essas trevas cobriram toda a terra; e Lucas diz: “sobre toda a terra.” Essa parte de nosso globo na que correspondia à noite natural, não foi afetada; porem, para todos os homens que estavam despertos, e que se encontravam em seus trabalhos, era o aviso de um grandioso e solene evento. Era estranho além de toda experiência, e todos os homens se maravilharam; pois, quando a luz devia de ter tido maior brilho, todas as coisas foram escurecidas pelo espaço de três horas.

Deve existir um grande ensino nessas trevas; pois quando nos aproximamos da cruz, que é o centro da história, cada evento está repleto de significado. Luz saltará dessas trevas. Amo sentir a solenidade das três horas de sombras de morte, assentar-me ali e meditar, sem nenhuma companhia, exceto ao Augusto Sofredor, em cujo redor desceram as trevas. Irei apresentar quatro pontos, segundo o Espírito Santo me guie. Primeiro, inclinemos nossos espíritos na presença de um milagre que nos assombra; em segundo, consideremos essas trevas como um véu que esconde; em terceiro, como um símbolo que instrui; e em quarto lugar, como um demonstração de simpatia, que nos serve de advertência pelas profecias que implica. Continuar lendo

O Ladrão Que Creu (4º sermão especial de Páscoa) de C.H.Spurgeon

No. 2078

Sermão pregado na manhã de Domingo, 7 de Abril de 1889.

Por Charles Haddon Spurgeon.

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

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CONFIRA SERMÕES DE PASCOA “PAIXÃO DE CRISTO” IMPRESSOS

“Então disse: Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino. Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:42, 43).

 

Faz algum tempo que preguei sobre a história completa do ladrão moribundo. Não me proponho a fazer o mesmo no dia de hoje, somente quero vê-lo desde um ponto de vista específico. A história da salvação do ladrão agonizante é um exemplo notável do poder de salvação de Cristo, e de sua abundante disposição para receber a todos que vêm a Ele, em qualquer condição em que possam estar. Não posso considerar este ato de graça como um exemplo solitário, como tampouco a salvação de Zaqueu, a restauração de Pedro, ou o chamado de Saulo, o perseguidor.

Em certo sentido, toda conversão é única: não há duas iguais, e contudo, qualquer conversão é um modelos de outras. O caso do ladrão moribundo é muito mais semelhante à nossa conversão, do que diferente; de fato, seu caso se pode considerar mais como típico do que como um fato extraordinário, e assim o considerarei neste momento. Que o Espírito Santo fale por ele para alentar aqueles que estão à beira do desespero!

Recordem, amados amigos, que nosso Senhor Jesus, no momento que salvou a esse malfeitor, estava em seu ponto mais baixo. Sua glória havia minguado no Getsêmani, e diante de Caifás, Herodes e Pilatos; mas agora havia alcançado seu nível mais baixo. Despido de sua túnica, e cravado na cruz, a atrevida multidão zombava de nosso Senhor que, agonizante, estava morrendo; então Ele “foi contado entre os transgressores” e foi feito como escória de todas as coisas. Contudo, ainda nessa condição, concluiu esse maravilhoso ato de graça. Vejam a maravilha produzida pelo Salvador despojado de toda Sua glória, e pregado no madeiro em um espetáculo de vergonha, à beira da morte! Quão certo é que pode fazer grandes maravilhas de misericórdia agora, visto que regressou a Sua glória, e está assentado no trono de luz! “Pode salvar por completo aos que por meio dele se achegam a Deus, posto que vive para sempre para interceder por eles”.

Se um Salvador agonizante salvou o ladrão, meu argumento é que Ele pode fazer ainda mais agora que vive e reina. Todo poder no céu e na terra Lhe foi dado; pode algo no momento presente se sobrepor ao poder de Sua graça? Não é somente a debilidade de nosso Salvador que faz memorável a salvação do ladrão penitente; é o fato de que o malfeitor moribundo o viu diante de seus próprios olhos. Você pode se pôr em seu lugar, e imaginar a alguém que está suspenso em agonia de uma cruz? Poderia facilmente crer que era o Senhor da glória, e que logo iria a seu reino?

Não seria pouca a fé para que, em um momento assim, cresse em Jesus como Senhor e Rei. Se o apóstolo Paulo estivesse aqui, e quisesse agregar um versiculo ao Novo Testamento, ao capítulo onze do Livro de Hebreus, começaria certamente seus exemplos de fé admirável com a fé deste ladrão, que creu em um Cristo crucificado, ridicularizado e agonizante, e clamou a Ele como a alguém cujo reino viria com certeza. A fé do ladrão foi ainda mais notável porque estava sob uma terrível dor, e condenado a morrer. Não é fácil exercitar a paciência quando se é torturado por uma angústia mortal. Nosso próprio descanso mental às vezes se vê perturbado pela dor do corpo quando somos sujeitados por um sofrimento agudo, não é fácil mostrar essa fé que cremos possuir em outras situações. Este homem, sofrendo como estava, e vendo ao Salvador em um estado tão triste, contudo, ainda assim creu para a vida eterna. Fala aqui uma fé que raramente se vê.

Recordem, também, que estava rodeado de zombadores. É fácil nadar com a corrente, mas é duro ir contra ela. Este homem ouviu os sacerdotes orgulhosos, quando ridicularizavam ao Senhor, e a grande multidão do povo, todos a uma só voz, unirem-se no escárnio; seu companheiro captou o espírito da hora e também zombou, e ele talvez tenha feito o mesmo por um breve momento; mas pela graça de Deus foi transformado, e creu no Senhor Jesus apesar de todo seu desprezo. Sua fé não foi afetada pelo que o cercava;  ele, pelo contrário, ladrão agonizante como era, se reafirmou em sua confiança. Como uma rocha saliente, colocada no meio da torrente de águas, declarou a inocência do Cristo, de quem outros blasfemavam. Sua fé é digna de que a imitemos em seus frutos. Nenhum outro membro de seu corpo estava livre exceto sua língua, e a utilizou sabiamente para repreender a seu irmão malfeitor, e defender ao Seu Senhor. Sua fé tornou manifesto um valente testemunho e uma confissão ousada. Não vou elogiar o ladrão, ou a sua fé, mas a exaltar a glória dessa graça divina que deu ao ladrão uma fé assim, e logo imerecidamente o salvou por seu meio. Estou ansioso de mostrar quão glorioso é o Salvador, esse Salvador que salva de maneira completa, aquele que em um momento assim, pôde salvar a esse homem, e dar-lhe uma fé tão grande, e tão perfeita e rapidamente prepará-lo para a felicidade eterna. Vejam o poder desse Espírito que podia produzir tal fé em um solo tão pouco promissor, e em um clima tão pouco propício. Entremos de imediato no centro do nosso sermão.

Primeiro, observem ao homem que foi o último companheiro de nosso Senhor na terra; segundo, observem que esse mesmo homem foi o primeiro companheiro de nosso Senhor na porta do paraíso; e terceiro, vejamos o sermão que nosso Senhor nos prega neste ato de graça. Oh, que o Espírito Santo abençoe este sermão do princípio ao fim!

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