Amor sem Medida : um sermão em João 3:16

NO. 1850

Sermão pregado em 7 de Junho de 1885 por Charles Haddon Spurgeon

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna.” João 3:16.(ACF)

Fiquei muito surpreso noutro dia quando, ao repassar a lista de textos sobre os quais preguei, descobri que não há nenhum rastro de já ter pregado em outra oportunidade acerca deste versículo. Isto chama muito a minha atenção, pois posso dizer verdadeiramente que este texto pode encabeçar todos os volumes dos meus sermões como o único tema tratado ao longo do meu ministério. O único trabalho da minha vida tem sido proclamar o amor de Deus pelos homens em Cristo Jesus.

Há pouco tempo atrás escutei um comentário sobre um ministro ancião, de quem se dizia: “Independentemente de qual tenha sido o texto, ele nunca deixava de pregar a Deus como amor, e a Cristo como a expiação pelo pecado.”  Eu queria que pudessem dizer o mesmo de mim. O desejo do meu coração tem sido lançar ao vento, como se fosse uma trombeta, as boas novas de que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

 Em breve nos sentaremos ao redor da mesa da comunhão e não posso pregar acerca deste texto nada além de um simples sermão evangélico. Podem desejar uma preparação melhor para a comunhão? Temos comunhão com Deus e com nossos irmãos sobre a base do infinito amor que é manifestado em Jesus Cristo nosso Senhor. O Evangelho é a bela toalha de linho branco que cobre a mesa na qual se celebra a Festa da Comunhão.

 As verdades mais elevadas, que pertencem a uma experiência de maior luz, verdades mais ricas que apregoam a comunhão com a vida mais elevada: todas são de muita ajuda para a santa comunhão; porém, estou certo que não mais que essas verdades essenciais e fundamentais que foram os meio pelos quais entramos pela primeira vez no reino de Deus.

 Tanto os bebês em Cristo como os homens em Cristo se alimentam aqui com o mesmo alimento. Vamos, vocês que são santos entrados em anos, sejam crianças de novo; e vocês que conhecem o Senhor por um longo tempo, tomem seu primeiro abecedário, e repassem o ABC novamente, ao aprender que Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho para que morrera, afim de que o homem pudesse viver por meio dEle. Não estou convido-lhes para uma lição elementar porque vocês esqueceram as primeiras letras, mas sim porque é uma boa coisa refrescar a memória, e é uma benção sentir-se jovem de novo. O que sempre se conheceu como o abecedário, não contém mais que letras; contudo todos os livros no nosso idioma se escrevem utilizando essa fileira de letras: por isso eu os convido a irem outra vez até a cruz, a irem a Ele que sangrou na cruz.

É bom que todos nós regressemos, ocasionalmente, ao nosso ponto de partida, de modo a nos assegurar que estamos indo bem pelo caminho eterno. É mais provável que o amor de nossos cônjuges continue se, uma e outra vez, retornamos ao ponto onde Deus começou conosco e onde nós começamos com Deus pela primeira vez. É bom que venhamos a Ele outra vez, como viemos naquele primeiro dia quando, desvalidos, necessitados, carregados, estivemos chorando ao pé da cruz, e deixamos nossa carga junto a Seus pés traspassados. Ali aprendemos a olhar, a viver e a amar; e ali queremos repetir a lição até que possamos nos apresentar de maneira perfeita na glória.

Hoje temos que falar acerca do amor de Deus: “Deus amou o mundo de tal maneira”. Esse amor de Deus é uma coisa muito maravilhosa, especialmente quando o vemos derramado sobre um mundo perdido, arruinado, culpado. O que havia no mundo para que Deus o amasse dessa maneira? Não havia nada amável nele. Nenhuma flor perfumada crescia neste árido deserto. Inimizade contra Ele, ódio pela Sua verdade, desprezo pela Sua lei, rebelião contra Seus mandamentos; esses eram os espinhos e sarças que cobriam a terra baldia; nenhuma coisa desejável florescia ali.

Entretanto, o texto nos diz que: “Deus amou o mundo.” O amou “de tal maneira” que nem mesmo o escritor do livro de João poderia quantificá-lo; mas o amou de uma maneira tão grande, tão divina, que deu o Seu Filho, Seu único Filho, para que redimisse o mundo de perecer, e para que juntasse do mundo um povo para Seu louvor.

De onde veio esse amor? Não de nada externo ao próprio Deus. O amor de Deus surge dEle mesmo. Ele ama porque fazê-lo é a Sua natureza. “Deus é amor”. Conforme mencionei, nada sobre a face da terra pode ter merecido o Seu amor. Ao contrário, havia muito que merecia Seu desagrado. Esta corrente de amor flui de Sua própria fonte secreta na Deidade eterna, e não deve nada a nenhuma chuva procedente da terra, nem a nenhum riacho; brota de debaixo do trono eterno, e se abastece das fontes do infinito. Deus amou porque Ele quis amar. Quando nos perguntamos por que Deus amou esse ou aquele homem, temos que regressar à resposta de nosso Salvador a essa pergunta: “Sim, Pai, porque assim lhe agradou”

Deus tem tal amor em Sua natureza que precisa deixá-lo fluir em direção a um mundo que está perecendo por causa de seu próprio pecado voluntário. E quando fluiu era tão profundo, tão largo, tão forte, que nem sequer a inspiração podia calcular sua medida e, portanto, o Espírito Santo nos deu essas grandiosas palavras, DE TAL MANEIRA, deixando que intentemos medi-lo, conforme vamos percebendo mais e mais esse amor divino.

Agora, houve uma ocasião na qual o grandioso Deus quis manifestar Seu amor sem medida. O mundo tristemente havia se extraviado, havia perdido a si mesmo; o mundo foi julgado e condenado; foi entregue a perecer, por causa de suas ofensas; e tinha necessidade de ajuda. A queda de Adão e a destruição da humanidade abriram um amplo espaço, assim como suficiente margem para o amor Todo Poderoso. Em meio às ruínas da humanidade, tinha espaço para mostrar quanto Jeová amava os filhos dos homens; pois o alcance do Seu amor abarcava o mundo, o objeto desse amor era precisamente resgatar os homens para que não caíssem no abismo, e o resultado desse amor foi encontrar um resgate para eles.

O propósito específico desse amor era tanto negativo quanto positivo; era que, crendo em Jesus, os homens não perecessem, mas que alcançassem a vida eterna. A desesperada enfermidade do homem foi o motivo da introdução desse remédio divino que unicamente Deus poderia ter planejado e ministrado. Por meio do plano de misericórdia, e do grandioso dom que se requeria para levar a cabo esse plano, o Senhor encontrou o meio para manifestar seu amor sem limite aos homens culpados.

Se não houvesse existido nenhuma queda, e nenhuma morte, Deus poderia nos mostrar o Seu amor da mesma maneira que faz com os espíritos puros e perfeitos que rodeiam Seu trono. Entretanto, jamais poderia mostrar Seu amor a nós de tal maneira especial como agora o faz. Na dádiva de Seu Filho unigênito, Deus revela Seu amor para conosco, na medida em que, sendo nós ainda pecadores, a seu tempo morreu Cristo pelos ímpios.

O fundo negro do pecado faz ressaltar muito mais claramente o fulgor da linha do amor. Quando o relâmpago escreve com dedos de fogo o nome do Senhor na amplidão da escura face da tempestade, nos achamos forçados a vê-Lo; assim também o quando o amor inscreve a cruz sobre as negras tábuas de nosso pecado, ainda os olhos que não podem ver estão obrigados a ver que “Nisto consiste o amor.”

Poderia tratar meu texto de mil maneiras diferentes no dia de hoje. Mas em favor da simplicidade, e para apegar-me ao único ponto de proclamar o amor de Deus, quero fazer-lhes ver quão grande é esse amor por meio de cinco considerações.

 

I. A primeira consideração é o DOM: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira,  que deu o Seu Filho unigênito.” Os homens que amam muito estão prontos a dar muito, e usualmente podem medir a verdade deste amor através de seus sacrifícios e renúncias. Esse amor que não guarda nada para si, mas se esgota em ajudar e abençoar o seu objeto, e o verdadeiro amor, e não apenas um amor de nome. O pouco amor se esquece de trazer água para lavar os pés, mas o grande amor quebra o vaso de alabastro e derrama seu valioso perfume.

 

Então considerem qual foi o dom que Deus deu. Não poderia encontrar a expressão correta se tentasse explicar completamente o que é esta bênção que não tem preço; e não vou arriscar-me a fracassar ao tentar o impossível. Unicamente vou convidá-los a pensar na sagrada Pessoa que foi dada pelo Pai para demonstrar Seu amor para com os homens. Tratava-se do Seu unigênito Filho: Seu Filho amado, em quem tinha Sua complacência.

 

Nenhum de nós teve um filho assim para dá-lo. Nossos filhos são filhos de homens;

o dEle era Filho de Deus. O Pai deu parte de Si mesmo, Ele que era Um com Ele. Quando o grandioso Deus deu a Seu Filho estava dando a Si próprio, pois Jesus, em sua natureza eterna não é menos que Deus. Quando Deus deu a Deus por nossa causa, estava se dando a Si mesmo.  Quem pode medir este amor?

 

Vocês que são pais, julguem o quanto amam a seus filhos: poderiam entregá-los à morte por causa de seus inimigos? Vocês que têm um filho único, julguem quão entrelaçados estão seus corações ao seu primogênito, ao seu unigênito filho. Não houve uma maior prova do amor de Abraão a Deus do que quando não vacilou em entregar-Lhe seu filho, seu único filho, seu Isaque amado; e certamente não pode haver uma maior manifestação de amor que a do Eterno Pai, ao entregar o Seu unigênito Filho à morte por nós.

 

Nenhum ser vivente está disposto a perder a sua prole; o homem sofre uma dor muito aguda quando perde um filho. Acaso Deus não o sofre ainda mais? Há uma história muito popular relativa ao carinho de uns certos pais para com seus filhos. A história relata que houve fome na terra, no Leste, e que um pai e uma mãe se viram sem absolutamente nada para comer, e a única possibilidade de preservar a vida da família seria vender um dos filhos para que fosse escravo. Então os pais consideraram o assunto. O tormento de fome se tornou intolerável, e as súplicas de seus filhos pedindo pão puxavam dolorosamente as cordas de seus corações de tal maneira, que tiveram que retomar seriamente a idéia de vender a um deles, para salvar a vida de todos os demais. Tinham quatro filhos. Qual deles deveria ser vendido? Certamente não devia ser o maior: como poderiam desfazer-se de seu primogênito? O segundo, era tão parecido com seu pai que parecia uma miniatura dele, e a mãe disse que ela nunca se separaria dele. O terceiro era tão singularmente como sua mãe que o pai disse que preferiria morrer antes que este querido filho se convertesse em um escravo; e com relação ao quarto filho, ele era o Benjamim, seu caçula, seu amado filho, e não podiam separar-se dele. Finalmente concluíram que seria melhor morrerem todos juntos para não terem que separar-se voluntariamente de algum de seus filhos.

Vocês não simpatizam com esses pais? Vejo que simpatizam sim. Contudo, Deus nos amou de tal maneira que, para dizê-lo com muita ênfase, pareceria que nos amou mais que a Seu único Filho e não livrou a Ele, para perdoar-nos. Deus permitiu que entre todos os homens, Seu filho perecesse “para que todo aquele que nEle crê, não pereça, mas tenha vida eterna.”

Se desejarem ver o amor de Deus neste grande procedimento, devem considerar como Ele deu a Seu Filho. Ele não entregou a Seu Filho, como tu poderias fazer, a alguma profissão que teria como consequência desfrutar de sua companhia; senão que mandou o Seu Filho ao exílio entre os homens. O enviou à terra naquele presépio, unido em uma perfeita humanidade, que no princípio estava contida na forma de uma criança. Ali dormia, onde se alimentava um boi com longos chifres! O Senhor Deus enviou o herdeiro de todas as coisas para que trabalhasse na oficina de um carpinteiro: martelando pregos, usando o serrote, empunhando o pincel. O enviou no meio de  escribas e fariseus, cujos olhos astutos O vigiavam e cujas línguas ferinas O açoitavam com calúnias vis. O enviou para a terra a fim de que passasse fome e sede, em meio a uma pobreza tão terrível que não tinha um lugar onde apoiar Sua cabeça. O enviou à terra para que O açoitassem e O coroassem de espinhos, e batessem nEle e O esbofeteassem. No fim, O entregou à morte: a morte de um criminoso, a morte do crucificado.

Contemplem essa cruz e vejam a angústia de Quem morre nela, e observem de que maneira o Pai O entregou e escondeu Seu rosto dEle, e pareceria que Ele não O reconhece! “Lamá Sabactâni” nos revela de que forma tão completa Deus entregou a Seu Filho para resgatar as almas dos pecadores. O entregou para que fosse feito maldição por nós; O entregou para que morresse  “o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus”.

Queridos amigos, eu posso entender que vocês se separem de seus filhos para que se dirigiram à Índia a serviço de Sua Majestade, ou vão como missionários para Camarões ou Congo, a serviço de nosso Senhor Jesus. Posso entender muito bem que os entreguem apesar da expectativa diante de vocês de peste, pois se morrerem, teriam morrido com honra por uma gloriosa causa. No entanto, acaso poderiam pensar em uma separação que os conduzirá à morte de um criminoso, sobre um patíbulo, execrados pelas mesmas pessoas a quem buscavam abençoar, despojados das roupas de seu corpo e abandonados completamente em sua mente?
Não seria tudo isso demasiado? Acaso não exclamariam “Não posso separar-me de meu filho por causa de uns canalhas como estes? Por que haveria de morrer uma morte cruel, por seres tão abomináveis, que têm o descaramento de lavar suas mãos no sangue de seu melhor amigo”?

Recordem que nosso Senhor Jesus Cristo morreu uma morte que seus concidadãos consideravam como uma morte maldita. Para os romanos, era a morte de um escravo condenado, que continha todos os elementos de dor, desonra e escárnio, mesclados ao limite máximo. “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.”
Oh, que maravilhoso o alcance desse amor, que Jesus Cristo necessitasse morrer!

Todavia, não posso deixar este ponto até fazê-los ver o preciso momento em que Deus deu a Seu Filho, pois esse momento revela amor. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito”. Porem, quando Ele fez isso? Em Seu propósito eterno, Ele fez isso desde antes da criação do mundo. As palavras utilizadas aqui, “deu o seu Filho unigênito”, não podem referir-se exclusivamente à morte de Cristo, pois Cristo não estava morto no momento em que foram ditas as palavras deste terceiro capítulo de João. Nosso Senhor acabara de falar com Nicodemos, e essa conversa teve lugar no início de Seu ministério.

O fato é que Jesus sempre foi o dom de Deus. A promessa de Jesus foi feita no jardim do Éden, quase no mesmo momento em que Adão caiu. No ponto onde se realizou nossa ruína, um  Libertador foi providenciado cujo calcanhar deveria ser ferido, mas que destroçaria a cabeça da serpente debaixo do Seu pé.

Ao longo de todos os séculos, o Pai grandioso manteve Seu dom. Ele sempre viu a seu Unigênito como a esperança do homem, a herança da semente escolhida, que nEle possuiria todas as coisas. Em cada sacrifício Deus renovava Seu dom de graça, reafirmando que Ele havia providenciado o dom e que nunca retiraria Sua promessa. Todo o sistema de tipos nos termos da lei apontava que o cumprimento do tempo em que o Senhor verdadeiramente entregaria Seu Filho para que nascendo de uma mulher, carregasse as iniquidades de Seu povo e morresse no lugar deles.

Eu admiro grandemente a persistência deste amor. Porque muitos homens, num momento de generosa excitação, podem levar a cabo um ato supremo de benevolência, e, contudo, não poderiam suportar olhar este ato com toda calma, e considerá-lo ano após ano. O fogo lento da antecipação teria sido intolerável. Se o Senhor quisesse levar  aquele menino para longe de sua mãe, ela suportaria o golpe com certa paciência, ainda que fosse algo terrível para seu coração sensível; mas suponham que ela é informada de maneira fidedigna que no dia tal e tal, seu filho deve morrer, e ter que vê-lo assim, ano após ano, como um morto, acaso não traria nuvens muito escuras para cada hora de sua vida futura? Suponham também que ela sabe que o filho será pendurado no madeiro para que morra, como um condenado, isto não amargaria sua existência? Se ela pudesse escapar dessa calamidade, não o faria? Certamente que sim!

Contudo o Senhor Deus não poupou a Seu próprio Filho, senão que  voluntariamente o entregou por todos nós, entregando-O em Seu coração através dos anos. Nisto se demonstra o amor: um amor que muitas águas não podem apagar: amor eterno, inconcebível, infinito!

Então, como este dom se refere não somente à morte de nosso Senhor, mas sim a todas as eras que a precederam, d mesma forma também inclui todas as idades posteriores. Deus “amou o mundo de tal maneira, que deu” e ainda dá “o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna”. O Senhor está entregando a Cristo no dia de hoje. Oh, que milhares de vocês aceitem com alegria o dom indizível! Alguém o rejeitará? Este dom bondoso, este dom perfeito, vocês dirão que não o querem receber? Oh, que vocês pudessem ter fé para apegar-se a Jesus, pois Ele será de vocês. Ele é o dom gratuito para os que O recebem gratuitamente: um Cristo com toda Sua abundância para encher a todos os pecadores vazios.

Se vocês simplesmente podem estender sua vazia, mas decidida mão, o Senhor lhes dará a Cristo neste mesmo momento. Nada é mais gratuito que um dom. Nada é mais digno de ter-se que um dom que nos vem diretamente da mão de Deus, tão cheio de poder efetivo como sempre o foi. A fonte é eterna, mas a corrente que flui dela é tão fresca como quando a fonte se abre pela primeira vez. Este dom não pode extinguir-se.

“Amado Cordeiro moribundo, Teu sangue precioso

Nunca perderá Seu poder

Até que toda a igreja de Deus resgatada

Seja salva para não mais pecar”.

Vejam, então, qual é o amor de Deus, que deu o Seu Filho desde o princípio, e nunca revogou seu dom. Ele cumpre com a dádiva do Seu dom e ainda continua dando Seu querido Filho a todos aqueles que querem aceitá-lO. Das riquezas de Sua graça Ele deu, está dando, e dará o Senhor Jesus Cristo e todos os dons inestimáveis que nEle estão contidos, a todos os pecadores necessitados que queiram simplesmente confiar nEle.

Com base neste primeiro ponto os exorto a admirar o amor de Deus, devido à grandiosa transcendência de Seu dom para com o mundo, o dom de Seu unigênito Filho.

II. Em segundo lugar, observemos neste momento, e penso que posso dizer que o fazemos com igual admiração, o amor de Deus NO PLANO DE SALVAÇÃO. Ele o expressou assim: “para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna.” O caminho da salvação é extremamente simples de entender, e extremamente fácil de praticar, tão logo o coração seja levado a querer e a obedecer. O método do pacto da graça dista tanto do método do pacto de obras como a luz dista das trevas.

Não se diz que Deus deu Seu Filho a todos aqueles que guardam Sua lei, pois não podemos guardá-la e, portanto, o dom não estaria disponível para nenhum de nós. Nem tampouco se diz que Ele deu Seu Filho a todos aqueles que experimentam um desespero terrível e um remorso amargo, porque isso não é sentido por muitos que, no entanto formam o próprio povo do Senhor. Mas o grandioso Deus deu a Seu Filho para que “todo aquele que nele crê” não pereça. A fé, sem importar quão fraca seja, salva a alma. A confiança em Cristo é o caminho seguro da felicidade eterna.

Agora, que significa crer em Jesus? É simplesmente isto: que vocês se confiem a Ele. Se seus corações estão prontos, ainda que nunca antes tenham crido em Jesus, eu espero que vocês creiam nEle agora. Oh Espírito Santo, por Tua graça concede-nos isto.

O que significa crer em Jesus?

É, em primeiro lugar, que vocês concordem firmemente e de coração com esta verdade: que Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, para que se pusesse no lugar dos homens culpados, e que Deus derramou nEle todas as nossas iniquidades, para que Ele recebesse o castigo merecido por nossas transgressões, havendo sido feito maldição por nossa causa. Devemos crer de todo coração na Escritura que diz: “o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas pisaduras fomos sarados.”

Peço-lhes que concordem com a grandiosa doutrina da substituição, que é a medula do Evangelho. Oh, que o Espírito Santo os leve a entender de todo coração essa doutrina de imediato; pois sendo tão maravilhosa, é um fato que Deus estava reconciliando o mundo Consigo mesmo em Cristo, não lhes imputando seus pecados. Oh, desejo que vocês possam sentir a alegria de que isto é verdade, e possam estar agradecidos que um fato tão bendito seja revelado pelo próprio Deus. Creiam que o sacrifício substitutivo do Filho de Deus é certo; não coloquem objeções ao plano, não questionem sua validade ou sua eficácia, como muitas pessoas fazem. Ai, eles pisoteiam o grandioso sacrifício de Deus, e o consideram um triste invento.

Quanto a mim, posto que Deus ordenou salvar o homem por meio de um sacrifício substitutivo, alegremente estou de acordo com Seu método, e não vejo nenhuma necessidade de fazer algo mais, a não ser admirar esse plano e adorar o Seu Autor. Eu me regozijo e me alegro que se tenha pensado em um plano assim, pelo qual a justiça de Deus é reivindicada, e Sua misericórdia fica em liberdade de fazer tudo o que Ele deseja. O pecado é castigado na pessoa de Cristo, e a misericórdia é outorgada ao culpado. Em Cristo a misericórdia é sustentada pela justiça, e a justiça é satisfeita por um ato de misericórdia.

O sábio segundo o mundo diz coisas duras acerca deste plano da sabedoria infinita; porem quanto a mim, amo o simples nome da cruz, e o considero como o centro da sabedoria, o ponto central do amor, o coração da justiça. Este é o ponto central da fé: concordar de coração com o fato de que Jesus foi entregue para que sofresse em nosso lugar, estar de acordo com toda nossa alma com esta forma de salvação.

O ponto seguinte é que tu aceites isto para ti mesmo. No pecado de Adão, tu não pecaste pessoalmente, porque ainda não existias; contudo tu caíste; e não podes te queixar disso agora, pois voluntariamente endossaste e adotaste o pecado de Adão, ao cometer transgressões pessoais. Puseste tuas mãos, por assim dizer, sobre o pecado de Adão, e te apropriaste dele, ao cometer pecados pessoais e reais. Assim, pereceste pelo pecado de outro, que tu adotaste e endossaste; e da mesma maneira deves ser salvo pela justiça de outro, justiça esta que deves aceitar e apropriar-te dela. Jesus ofereceu uma expiação, e a expiação se converte em tua quando a aceitas e põe tua confiança nEle. Quero que agora digas:

“Minha fé agora põe sua mão

Em Tua amada cabeça,

Entretanto, como penitente me levanto,

E aqui confesso meu pecado.”

Certamente este não é um assunto muito difícil. Dizer que Cristo que foi pendurado na cruz será meu Cristo, minha garantia, não necessita nenhum esforço intelectual nem caráter sólido; contudo é o ato que traz a salvação da alma.

Uma coisa mais é necessária: a confiança pessoal. Primeiro vem o estar de acordo com a verdade, e em seguida a aceitação dessa verdade aplicada a cada um; e logo um simples confiar-se inteiramente a Cristo, como um substituto. A essência da fé é a confiança, a dependência, a segurança. Joguem longe qualquer outra confiança de qualquer tipo, exceto a confiança Jesus. Não permitam nem a menor sombra de confiança em qualquer coisa que vocês possam fazer ou ser. Olhem unicamente para Ele, que Deus estabeleceu como a propiciação pelo pecado. Estou fazendo isto neste momento; vocês não farão o mesmo? Oh, que o doce Espírito de Deus os guie agora a confiar em Jesus!

Vejam então o amor de Deus ao colocar isto em termos tão simples e tão facéis. Oh, tu, pecador, que estás quebrantado, esmagado e sem esperança, tu não podes fazer nada, porem, por acaso não pode crer nisso que é verdade? Não pode suspirar; não pode gritar; não pode derreter seu coração de pedra; porem, não podes crer que Jesus morreu por ti, e que Ele pode mudar teu coração e converter-te em uma nova criatura? Se tu podes crer nisto, então confia que Jesus o fará, e serás salvo; pois quem crê nEle é justificado. “para que todo aquele que nele crê tenha vida eterna.” És um homem salvo. Seus pecados te são perdoados. Podes ir-te em paz, e não pecar mais.

Eu admiro, em primeiro lugar, o amor de Deus no grandioso dom, e logo o grandioso plano por meio do qual esse dom está disponível para o homem culpado.

III. Em terceiro lugar, o amor de Deus brilha com um brilho transcendente, quer dizer, nas PESSOAS PARA QUAIS ESTE PLANO ESTÁ DISPONIVEL. Eles são descritos com estas palavras: “todo aquele que nele crê.”  No texto há uma palavra que não tem limites: “Deus amou o mundo de tal maneira”; mas logo vem o limite descritivo, que lhes peço que analisem com cuidado: “que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê, não  pereça.”

Deus não amou ao mundo de tal maneira que qualquer homem que não creia em Cristo seja salvo; nem tampouco deu Seu Filho para que qualquer homem que O rejeite seja salvo. Vejam como está expressado:”Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê, não pereça.” Aqui está o limite do amor: enquanto cada incrédulo está excluído, cada crente está incluído - “todo aquele que nele crê.” Suponham que exista um homem que é culpado de todos os prazeres da carne até um grau infame, suponham que é tão detestável que somente o podem tratar como a um leproso moral, e deve ser encerrado em uma casa afastada pelo temor de que contamine aos que o escutam ou vejam; mas se este homem crê em Jesus Cristo, será limpo de imediato de sua corrupção, e não perecerá por causa de seu pecado.

E suponham que há outro homem que, ao perseguir motivos egoístas, oprimiu o pobre, roubou seus clientes, e inclusive foi tão longe a ponto de cometer um crime real do qual a lei tomou conhecimento, e contudo, se crê no Senhor Jesus Cristo será levado a restituir, e seus pecados lhe serão perdoados.

Uma vez escutei a história de um pregador que falava a um grupo de prisioneiros, condenados a morte por homicídio e por outros crimes. Eles eram uma manada tal de animais selvagens segundos aparências exteriores, que parecia um empreendimento sem sucesso pregar a eles; contudo, se eu fosse o capelão dessa companhia de homens degradados, não teria dúvidas em dizer-lhes que “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna”. Oh, homem, se crês em Jesus como o Cristo, não importa quão horríveis tenham sido teus pecados do passado, serão apagados; serás salvo do poder que exercem sobre ti os teus maus hábitos; e começarás de novo como um recém nascido, com uma vida nova e verdadeira, que Deus te dará. “Todo aquele que nele crê”. Isso te inclui, amigo ancião, que estás a somente a alguns vacilantes passos da tumba. Oh, pecador de cabelos grisalhos, se tu crês nEle, não perecerás. O texto também te inclui a ti, meu jovem amigo, que escassamente entrou na adolescência: se crês nEle, não perecerás. Isto te inclui a ti, formosa jovem, e te dá esperança e alegria quando ainda és jovem. Isso nos inclui a todos nós, sempre e quando creiamos no Senhor Jesus Cristo.

Nem mesmo os diabos no inferno podem encontrar alguma razão para que o homem que crê em  Cristo se perca, pois está escrito: “e o que vem a mim, de maneira nenhuma o lançarei fora”. Se acaso comentam: “Senhor, foi tão demorado vir a Ti,” o Senhor responde: “Veio? Então não o lançarei fora por sua demora.” Mas Senhor, ele caiu depois de fazer profissão de fé. “Ele veio  finalmente? Então não o lançarei fora devido a todas suas quedas.” Mas, Senhor, ele é um blasfemo de boca muito suja. “Veio a Mim? Então não o lançarei fora apesar de todas suas blasfêmias.” Mas, alguém poderá dizer: “Eu não creio na salvação deste homem malvado. Se comportou de maneira tão abominável que com toda justiça deve ser enviado ao inferno”. Correto. Mas se ele se arrepende de seu pecado e crê no Senhor Jesus Cristo, não importa quem seja, não será enviado ao inferno. Seu caráter será mudado, de tal maneira que não perecerá jamais, mas  terá vida eterna.

Agora, observem, que esta expressão “todo aquele” tem um grande alcance; pois inclui a todos os diferentes graus de fé. “Todo aquele que nele crê”. Pode ser que ele não esteja completamente seguro; pode ser que ele não esteja seguro de todo; mas se tem fé que seja verdadeira e seja como a fé de uma criança, por meio dessa fé será salvo. Ainda que sua fé seja tão diminuta que eu tenha que colocar meus óculos para vê-la, contudo Cristo a verá e a recompensará. Sua fé pode ser como o minúsculo grão de mostarda de tal forma que eu a procuro e a procuro de novo mas tenho dificuldade em discerni-la. Contudo, essa fé lhe traz vida eterna, e é em si mesma uma coisa viva. O Senhor pode ver dentro desse minúsculo grão de mostarda, uma árvore em cujos ramos as aves do céu farão seus ninhos —

“Minha fé é fraca, eu confesso,

Apenas confio em Tua Palavra;

Mas, por isso terás menos misericórdia?

Longe de Ti está isso Senhor!

Oh, Senhor Jesus, se eu não posso tomá-lo nos braços como fez Simeão, ao menos vou tocar a borda de tuas vestes como a pobre enferma o fez e de ti saiu virtude para salvar. Está escrito: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna”. Eu estou incluído ali. Não posso pregar indefinidamente hoje; mas quisera pregar com poder. Oh, que esta verdade encharque vossas almas. Oh, vocês que se sentem culpados; e vocês que se sentem culpados porque não se sentem culpados; vocês que têm um coração quebrantado porque seu coração não pode  quebrantar-se; vocês que sentem que não podem sentir; é a todos vocês que eu quero pregar a salvação em Cristo pela fé. Vocês que gemem porque não podem gemer; mas sem importar quem sejam vocês, ainda estão dentro do alcance desta poderosa palavra, que “todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna”.

Assim eu lhes mostrei o amor de Deus em três pontos: o dom divino, o método divino de salvação, e a divina eleição das pessoas a quem chega a salvação.

IV. Agora, em quarto lugar, se pode ver outro raio de amor divino na bênção negativa enunciada aqui, ou seja, NA LIBERAÇÃO que está implicada nas palavras, “todo aquele que nele crê, não pereça”.

Eu entendo que essa palavra significa que todo aquele que crê no Senhor Jesus Cristo não perecerá, ainda que esteja a ponto de perecer. Seus pecados o levarão a perecer, mas não perecerá jamais. No princípio ele tem uma pequena esperança em Cristo, mas sua existência é fraca. Logo morrerá, não é mesmo? Não, sua fé não perecerá, pois esta promessa cobre isso: “todo aquele que nele crê, não pereça”.

O penitente creu em Jesus e, portanto, começou a ser um cristão. “Oh,” exclama um inimigo, “não se preocupem: logo virá a nós outra vez; logo voltará a ser tão descuidado como antes”.

Escutem: “Todo aquele que nele crê, não pereça”, e, portanto, ele não vai regressar a seu estado anterior. Isto demonstra a perseverança final dos santos; pois se o crente deixasse de ser crente, pereceria; e como não pode perecer, é claro que ele continuará sendo um crente. Se tu crês em Jesus, nunca deixarás de crer nEle, pois isso seria perecer. Se tu crês nEle, nunca te deleitarás em teus velhos pecados; pois isso seria perecer. Se tu crês nEle, nunca perderás a vida espiritual. Como podes perder isso que é eterno? Se fosses perdê-la, isso demonstraria que não era eterna, e tu perecerias; e assim esta palavra em ti não teria efeito.

Qualquer que crer em Cristo com seu coração, é um homem salvo, não somente no dia de hoje, mas por todos os dias em que viver, e no terrível dia da morte, e durante toda essa solene eternidade que se aproxima. “Todo aquele que nele crê, não pereça”. Terá uma vida que não pode morrer, uma justificação que não pode ser discutida, uma aceitação que não cessará nunca.

O que é perecer? É perder toda esperança em Cristo, toda confiança em Deus, toda luz na vida, toda paz na morte, todo gozo, toda bênção, toda união com Deus. Isto nunca te passará a ti, se tu crês em Cristo. Se tu crês, serás disciplinado quando fazes o mal, pois todo filho de Deus está sujeito à disciplina; e, a que filho o Pai não disciplina? Se tu crês, pode ser que duvides e tenha receios sobre o teu estado, da mesma maneira que um homem a bordo de um barco pode ser sacudido de um lado a outro; mas tu subiste a um barco que jamais afundará.

Quem tem união com Cristo tem união com a perfeição, com a onipotência e com a glória. O crente é um membro de Cristo: por acaso Cristo perderá algum de seus membros? Como poderia Cristo ser perfeito se perdesse seu dedo mindinho? Podem os membros de Cristo se extraviarem ou se desprenderem? Impossível. Se tu tens fé em Cristo, então és participante da vida de Cristo, e tu não podes perecer.

Se algumas pessoas estivessem tentando afogar-me, não poderiam fazê-lo afundando meu pé na água, estando minha cabeça sobre o nível da água; e conquanto nossa Cabeça esteja por sobre o nível da água, lá em cima na luz do sol eterno, o menor dos membros do Seu corpo não pode ser destruído jamais. Quem crê em Jesus está unido a Ele, e deve viver porque Jesus vive.

Oh, que palavra é esta: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna; e nunca hão de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai que mas deu, é maior do que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai”. Eu sinto que tenho um glorioso Evangelho para pregar a vocês quando leio que todo o que crê em Jesus não perecerá. Eu não daria nem um centavo por esse disparate, a salvação temporária que alguns proclamam, e faz a alma flutuar por um tempo, mas que logo a afunda na apostasia.

Eu não creio que o homem que uma vez está em Cristo possa viver em pecado e deleitar-se nele, e ainda assim ser salvo. Esse é um ensino abominável, que absolutamente não compartilho. Mas eu creio que o homem que está em Cristo não viverá em pecado, pois foi salvo do pecado; nem tampouco regressará a seus antigos pecados para viver neles, pois a graça de Deus continuará salvando-o de seus pecados. Uma mudança de tal magnitude é conseguida pela regeneração, o homem regenerado não pode viver em pecado, senão que ama a santificação e progride nela. O etíope pode trocar sua pele, e o leopardo suas manchas, mas somente a graça divina pode atuar na transformação; e quando a graça divina houver feito a mudança, o homem de pele negra será branco, e as manchas do leopardo nunca voltarão. Seria um milagre tão grandioso desfazer a obra de Deus como fazê-la; e destruir a nova criação necessitaria de tanto poder como para criá-la. Como somente Deus pode criar, assim somente Deus pode destruir; e Ele nunca destruirá a obra

de Suas próprias mãos. Acaso Deus poderia começar a construir e não terminar? Começaria Ele uma guerra  para terminá-la antes de alcançar a vitória? Que diria o diabo se Cristo começasse a  salvar uma alma e falhasse em Seu intento? Se houvesse almas no inferno que foram crentes em  Cristo, e ainda assim, pereceram. Isso jogaria uma mancha sobre o diadema de nosso exaltado Senhor. Não pode ser, não será assim. Deus amou o mundo de tal maneira, que todo aquele que creia em Seu amado Filho não perecerá: com esta certeza nos alegramos grandemente.

V. A última mostra de Seu amor é apresentada de maneira positiva: NA POSSE. Em certo momento terei que regressar ao mesmo terreno outra vez. Portanto, serei breve. Deus dá a todos aqueles que crêem em Cristo a vida eterna. No instante em que tu crês, treme em teu peito uma chispa vital do fogo celestial, que nunca se apagará. Nesse mesmo momento em que tu te lanças sobre Cristo, Cristo vem a ti na Palavra viva e incorruptível que vive e permanece para sempre. Ainda que somente uma gota da água celestial de vida caia em teu coração, lembra isto: são palavras pronunciadas por Quem não pode mentir: “A água que eu darei será nele uma fonte de água que salta para a vida eterna.”

Quando eu recebi pela primeira vez a vida eterna, não tinha a menor idéia do tesouro que havia recebido. Eu sabia que tinha obtido algo muito extraordinário, mas não estava consciente de seu valor superlativo. Somente pus meus olhos em Cristo naquela pequena capela, e recebi a vida eterna. Olhei para Jesus e Ele me olhou; e nos tornamos um para sempre. Nesse momento minha alegria ultrapassou todas as fronteiras, da mesma maneira que minha pena anterior me tinha  conduzido a uma dor extrema. Havia encontrado o perfeito descanso em Cristo, estava satisfeito com Ele, e o meu coração estava cheio de gozo; mas eu não sabia que esta graça era a vida eterna até que comecei a ler nas Escrituras, e a conhecer mais plenamente o valor da jóia que Deus tinha me dado. No domingo seguinte regressei à mesma capela, como era natural que eu o fizesse. Mas depois desse outro domingo nunca voltei, por esta razão: durante minha primeira semana, a nova vida que havia em mim havia sido forçada a lutar por sua existência, e um conflito com a velha natureza estava tendo lugar. Isto era, eu o sabia, um sinal especial da graça que habitava agora em minha alma; mas nessa mesma capela escutei um sermão que se baseava em “Miserável de mim! quem me livrará do corpo dessa morte?” E o pregador declarou que Paulo não era um cristão quando teve essa experiência. Sendo um bebê como era, eu sabia que essa era uma afirmação  totalmente absurda. Que outra coisa que não a graça divina pode produzir esses suspiros e essas súplicas pedindo a libertação do pecado que habita em nós? Senti que a pessoa que podia pregar tais bobagens conhecia muito pouco sobre a vida do verdadeiro crente. Eu falei comigo mesmo “Como! acaso não estou vivo por causa do conflito que sinto dentro de mim? Nunca experimentei esta luta quando eu era um incrédulo. Quando não era cristão nunca gemi para ser libertado do pecado.

Este conflito é uma das evidências mais seguras do meu novo nascimento, e, no entanto, este homem não pode ver assim. Pode ser um excelente exortador para pecadores, mas não tem alimento para os crentes”.  Resolvi não voltar ali para alimentar-me, pois não havia nenhum alimento nesse  lugar. Eu me dei conta que a luta se torna cada vez mais intensa; cada vitória sobre o pecado revela outro exército de tendências ao mal, e nunca posso embainhar minha espada, nem deixar de orar nem de vigiar.

Não posso avançar nem um centímetro no caminho sem orar por isso, nem manter o centímetro ganho sem estar vigilante e manter-me firme. Unicamente a graça pode preservar-me e aperfeiçoar-me. A velha natureza mataria a nova natureza se pudesse; e até este momento a única razão porque minha nova natureza não está morta é esta: porque não pode morrer. Se pudesse morrer, teria sido assassinada há muito tempo; mas Jesus disse: “Eu lhes dou a vida eterna”; “Quem crê em mim, tem vida eterna” e, portanto, o crente não pode morrer. A única religião que te salvará é uma que tu não podes abandonar, porque te possuiu, e jamais te abandonará. Se tu manténs uma doutrina a qual podes renunciar, renuncia a ela; mas se as doutrinas estão gravadas com fogo em ti enquanto vives, deves mantê-las, de tal maneira que se fosses queimado, cada cinza tua levaria essa mesma verdade, porque estás impregnado dessa verdade. Então encontraste a doutrina correta.

Não és um homem salvo a menos que Cristo tenha te salvado para sempre. Mas isso que te agarrou de tal maneira que sua pressão é sentida no centro de teu ser é o poder de Deus. Ter a Cristo vivendo em ti, e a verdade incrustada na tua natureza, oh, senhores, esta é a coisa que salva a alma, nada mais e nada menos. Está escrito no texto: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna”.

O que é esta vida senão uma vida que durará por setenta anos; uma vida que durará, se vives, mais de cem anos; uma vida que ainda florescerá quando descanses na boca da tumba; uma vida que permanecerá quando tenhas abandonado teu corpo, e esteja apodrecendo no túmulo, uma vida que continuará quando teu corpo seja levantado novamente, e estejas ante o trono do juízo de Cristo; uma vida que brilhará mais que essas estrelas e que aquele sol e a lua; uma vida que será da mesma duração que a vida do Pai Eterno?

Enquanto haja um Deus, o crente não somente existirá, senão que viverá. Enquanto exista um céu, tu o gozarás; enquanto Cristo exista, viverás em Seu amor; enquanto permaneça a eternidade, tu continuarás enchendo-a com deleite. Deus os abençoe e os ajude a crer em Jesus.

Amém

FONTEhttp://www.spurgeon.com.mx/sermones.html

Traduzido do espanhol, do sermão “Amor Sin Medida”, traduzido por Allan Román, com autorização deste para português pelo Projeto

Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público

Original em inglês Sermão nº 1850—Volume 31

IMMEASURABLE LOVE

Tradução; Rosangela Cruz

Revisão: Marcus Paolo Diel Rios

Armando Marcos Pinto

(PS: Esse sermão já existe em português, foi publicado pela editora PES, com o nome de “Amor Imensurável”. em tese, não deveria ter sido traduzido, poiis já existe em português: mas eu ouvi ele em MP3, em espanhol, e por um erro de não conferir a lista de sermões do Projeto, acabei pedindo que a Rosangela traduzisse. Não irei jogar fora todo esse trabalho de tradução e revisão, e tambem esse é um sermão muito bom! caso queria adquirir ele na Livraria Erdos )

3 ideias sobre “Amor sem Medida : um sermão em João 3:16

  1. aprende muito com esse sermão, eu estou iniciando no evangelho mais desejo de coração fazer a obra do Senhor pois entende que a fé sem a obra é morta, estou num ministério onde é de visão celular e na minha casa tem uma celula todas as quintas feira e vou me basear nesse sermão, e peço dicas de como levar a palavra do Senhor, agradeço desde de já.

  2. Querida Jucimara, graça e paz do nosso senhor Jesus esteja com você!
    Olha, fui durante muitos anos de uma igreja com visão celular e sempre sou tentado a dizer que foram os melhores anos da minha vida. Só não digo isso porque a Palavra nos ensina que Jesus está sempre disposto a nos dar um novo tempo ainda melhor. Mas posso te assegurar que seguindo as bases desse -dificil, longo, complexo e maravilhoso- texto poderá cuidar muito bem das ovelhinhas que o Senhor te confiou. Mais do que preparar estudos-e eu fazia isso muito bem- viva o amor. Pegue com suas atitudes a tolerância, a benignidade, o perdão. Seja contra-corrente. Vá de encontro à religião e pregue Jesus!! Seja desconcertante como ele era aos que nada tinham mas seja também inflexível ao praticar “aquilo que viu o Pai fazer”. E juntará pára ti, tesouros eternos! Lembre de orar com seu grupo por esse seu irmão aqui. Deus vos abençoe!!

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